Uma piloto paraplégica morreu filmando conteúdo para o Apple Vision Pro - e a Apple tinha recebido os avisos

Claire Lomas pilotava uma aeronave leve no deserto da Jordânia quando caiu. Estava sendo filmada para a série Adventure do Vision Pro. A equipe tinha alertado a Apple antes.

Bruno Silva
Bruno Silva Entusiasta de hardware e overclocker nas horas vagas
16 de abril de 2026 5 min
Claire Lomas sorrindo em frente à Ponte Tyne, usando camiseta do projeto ReWalk
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Claire Lomas ficou conhecida mundialmente em 2012 por completar a Maratona de Londres usando um exoesqueleto robótico, cinco anos depois de uma queda de cavalo que a deixou paraplégica. Em julho de 2024, ela estava no deserto da Jordânia pilotando uma aeronave leve, sendo filmada para uma série de vídeo imersivo do Apple Vision Pro, quando a aeronave saiu da pista após pousar e colidiu com uma pedra. Claire morreu das feridas semanas depois. Tinha 44 anos.

O acidente virou notícia agora porque um relatório de investigação divulgado em março de 2025 foi recuperado pelo MacRumors e pelo Bloomberg, e o que ele documenta é direto: antes das filmagens na Jordânia, membros da equipe de produção já tinham levantado preocupações formais de segurança com a Apple. A empresa respondeu. E mandou a equipe continuar.

O que o Vision Pro tinha a ver com tudo isso

O Vision Pro é o headset de realidade mista da Apple lançado em fevereiro de 2024 por US$ 3.499. Para quem não está familiarizado com o hardware: é um óculos computacional com telas micro-OLED de altíssima resolução em cada olho, chip M2 para processamento principal e chip R1 dedicado ao processamento de sensores em tempo real, o que reduz a latência visual a menos de 12 milissegundos. Um dos diferenciais centrais do dispositivo é o suporte a vídeo espacial de 180 graus, filmagens feitas com câmeras estereoscópicas (duas lentes lado a lado que simulam a distância entre os olhos) que criam uma sensação de presença quando assistidas dentro do headset. Não é 3D de cinema. É diferente. Quem assistiu descreve como estar dentro da cena.

A Apple construiu boa parte do argumento de venda do Vision Pro em torno desse tipo de conteúdo. E para ter conteúdo, precisava produzi-lo. A série Adventure, feita em parceria com a Atlantic Studios, era exatamente isso: episódios filmados em locais extremos com atletas em situações de risco real. Highline a 3.000 pés de altura. Mergulho sob o gelo do Ártico. Parkour nos telhados de Paris. Salto de pedras na Espanha. O ponto era mostrar que o vídeo imersivo do Vision Pro conseguia colocar o espectador em experiências que nenhum outro dispositivo replicava.

Pessoa usando o Apple Vision Pro, headset de realidade mista com telas micro-OLED e design de óculos futurista
Pessoa usando o Apple Vision Pro, headset de realidade mista com telas micro-OLED e design de óculos futurista

O episódio da Jordânia era um desses. Claire Lomas pilotaria sobre o Vale de Wadi Rum e sobrevoaria as ruínas de Petra. Uma câmera estava montada na aeronave. Ela estava sendo filmada durante o voo e o pouso quando o acidente aconteceu.

O que a equipe tinha dito antes

O que o relatório documenta, e que o 9to5Mac detalhou, é que os avisos não vieram depois. Vieram antes.

Membros da equipe de produção reportaram à Apple três categorias de preocupação: equipes trabalhando mais horas do que o razoável para esse tipo de atividade de alto risco; filmagens em condições climáticas extremas sem preparo adequado; e operação de equipamentos em situações para as quais a equipe tinha treinamento insuficiente. Aeronaves leves do tipo microlight, por exemplo, têm taxa de acidentes aproximadamente o dobro da de aeronaves convencionais de pequeno porte, e taxa de fatalidade maior quando os acidentes ocorrem.

A resposta da Apple foi enviar um representante de saúde e segurança para acompanhar a produção periodicamente. Não há registro de qualquer alteração substancial nos procedimentos de filmagem, nos horários ou no escopo das atividades. A produção na Jordânia prosseguiu.

Um mês depois da morte de Claire Lomas, a Apple e a Atlantic Studios já estavam no Colorado filmando o próximo episódio de Adventure. Cinco episódios da série foram lançados. O episódio da Jordânia nunca saiu. Nenhum novo episódio foi publicado desde o ano passado.

O Vision Pro que nunca chegou ao Brasil e a série que parou de crescer

O Vision Pro não tem lançamento oficial no Brasil. Quem quiser usar precisa importar por conta própria e desembolsar entre R$ 18.000 e R$ 22.000 dependendo do câmbio e das taxas, sem garantia local e sem suporte na rede de assistência técnica da Apple no país. O argumento principal para esse investimento, especialmente no caso de conteúdo como a série Adventure, era que o dispositivo entregava experiências visuais que simplesmente não existem em nenhuma outra tela disponível.

Esse argumento continua tecnicamente válido. O hardware do Vision Pro ainda é o mais avançado disponível para vídeo imersivo. Mas a série que era a vitrine central desse argumento foi produzida com avisos de segurança ignorados, resultou na morte da atleta que seria o rosto de um dos episódios, e parou de receber novos conteúdos.

A Apple não comentou publicamente o relatório de investigação. A série Adventure segue disponível no Vision Pro sem qualquer nota ou alteração.

Quando uma empresa recebe avisos formais de segurança, envia um representante como resposta simbólica, e autoriza a continuação de uma produção de alto risco que termina em morte, o problema não é operacional. É de como a empresa calcula o que vale quanto.

Bruno Silva
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Bruno Silva

Entusiasta de hardware e overclocker nas horas vagas

Especialista em hardware, benchmarks e overclock. Analisa componentes e tendências do mercado.

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