Uma cena da abertura de Elden Ring foi reconstruída quadro a quadro num set em Londres. As fotos chegaram.
Fotos do set em Londres confirmam Emma Laird como Rainha Marika, o patíbulo do Dung Eater idêntico ao jogo, e Kit Connor num personagem ainda não revelado. Alex Garland filma para IMAX com estreia em 3 de março de 2028.
Tem uma imagem no cinemático de abertura de Elden Ring que ficou na cabeça de quem jogou em 2022. O Dung Eater - um dos NPCs mais perturbadores do jogo, uma criatura que existe para representar o pior que a humanidade pode ser - aparece por alguns segundos suspenso em correntes de um patíbulo, diante de uma estrutura que claramente é Leyndell, a capital do jogo. A cena é animada, estilizada, parte de um prólogo que dura menos de dois minutos. Mas é específica o suficiente para ser memorável: um julgamento congelado no tempo, num mundo onde punição e divindade são a mesma coisa.
Quatro anos depois, Alex Garland reconstruiu esse patíbulo num set em Londres. As fotos do set do filme de Elden Ring chegaram esta semana, e a mais reveladora delas é exatamente essa: uma estrutura de madeira com correntes, suspensa do lado de fora de um edifício que reproduz a arquitetura de Leyndell com fidelidade suficiente para ser reconhecida de imediato por qualquer fã do jogo.
O Dung Eater, Leyndell e o que Garland está citando
Isso não é coincidência. É uma decisão de direção.
Garland escreveu um roteiro de 160 páginas, mais 40 páginas de referências visuais, antes de ir pessoalmente ao Japão apresentar o projeto à FromSoftware. Para um diretor que construiu a carreira em cima de filmes que fazem a imagem trabalhar a serviço da ideia, de Ex Machina: Instinto Artificial a Aniquilação a Guerra Civil, a escolha de começar pelo cinemático de abertura como referência visual não é nostalgia de fã. É linguagem de adaptação.
Quando um cineasta recria uma imagem icônica de sua fonte, está dizendo ao público: eu conheço esse texto, e minha versão parte de dentro. O patíbulo do Dung Eater é uma citação, no sentido literário do termo. E citações desse tipo são as mais honestas que uma adaptação pode fazer.
A Rainha Marika entra em cena
A outra revelação das fotos é Emma Laird caracterizada como Rainha Marika. Laird, conhecida pelo seriado Mayor of Kingstown, aparece em figurino de produção que surpreende à primeira vista: um vestido azul profundo com coroa dourada, cinto em corrente e tranças longas que descem até a cintura. A Marika do jogo é branca e dourada como uma estátua. A Marika de Garland tem outra textura, mais humana, com o tipo de ambiguidade visual que a personagem exige. Marika é simultaneamente deusa, prisioneira e criadora do conflito central de Elden Ring, e no jogo ela nunca aparece em ação - o jogador a encontra já fragmentada, imóvel, punida.

A presença de Marika como personagem ativa no filme confirma o que o anúncio do elenco na semana passada já deixava implícito: o filme não é uma adaptação direta da história do Maculado. É um prequel, ou pelo menos em parte. Ele se passa antes da Fragmentação - o evento cataclísmico em que Marika quebra o Anel Dourado e desencadeia a guerra que define todo o universo do jogo - e vai cobrir território que o próprio jogo só insinua através de fragmentos de lore em itens e diálogos.
Do ponto de vista narrativo, é a decisão certa. Adaptar os eventos do jogo seria recriar uma experiência interativa como filme passivo, e o que tornaria a jornada do Maculado interessante num roteiro linear não é óbvio. Contar o que aconteceu antes - os deuses, as traições, a queda - é contar a história que o jogo usa como cenário. É o que The Last of Us fez com seus flashbacks, o que Arcane fez com o mundo de League of Legends. A fonte vira contexto, e o filme pode viver nela sem ser refém dela.
Kit Connor e o personagem sem nome
As fotos mostram também Kit Connor no set, em traje medieval parcialmente coberto por um casaco de chuva, conversando com a equipe de produção. O personagem que ele interpreta não foi confirmado oficialmente, mas as teorias convergem para duas possibilidades: o Maculado - protagonista do jogo, sem nome, sem história definida - ou um dos descendentes dos semideuses que formam os antagonistas da história.
Connor tem 22 anos e construiu reconhecimento com a série Heartstopper, mas sua carreira de cinema tem ido para lugares menos óbvios do que o material de origem sugere. Que a A24 e Garland tenham escolhido um ator jovem e britânico, associado a personagens de intensa carga emocional interna, diz algo sobre o tipo de protagonista que o filme vai apresentar. O Maculado do jogo é uma tela em branco por design - o jogador projeta nele a própria trajetória. Num filme, essa ausência de definição precisa virar presença. Connor parece uma escolha pensada para isso.
O elenco completo e a máquina da A24
Além de Laird e Connor, o elenco confirmado inclui Cailee Spaeny, Ben Whishaw, Tom Burke, Havana Rose Liu, Sonoya Mizuno, Jonathan Pryce, Ruby Cruz, Nick Offerman, John Hodgkinson, Jefferson Hall e Peter Serafinowicz. É um conjunto com densidade de premiação e nenhum nome principal que seja contratado pelo histórico de bilheteria em vez de pela capacidade de interpretar. O perfil é exatamente o que a A24 monta quando está apostando alto num gênero.
O filme está sendo rodado para IMAX e tem estreia marcada para 3 de março de 2028.
A data importa por um motivo específico: o mercado de videogame como fonte de adaptação cinematográfica está no momento mais competitivo dos últimos vinte anos. Fallout, The Last of Us e Arcane redefiniu o que é possível esperar da categoria. Elden Ring chega num momento em que o público já não aceita adaptação de serviço - quer obra.
As fotos do set, com o patíbulo reconstruído e a rainha em carne e osso, sugerem que Garland não está tratando isso como trabalho de contrato. Quando as primeiras imagens do set vazaram em abril, havia uma estátua de Marika em tamanho real. Agora há a própria Marika. O que virá daqui a dois anos é difícil de prever. O que as fotos confirmam é que alguém está levando isso a sério.
Felipe Ouder
Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.
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