Trump classificou a criadora do Claude como ameaça à segurança nacional. O crime dela foi dizer não.

O Pentágono baniu a Anthropic como ameaça nacional por ela recusar IA sem limites. Horas depois, a OpenAI assinou contrato com as mesmas condições.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
28 de fevereiro de 2026 5 min
Dario Amodei, CEO da Anthropic, e Sam Altman, CEO da OpenAI, no AI Impact Summit em Nova Delhi, fevereiro de 2026
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A Anthropic tinha um contrato de US$200 milhões com o Pentágono. O Claude era o único modelo de IA rodando nos sistemas classificados das forças armadas americanas. Tudo ia bem até o Departamento de Defesa exigir uma coisa: acesso irrestrito. Sem limites. Pra “qualquer uso legal.”

A Anthropic disse não. Tinha duas condições inegociáveis: o Claude não seria usado em armas autônomas e não seria usado pra vigilância em massa de cidadãos americanos. O CEO Dario Amodei foi direto: “Não podemos, em boa consciência, aceitar essa exigência.”

O que aconteceu nos dois dias seguintes foi o tipo de coisa que parece roteiro de série, mas aconteceu na vida real.

A retaliação

Na quinta-feira, 26 de fevereiro, o Pentágono deu um prazo final pra Anthropic ceder. Às 17h01, horário de Washington. A empresa não cedeu.

Na sexta-feira de manhã, Trump publicou no Truth Social: “Os esquerdistas malucos da Anthropic cometeram um ERRO DESASTROSO tentando PRESSIONAR o Departamento de Guerra.” O secretário de Defesa Pete Hegseth classificou a Anthropic como “risco à cadeia de suprimentos para a segurança nacional” - uma designação que normalmente é reservada pra empresas de países adversários. Tipo a Huawei. Tipo empresas chinesas.

Uma empresa americana de IA, fundada por ex-funcionários da OpenAI, com sede em San Francisco, recebeu o mesmo tratamento que o governo dá pra empresas ligadas ao Partido Comunista Chinês. Porque se recusou a deixar o Pentágono usar IA sem supervisão humana.

O contrato de US$200 milhões foi cortado. A Anthropic tem seis meses pra ser eliminada de todos os sistemas do governo. E toda empresa que trabalha com o Pentágono agora precisa certificar que não usa o Claude em seus fluxos de trabalho.

O Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos em Arlington, Virgínia
O Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos em Arlington, Virgínia

Horas depois, a OpenAI apareceu

Na mesma sexta-feira à noite, Sam Altman postou que a OpenAI tinha fechado um acordo com o “Departamento de Guerra” pra implantar seus modelos na rede classificada do Pentágono. Horas. Não dias, não semanas. Horas.

E aqui vem a parte que faz você coçar a cabeça: o acordo da OpenAI inclui proibições contra vigilância doméstica em massa e exige responsabilidade humana no uso de força, incluindo armas autônomas. Altman disse que o Pentágono concordou com esses princípios, “refletindo-os em lei e política.”

São exatamente as mesmas condições que a Anthropic pediu e foi punida por pedir.

Sam Altman, CEO da OpenAI, no AI Impact Summit em Nova Delhi em fevereiro de 2026
Sam Altman, CEO da OpenAI, no AI Impact Summit em Nova Delhi em fevereiro de 2026

A diferença? Altman jogou o jogo político. Em memo interno reportado pela Axios, disse aos funcionários que a OpenAI manteria as mesmas linhas éticas da Anthropic. E pra CNBC declarou: “Eu pessoalmente não acho que o Pentágono deveria estar ameaçando empresas com a Lei de Produção de Defesa.” Traduzindo: concordou com a Anthropic em tudo, criticou o Pentágono em público, e assinou o contrato antes que a tinta do banimento secasse.

Os funcionários se revoltaram

Aqui a história vira algo que ninguém do Pentágono esperava.

Mais de 570 funcionários do Google e 93 da OpenAI assinaram uma carta aberta chamada “Não Seremos Divididos.” O texto acusa o Pentágono de tentar jogar as empresas umas contra as outras: “Eles estão tentando dividir cada empresa com o medo de que a outra vai ceder. Essa estratégia só funciona se nenhum de nós souber onde os outros estão.”

A carta pede que Google e OpenAI “deixem as diferenças de lado e se posicionem juntas” pra recusar o que o Pentágono está exigindo: permissão pra usar IA em vigilância doméstica em massa e pra matar pessoas de forma autônoma sem supervisão humana.

Cerca de metade dos signatários colocaram o nome. A outra metade assinou anonimamente. Todos foram verificados como funcionários atuais das respectivas empresas.

O contexto que ninguém quer falar

Quando o DHS e o ICE começaram a usar dados de redes sociais pra monitorar pessoas, já era claro que a linha entre segurança nacional e vigilância de cidadãos tava ficando borrada. O pedido do Pentágono pra Anthropic não surgiu do nada - é a extensão lógica de um governo que cada vez mais trata ferramentas de tecnologia como extensões do aparato de segurança.

E tem um detalhe que soa quase como piada. Enquanto tudo isso acontecia, Elon Musk estava num depoimento do processo contra a OpenAI e soltou: “Ninguém cometeu suicídio por causa do Grok, mas aparentemente cometeram por causa do ChatGPT.” Uma declaração pesada - exceto que semanas antes, o Grok inundou o X com imagens pornográficas não consensuais geradas por IA, incluindo supostamente de menores, o que levou o procurador-geral da Califórnia a abrir investigação. E a xAI de Musk? Foi aprovada pra operar nos sistemas classificados do Pentágono. Sem alarde.

O que isso significa

A Anthropic já anunciou que vai contestar a designação de “risco à cadeia de suprimentos” na justiça. A empresa tem receita anual de US$14 bilhões e avaliação de US$380 bilhões - não vai sumir por causa de um contrato militar. O dano real é outro: o precedente. Se o governo americano pode classificar uma empresa doméstica como ameaça à segurança nacional por ter limites éticos, toda empresa de IA acaba de receber o recado.

A corrida por chips de IA entre OpenAI e Nvidia que a gente cobriu no começo do mês parece quase ingênua agora. Naquele caso, a briga era por hardware. Agora a briga é por quem controla o que a IA pode fazer quando o cliente é o maior exército do mundo.

O mais irônico de tudo? A OpenAI conseguiu exatamente o que a Anthropic pediu. As mesmas restrições. As mesmas linhas vermelhas. A única diferença é que uma foi punida por pedir e a outra foi recompensada por esperar a punição acontecer.

Se você usa o Claude - e se você está lendo o Ovelha Eletrica, a chance é grande - nada muda pra você. A Anthropic continua operando normalmente fora do governo americano. Mas se você trabalha com tecnologia e acha que essa briga é só sobre geopolítica distante, pense de novo. O precedente de tratar limites éticos como ameaça à segurança nacional não fica contido numa fronteira.

Lucas Ferreira
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Lucas Ferreira

Gamer desde o PS1, cético desde sempre

Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.

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