As coisas que perdemos no fogo
O sobrenatural, quando aparece, é quase sempre um subproduto da deterioração material. Não é a casa que é mal-assombrada. É o país.
Existe uma tentação crítica quase automática de enquadrar As coisas que perdemos no fogo como “terror feminista latino-americano”. A expressão funciona bem em orelha de livro. Resume. Vende. Organiza prateleira. E reduz violentamente o que o livro faz.
Mariana Enriquez não escreve terror no sentido clássico. Ela escreve sobre o que acontece quando a realidade social ultrapassa a capacidade simbólica de uma geração inteira. O sobrenatural, quando aparece, é quase sempre um subproduto da deterioração material. Não é a casa que é mal-assombrada. É o PAÍS.
Enriquez nasce em 1973. Cresce sob a sombra da ditadura argentina. Adolescência nos anos 80 e 90, período de abertura política e colapso econômico intermitente. Isso não é contexto decorativo. É MATRIZ FORMATIVA. A literatura dela não tem nostalgia democrática nem fetiche revolucionário. Tem um cansaço precoce. Uma percepção de que a violência institucional não termina; ela apenas muda de roupa.
Há um traço muito específico na prosa de Enriquez. Ela escreve frases que parecem simples demais para carregar o peso que carregam. Não há ornamentação barroca. Não há exibição sintática. A construção é seca, direta, quase jornalística. E é justamente aí que mora o incômodo. Porque o horror não vem embalado como evento extraordinário. Ele é relatado como se fosse mais um detalhe cotidiano.
No conto “O menino sujo”, por exemplo, a narradora observa uma criança vivendo na rua, explorada pela mãe, circulando entre drogas e abandono. A tensão não nasce de um clímax. Nasce da impotência. A narradora quer fazer algo. Não faz. Observa. Justifica para si mesma. Racionaliza. O conto inteiro é uma dissecação do mecanismo de defesa urbano mais comum: a NEUTRALIZAÇÃO moral. Você aprende a ver e não ver. Aprende a converter miséria em paisagem.
A habilidade de Enriquez aqui é clínica. Ela entende a economia psíquica da culpa. A culpa que dói demais vira teoria social. Vira crítica abstrata. Vira discurso. O que ela mostra é o processo microscópico: o momento exato em que alguém decide atravessar a rua para não se envolver. E depois passa anos dizendo que o problema é ESTRUTURAL.
Já em “A casa de Adela”, o terror assume contornos mais explícitos. Crianças explorando uma casa abandonada. Algo errado ali dentro. Mas o que sustenta o conto não é o elemento fantástico. É a dinâmica entre os adolescentes. A crueldade difusa. A curiosidade que flerta com o sadismo. A sensação de que o grupo sempre pede um sacrifício.
Enriquez entende adolescentes de um jeito raro. Não romantiza a adolescência como fase de descoberta. Trata como LABORATÓRIO moral. A identidade se forma ali, sob pressão de pares, sob medo de exclusão, sob desejo de pertencimento. A casa é só catalisador. O horror real é a disposição de testar limites quando ninguém está olhando.
Em “Teia de aranha”, vemos outro registro. Relação abusiva. Violência doméstica. A narradora descreve a própria degradação afetiva com uma naturalidade quase obscena. Não há dramatização. Há ADAPTAÇÃO progressiva. Cada pequeno abuso é incorporado. O corpo aprende a antecipar o golpe antes mesmo que ele aconteça. A mente aprende a justificar o agressor como mecanismo de sobrevivência.
Enriquez não precisa explicar nada disso. Ela mostra. E confia que o leitor reconheça o padrão. Quem já estudou minimamente trauma complexo percebe a precisão. Quem não estudou sente mesmo assim.
O conto-título, “As coisas que perdemos no fogo”, é talvez o mais brutal porque abandona qualquer disfarce simbólico. Mulheres que começam a se queimar voluntariamente em resposta aos feminicídios. Não como suicídio. Como ESTRATÉGIA política. Como SABOTAGEM estética da própria vitimização.
É um gesto radical porque elimina o valor erótico do corpo feminino. Um corpo queimado não é desejável dentro da lógica patriarcal. Ao se queimarem, essas mulheres sequestram a GRAMÁTICA da violência. Dizem, implicitamente: vocês querem destruir nossos corpos; nós os tornaremos irreconhecíveis por conta própria.
A potência do conto está no fato de que ele nunca escorrega para panfleto. Não há discurso inflamado. Não há manifesto. Há relato. Como se fosse apenas mais um fenômeno urbano. Mais uma tendência. E essa frieza é devastadora.
Mariana Enriquez foi muitas coisas antes de virar autora cult global. Jornalista cultural. Editora. Leitora obsessiva de rock, horror gótico, literatura marginal. Essa mistura aparece na obra. Ela dialoga com tradição anglo-saxã de horror, sim. Mas o que ela faz é traduzir esse imaginário para a América Latina real, onde o fantasma não é ancestral vitoriano. É desaparecido político. É mulher assassinada pelo parceiro. É criança viciada aos oito anos.
Existe uma linhagem argentina de escritores que encaram o abismo sem alegoria reconfortante. Enriquez se insere ali com naturalidade. Não como exceção feminina exótica. Como continuidade. A diferença é que ela traz para o centro aquilo que durante décadas foi periférico: o corpo feminino como campo de batalha social.
A prosa dela opera por acumulação. Pequenos detalhes. Um comentário casual. Um gesto mínimo. Quando você percebe, o ambiente inteiro está contaminado. É como mofo. Cresce em silêncio.
Há também um domínio absoluto do ritmo. Os contos raramente explodem em clímax explícito. Eles terminam um pouco antes do esperado. Como se Enriquez soubesse que o leitor já entendeu o suficiente. Essa economia narrativa evita a catarse. E sem catarse não há purificação. Fica o resíduo.
É interessante observar como o livro foi recebido fora da Argentina. Frequentemente enquadrado como exemplo de “novo gótico latino”. Existe uma certa fome internacional por exotismo sombrio. Mas o que Enriquez escreve não é exótico para quem vive em sociedades marcadas por desigualdade estrutural. É RECONHECÍVEL.
No Brasil, a leitura é quase constrangedora. Troque Buenos Aires por São Paulo. Por Recife. Por Porto Alegre. O mecanismo é idêntico. Violência contra a mulher naturalizada. Adolescência atravessada por abandono. Casas que guardam memórias que ninguém quer processar. O que muda é o sotaque.
O que mais impressiona em As coisas que perdemos no fogo é a ausência de sentimentalismo. Não há desejo de ensinar. Não há arco de redenção. Há exposição. Como um prontuário aberto.
E talvez seja isso que define a força de Mariana Enriquez como autora argentina relevante do nosso tempo. Ela não escreve para consolar a América Latina. Ela escreve para registrar seus sintomas. Sem anestesia. Sem metáfora redentora. Sem oferecer saída terapêutica.
O leitor termina o livro com a sensação desconfortável de que o horror não é exceção histórica. É PADRÃO DE FUNCIONAMENTO. E que as coisas que perdemos no fogo não são apenas corpos. São ilusões de que o incêndio um dia vai acabar sozinho.
Sicko
Ex editor de gente pelada. Agora lê livros.