A Todavia e Viola Davis apostaram na literatura afro-brasileira antes que o mercado internacional soubesse que precisava dela
Viola Davis e a Ashé Ventures fecharam parceria com a Todavia para levar literatura afro-brasileira ao mercado americano. Velha Guarda, de Lilia Guerra, chega ao Brasil em julho - a tradução ao inglês está em preparação.
Antes de Viola Davis existir nesta história, Lilia Guerra já escrevia.
Cresceu em Cidade Tiradentes, Zona Leste de São Paulo, trabalha como auxiliar de enfermagem na rede pública de saúde e publica ficção há anos - Perifobia, Rua do Larguinho, Amor Avenida, O Céu para os Bastardos, romances que mapeiam a periferia de dentro, sem o distanciamento de quem escreve sobre um lugar onde nunca morou. A Todavia começou a republicar seus livros. O mercado literário brasileiro a conhece.
O mercado fora do Brasil, até maio de 2026, não sabia muito bem o que fazer com ela.
Em meados de maio, a Todavia e a Ashé Ventures anunciaram uma parceria para impulsionar a literatura afro-brasileira no mercado internacional. A Todavia é uma editora independente fundada em 2016 por ex-editores da Companhia das Letras - foi ela que publicou Torto arado, de Itamar Vieira Junior, o romance sobre quilombolas do sertão baiano que vendeu mais de 400 mil cópias e se tornou um dos maiores fenômenos da literatura brasileira recente. Sabe, portanto, o que é literatura negra brasileira chegando a um público que não esperava ser alcançado por ela.
A Ashé Ventures é a produtora fundada pela atriz Viola Davis e pelo produtor Julius Tennon, com o empresário brasileiro Maurício Mota como sócio estratégico - mais de quinze anos de atuação no mercado criativo americano. O primeiro livro da coleção é Velha Guarda, novo romance de Lilia Guerra, com lançamento previsto pela Todavia para julho no Brasil. A parceria prevê publicações, traduções ao inglês para distribuição nos Estados Unidos, eventos de lançamento e possíveis adaptações audiovisuais.
O que Davis e Tennon disseram
Em mensagem à Folha de S.Paulo, Viola Davis e Julius Tennon disseram que o projeto nasceu do interesse nas histórias afro-brasileiras e no poder cultural dessas narrativas. Descreveram Lilia Guerra como “o tipo de voz que queremos apoiar e levar ao mundo.”
É uma frase gentil. É também uma frase que qualquer leitor de literatura brasileira vai ler com uma certa ambivalência - não porque seja falsa, mas porque implica uma pergunta que o comunicado não faz: por que a literatura afro-brasileira, que existe, é boa e tem leitores, precisou de uma vencedora do Oscar para que o mercado editorial global decidisse que era hora de prestar atenção?
A resposta não tem a ver com qualidade. Tem a ver com o que a indústria editorial internacional considera prioritário por padrão.
Lilia Guerra e a tradição que já existia
Lilia Guerra veio de uma linhagem de autores que narram a periferia sem exotizá-la. Uma tradição que passa por Carolina Maria de Jesus, que escreveu Quarto de Despejo antes de o Brasil decidir que ela era literária, por Conceição Evaristo, cuja obra sobre memória e corpo negro demorou décadas para ganhar a projeção que merecia, por Ferréz, que também está na lista de autores previstos para integrar a parceria nos próximos anos.
O que esses autores têm em comum - além do talento que a crítica literária brasileira já reconheceu - é que escrevem de dentro de uma experiência que o mercado editorial de Nova York e Londres aprendeu a consumir quando chega com o contexto certo, o momento certo e o nome certo na orelha do livro.
A Ashé Ventures chega com os três.
Isso não invalida o projeto. Indica que o projeto sabe exatamente o que está fazendo.
O que a estrutura da parceria oferece
O acordo é, antes de tudo, literário: tradução ao inglês, distribuição nos Estados Unidos, eventos de lançamento com visibilidade internacional. É isso que a Todavia e a Ashé Ventures colocam na mesa. As fontes mencionam também “possíveis adaptações audiovisuais” - mas como horizonte aberto, não como produto confirmado.
Maurício Mota é a peça que transforma o gesto simbólico em operação com infraestrutura. Há uma diferença entre “Viola Davis apoia escritora brasileira” e “a obra de Lilia Guerra vai estar disponível em inglês com campanha de lançamento nos Estados Unidos” - e essa diferença tem nome e sobrenome. O que a Ashé Ventures traz não é só o prestígio do nome: é o acesso a agentes, editoras americanas e plataformas que a literatura brasileira raramente alcança por conta própria.
Ferréz, Triscila Oliveira e os nomes que vêm depois
Além de Lilia Guerra, a parceria menciona Ferréz e Triscila Oliveira como autores que devem integrar a coleção nos próximos anos. São escolhas que apontam o recorte: literatura da periferia, negra, contemporânea, enraizada na realidade urbana brasileira. Não a vertente “tropical” que o exterior costuma consumir como exotismo, mas a que fala de sobrevivência, memória e desigualdade sem romantizar nenhuma das três.
Ferréz, com uma obra que vai de Capão Pecado a Deus foi almoçar, é um dos nomes centrais da literatura marginal brasileira. Que ele ainda não tivesse distribuição internacional consistente em 2026 é uma informação sobre o mercado, não sobre o trabalho.
Velha Guarda e o que sabemos
Velha Guarda chega às livrarias brasileiras em julho pela Todavia. Ainda não há sinopse pública - o anúncio da parceria precedeu os detalhes do livro. O que se sabe é que é um romance novo e que a Todavia e a Ashé Ventures o escolheram como porta de entrada para um projeto que, pelo menos no papel, tem horizonte mais longo do que um único lançamento. A versão em inglês, destinada ao mercado americano, faz parte do acordo - sem data confirmada ainda.
A aposta tem fundamento. Lilia Guerra escreve de forma que o leitor reconhece imediatamente - específica sem ser hermética, densa sem ser inacessível. É o tipo de literatura que funciona em tradução porque o que ela descreve não é local: é humano. O local é apenas o endereço preciso onde o humano acontece.
O que a parceria vai provar ou desprovar é se o mercado editorial americano vai responder ao livro ou ao nome na orelha. São apostas diferentes. No caso de Lilia Guerra, quem ler o livro vai perceber que era uma boa aposta muito antes de Viola Davis aparecer na história.
Helena Braga
O livro que você procura provavelmente está na estante dela
Redatora literária. Cobre lançamentos editoriais e produz resenhas aprofundadas.
LEIA TAMBEM
O interior de Casa de Folhas é maior do que o livro
O Estado que protege mulheres e o Estado que as mata são o mesmo Estado