O Google vai treinar IA com suas fotos, áudios e vídeos. A opção vem ligada, mas dá pra desligar

O Google passou a salvar fotos, áudios e vídeos que você manda aos serviços dele para treinar IA, e a opção vem ligada por padrão. Veja como desativar.

Bruno Silva
Bruno Silva Entusiasta de hardware e overclocker nas horas vagas
26 de junho de 2026 6 min
Três celulares exibindo o app de galeria de fotos do Google, com imagens organizadas e tela de edição, sobre fundo com as cores do Google
!!

O Google começou a guardar automaticamente as fotos, os áudios e os vídeos que você envia para os serviços de busca da empresa, e parte desse material pode acabar treinando os modelos de inteligência artificial dele. A mudança vale para quem usa Pesquisa, Maps, Shopping, Tradutor, Google Lens e até a Google Play Store, e está sendo liberada globalmente nas próximas semanas. O detalhe que pesa: o Google vai usar suas fotos e vídeos para treinar IA com a opção já ligada por padrão. Ninguém te perguntou nada.

Antes de entrar em pânico, vale entender o que mudou de verdade, porque tem bastante confusão circulando, inclusive gente achando que o Google vai vasculhar a galeria do celular. Não é isso.

O que o Google passou a guardar

“Treinar IA”, no caso, significa o seguinte: cada foto que você joga no Google Lens para identificar uma planta, cada áudio que você grava para traduzir, cada print que você manda dentro de uma busca vira material de estudo para os sistemas que deixam a IA do Google mais esperta. Importante deixar claro: o Google não mexe no rolo de câmera do seu celular. O material em jogo é só o que você envia ativamente para dentro dos serviços de busca. Mesmo assim, continua sendo mídia sua, com seu rosto, sua voz, a sua casa no fundo da foto.

Essa coleta veio junto com uma reorganização das configurações de privacidade. O que antes era um controle único, a “Atividade na Web e de Apps”, foi quebrado em três partes:

  • Histórico dos serviços da Pesquisa, que define se essa atividade fica guardada
  • Recomendações personalizadas, que usa esse histórico para personalizar resultados
  • Salvar mídia, a subopção nova, que captura as fotos, áudios e vídeos que você envia

A última, a “Salvar mídia”, é a que interessa. E ela chega marcada para todo mundo que já tinha a “Atividade na Web e de Apps” ligada, que é o estado padrão de praticamente qualquer conta Google. Traduzindo: se você nunca mexeu em nada, já está dentro.

Esse modelo tem nome, opt-out. Em vez de perguntar se você quer participar, que seria o opt-in, a empresa te coloca para dentro e deixa a porta de saída lá no fundo do menu, para você encontrar se procurar. É o mesmo manual que o Google usou em maio quando empurrou a IA nas buscas sem opção de desligar, e que a Meta aplicou no Instagram quando ligou o mapa de localização sozinha. Funciona porque a esmagadora maioria das pessoas nunca abre as configurações.

Vale separar uma coisa da outra, porque a internet está misturando tudo. A mudança é sobre a mídia que você manda para a busca. Ela não cobre o conteúdo do seu Gmail, do Drive nem a biblioteca do Google Fotos, que seguem regras próprias e, segundo a empresa, não alimentam o treino dos modelos abertos do Google. O alvo é específico: o que passa pela Pesquisa.

O passo a passo para desligar o “Salvar mídia”

A parte boa é que sair leva menos de cinco minutos. O caminho é esse:

  1. Entre em myactivity.google.com, a página “Minha Atividade”, logado na sua conta.
  2. Abra a seção “Histórico dos serviços da Pesquisa”.
  3. Procure a subopção “Salvar mídia” e desmarque.

Pronto. Dali em diante, as fotos e os áudios que você mandar não entram mais no caldeirão de treino. Se quiser ir além, dá para desligar o histórico inteiro ou apagar entradas específicas no mesmo lugar, e a própria página de ajuda do Google detalha cada botão.

A letra miúda: até quatro anos no servidor

Tem um porém grande, do tipo que o Google não coloca em negrito. Desligar o “Salvar mídia” só vale daqui para frente. O que já foi salvo continua salvo e pode seguir sendo usado para melhorar os sistemas da empresa, a menos que você apague manualmente.

Pior que isso: a mídia que já foi selecionada para treinar a IA é desvinculada da sua conta e guardada por até quatro anos, mesmo que você apague a atividade original depois. Ou seja, uma vez que a sua foto entrou no treino, apagar não desfaz nada. Ela vira um dado órfão num servidor do Google até lá por 2030. Por isso a ordem importa: desligar agora evita o uso futuro, mas só apagar a mídia antiga resolve o passado.

Desvincular da conta, na teoria, significa tirar o seu nome de cima daquela foto. Só que anonimizar mídia é notoriamente furado, porque um rosto continua sendo um rosto, com ou sem etiqueta colada. Serve mais para o termo de uso ficar bonito do que para a sua privacidade no mundo real.

Por que isso esbarra na LGPD

É na lei brasileira que a coisa fica espinhosa. A LGPD, a Lei Geral de Proteção de Dados, exige uma base legal clara para tratar dado pessoal, e o consentimento é a mais evidente delas. Ligar uma coleta dessas por padrão, sem perguntar, é exatamente o tipo de prática que a ANPD, a agência que fiscaliza a lei, anda observando de perto. Faz pouco tempo que a Claro levou uma conta que pode chegar a R$ 50 milhões por repassar dados de clientes sem base sólida. Se a ANPD vai peitar uma gigante global do tamanho do Google é outra conversa, mas que o modelo opt-out anda na corda bamba por aqui, anda.

Para você, a recomendação é direta. Se não se importa de ajudar a treinar a IA do Google de graça, não precisa fazer nada, está tudo funcionando como a empresa quer. Se você se importa, abre o myactivity.google.com hoje, desliga o “Salvar mídia” e apaga o que já estiver lá, porque depois que o dado vira material de treino não tem mais volta.

O que me incomoda não é o Google querer dados para treinar IA. Todo mundo grande faz isso, e dado virou o ativo mais valioso dessas empresas faz tempo. O problema é decidir por você e esconder o botão. A configuração devia chegar desligada, com o Google perguntando se você topa entrar. Empurrar por padrão e enterrar a saída três menus abaixo é pegadinha com nome de privacidade.

Bruno Silva
AUTOR

Bruno Silva

Entusiasta de hardware e overclocker nas horas vagas

Especialista em hardware, benchmarks e overclock. Analisa componentes e tendências do mercado.

100% FREE * SEM SPAM

FICA POR
DENTRO

Todo domingo, um drop com o que você precisa saber sobre cultura pop e tech. Rápido, curado, sem spam.