O filme brasileiro com 100% no Rotten Tomatoes está estreando nos EUA. A maioria dos brasileiros nem sabe que ele existe
O Último Azul, de Gabriel Mascaro, ganhou o Urso de Prata em Berlim, tem 100% no Rotten Tomatoes e estreou nos cinemas americanos.
Gabriel Mascaro tem um problema bonito. O Último Azul, seu quarto longa, ganhou o Urso de Prata do Grande Júri no Festival de Berlim em 2025, levou o Prêmio do Júri Ecumênico na mesma cerimônia, acumula 100% de aprovação no Rotten Tomatoes e estreou nos cinemas americanos no dia 3 de abril pela distribuidora Dekanalog. A crítica da IndieWire chamou o filme de “brilhante road movie distópico”. O problema é que no Brasil, onde o filme passou nos cinemas em agosto de 2025 pela Vitrine Filmes, a maioria das pessoas não ouviu falar dele.
Isso diz muito sobre a relação que o país tem com seu próprio cinema.
O que é O Último Azul
A premissa funciona como um soco no estômago disfarçado de sinopse. Num Brasil de futuro próximo, o governo implementou um programa de realocação forçada de idosos. Pessoas acima de certa idade recebem uma “data de validade” e são transferidas pra colônias estatais, uma espécie de depósito humano com linguagem burocrática de política pública. Teresa, uma mulher de 77 anos interpretada por Denise Weinberg, se recusa. Foge. E o filme acompanha sua viagem rio acima pela Amazônia, num barco conduzido por Cadu, um barqueiro com o coração partido vivido por Rodrigo Santoro.
Se a premissa lembra Filhos da Esperança (2006) de Alfonso Cuarón, Logan’s Run (1976) ou até o clássico Soylent Green (1973), o tratamento de Mascaro é completamente diferente. Não há ação. Não há perseguições. O ritmo é o do rio, lento e inevitável, com momentos de realismo mágico que envolvem um caracol azul e substâncias alucinógenas que parecem dissolver a fronteira entre memória e presente. É distopia, mas filmada como se fosse um sonho.

O olhar de Mascaro
Quem conhece o trabalho de Gabriel Mascaro sabe que ele nunca foi um cineasta convencional. Boi Neon (2015), que estreou na Mostra de Veneza e foi pra Cannes, transformou um vaqueiro do Nordeste em protagonista de um filme sobre masculinidade e desejo. Ventos de Agosto (2014) usou atores não-profissionais pra construir um documentário-ficção sobre uma comunidade litorânea. Mascaro opera nessa faixa entre o real e o inventado, e O Último Azul é provavelmente o ponto mais refinado dessa trajetória.
O filme foi rodado em formato Academy (aquele quadro quase quadrado, mais estreito que a tela widescreen padrão), uma escolha que comprime o espaço visual e força o espectador a olhar pra dentro da imagem em vez de se perder na paisagem. Guillermo Garza assina a fotografia, e a decisão faz sentido: o rio Amazonas é tão vasto que filmá-lo em tela larga seria apenas turismo. No formato 4:3, cada enquadramento vira uma pintura claustrofóbica onde a imensidão da natureza só aparece nas bordas, como uma promessa de liberdade que o quadro não permite alcançar totalmente.
A trilha de Memo Guerra acompanha essa lógica. É discreta, quase ambiental, deixando que os sons do rio e da floresta façam o trabalho pesado. Quando a música aparece de fato, é pra marcar os momentos em que Teresa se permite, finalmente, existir fora do controle do Estado.
As atuações
Denise Weinberg tem mais de 40 anos de carreira no teatro brasileiro e é uma daquelas atrizes que todo mundo do meio conhece, mas que nunca teve o papel de cinema que mereceu. O Último Azul corrige isso. Sua Teresa é silenciosa, teimosa, fisicamente frágil, mas dona de uma presença que domina cada cena sem precisar levantar a voz. É uma atuação de olhares e gestos mínimos, do tipo que exige que a câmera confie nela, e Mascaro confia.
Rodrigo Santoro, que o público brasileiro conhece mais por Hollywood e novela, faz aqui um trabalho oposto ao que costuma fazer. Cadu é um homem apagado, com uma dor pessoal que ele carrega calado, e Santoro se dissolve no papel sem nenhuma vaidade. É o tipo de atuação que lembra o que ele fez em Heleno (2011), antes de virar coadjuvante de blockbuster americano.
O que a crítica internacional está dizendo
O filme passou por mais de 15 festivais internacionais e carrega uma aprovação unânime no Rotten Tomatoes. Ryan Lattanzio, da IndieWire, colocou o filme ao lado de Filhos da Esperança e A Fera (2022) de Bertrand Bonello como exemplos de ficção científica que usa o gênero pra falar de algo mais profundo. O Screen Daily elogiou a performance de Weinberg como “hipnotizante”. A Moviejawn chamou a combinação de distopia e realismo mágico de “única no cinema contemporâneo”.
O New York Times, pela pena de Manohla Dargis, foi mais reservado, descrevendo o filme como “uma jornada à deriva” com momentos de beleza desigual. É uma leitura válida. O Último Azul exige paciência, e quem espera um thriller de fuga vai se frustrar. Mas quem aceita o ritmo do rio encontra um filme que fala sobre envelhecer, sobre ser descartável, sobre o que resta quando o Estado decide que você não vale mais o espaço que ocupa.

Por que isso importa
O Último Azul fez 190 mil ingressos nos cinemas brasileiros. É um número respeitável pra cinema de autor, mas invisível perto de qualquer blockbuster de fim de semana. A coprodução com México, Chile e Holanda garantiu o orçamento, e o circuito de festivais garantiu o prestígio. O Urso de Prata é o tipo de prêmio que coloca um filme no mapa mundial. Mas no Brasil, o mapa tem outros problemas.
É um filme sobre um governo que descarta seus idosos sendo lançado num país onde a discussão sobre reformas da previdência, asilos precários e abandono da terceira idade é permanente. A distopia de Mascaro não é futurista, é uma versão ligeiramente exagerada de algo que já existe em forma burocrática. E talvez por isso incomode, porque a ficção científica funciona melhor quando mantém distância segura da realidade.
Se você perdeu O Último Azul nos cinemas em agosto, procure. É o tipo de filme que o cinema brasileiro precisa fazer mais, e que o público brasileiro precisa assistir mais. Nem que seja pra lembrar que o país que produz Rodrigo Santoro e Denise Weinberg também é capaz de produzir a visão de Gabriel Mascaro, mesmo que quase ninguém esteja prestando atenção.
Felipe Ouder
Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.
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