É uma péssima, péssima ideia usar sua arroba do Instagram no seu WhatsApp

O @ do WhatsApp esconde seu número de estranhos. Reservar o mesmo apelido do Instagram abre de novo a trilha de volta até você.

Bruno Silva
Bruno Silva Entusiasta de hardware e overclocker nas horas vagas
4 de julho de 2026 6 min
Tela de configuração de nome de usuário do WhatsApp com o símbolo de arroba em destaque
!!

A Meta liberou no fim de junho a reserva do nome de usuário do WhatsApp, e a proposta é ótima no papel: um @ que começa com arroba, de 3 a 35 caracteres, que deixa outra pessoa te mandar mensagem sem nunca enxergar o seu número de telefone. Parece detalhe pequeno. O número é a informação mais sensível que você carrega dentro do app. É com ele que golpista tenta clonar sua conta, monta engenharia social (aquele golpe em que o criminoso se passa por alguém de confiança pra te manipular) e, no fim da linha, chega no seu banco. Trocar a exposição do número por um apelido é ganho real de segurança.

O problema mora na primeira decisão que quase todo mundo vai tomar no automático: usar no WhatsApp o mesmo @ do Instagram.

Por que copiar o @ do Instagram é uma má ideia

Reservar o mesmo apelido que já está na sua bio pública desfaz boa parte do motivo de o recurso existir. A busca do WhatsApp só encontra você pelo nome exato, então ninguém vai adivinhar um apelido aleatório digitando letra por letra. Só que um @ estampado no seu perfil do Instagram, com centenas ou milhares de seguidores, não tem nada de secreto. Ele é praticamente um crachá.

Isso abre duas portas. A primeira é o cruzamento entre plataformas. Um estranho vê o seu nome num grupo de WhatsApp, copia o @, joga no Instagram e monta em segundos um dossiê seu: rosto, cidade, rotina, com quem você anda. Funciona na direção contrária também, do Instagram de volta pro WhatsApp. Antonielle Freitas, advogada especialista em Direito Digital, resume bem: reutilizar o mesmo nome “anula parte do ganho de privacidade” e “amplia a exposição da vítima” em casos de assédio ou perseguição. A proteção, segundo ela, depende “tanto do comportamento do usuário quanto do desenho da plataforma”. Metade do trabalho é seu.

A segunda porta é pior pra quem tem público. Basta um @ parecido, com uma letra trocada ou um sublinhado a mais, pra alguém se passar por você. Quem já confia na sua marca recebe uma mensagem que parece sua e cai. Foi exatamente por causa disso que a Índia pediu à Meta para pausar o recurso, citando risco de fraude, de phishing (o golpe em que alguém finge ser um contato ou empresa confiável pra arrancar sua senha ou seu dinheiro) e do que o governo chamou de golpe de falsa autoridade: criminosos se passando por figuras públicas usando nomes quase idênticos aos reais.

Fábio Assolini, da Kaspersky, lembra por que o alvo continua sendo o número que fica por trás de tudo isso. “O número de telefone é uma chave de identidade valiosa”, usada pra confirmar sua identidade em vários serviços, e que “permite que criminosos realizem golpes de engenharia social complexos”. O @ esconde esse número dos estranhos. Repetir o apelido de outra rede reconstrói a trilha que leva de volta até ele.

As travas que o WhatsApp colocou no nome de usuário

A Meta não soltou o recurso sem freios. São três camadas, e vale entender o que cada uma faz antes de sair reservando apelido.

Chave de nome de usuário: uma trava opcional, um código extra que a pessoa precisa saber além do seu @ pra te mandar a primeira mensagem. Sem a chave ligada, qualquer um que digite o seu @ exato já cai na sua conversa. Com a chave, saber o apelido sozinho não basta. É a diferença entre um cadeado de verdade e uma placa com seu nome.

PIN de quatro dígitos: uma senha curta que a Meta vai ativar como camada adicional, necessária pra que um desconhecido tente iniciar contato. Sem acertar o PIN, a mensagem não sai.

Reivindicar o seu @ do Instagram ou Facebook: dá pra garantir o mesmo apelido das outras redes conectando o WhatsApp à Central de Contas da Meta, com prova de que você é o dono. Serve pra impedir que outra pessoa registre o seu nome e se passe por você.

E é justo nessa terceira trava que aparece a ironia. A mesma ação que te protege da impersonação, garantir o seu @ antes que um impostor pegue, é a que aumenta o rastreamento entre plataformas, porque amarra oficialmente os seus perfis. Blindar um lado enfraquece o outro. Cada escolha dessas tem um custo, e a boa é a que você faz sabendo qual é.

O que fazer antes de reservar o seu

A parte prática cabe em poucos passos. O caminho é Configurações > Conta > Nome de usuário, na versão mais recente do app. Antes de digitar qualquer coisa:

  • Escolha um @ único, diferente do que você usa em outras redes. Se privacidade é o objetivo, o apelido novo tem que ser mesmo novo.
  • Fuja de nome completo, sobrenome, data de nascimento, cidade, profissão ou apelidos que todo mundo já te conhece. Cada um desses é uma pista.
  • Restrinja foto de perfil, recado e “visto por último” só pra contatos salvos. O @ some o número, mas o resto continua aberto se você deixar.
  • Ligue a chave de nome de usuário se você tem perfil público ou já sofreu com contato indesejado.
  • Não responda mensagem de desconhecido. Bloqueie e denuncie.

No Brasil isso pesa mais do que na média. Por aqui o WhatsApp virou o telefone, o SAC, a maquininha e o canal de PIX ao mesmo tempo, e o número está cadastrado no seu banco. Esconder esse número de quem você não conhece é um upgrade de segurança concreto, do tipo que não custa nada. Quando a Meta anunciou a reserva dos apelidos, a corrida foi garantir o @ antes que ele sumisse, e a gente explicou como reservar o seu na época. Só que garantir o nome e configurar o nome são coisas diferentes.

A reserva já está aberta, e o recurso vai valer oficialmente nos próximos meses, com liberação gradual e aviso dentro do app quando chegar no seu país. Dá tempo de pensar. O recurso é bom, ele só entrega privacidade pra quem trata o @ como informação nova, separada do resto. Reservar o mesmo apelido que já está na sua bio pública é pagar por um cadeado e deixar a chave pendurada na fechadura.

Bruno Silva
AUTOR

Bruno Silva

Entusiasta de hardware e overclocker nas horas vagas

Especialista em hardware, benchmarks e overclock. Analisa componentes e tendências do mercado.

100% FREE * SEM SPAM

FICA POR
DENTRO

Todo domingo, um drop com o que você precisa saber sobre cultura pop e tech. Rápido, curado, sem spam.