Após décadas, Meridiano de Sangue vai ser adaptado para o cinema. Ler o livro nunca foi tão importante

Meridiano de sangue resistiu a três décadas de tentativas de adaptação. Agora John Hillcoat vai filmar o romance de Cormac McCarthy. Leia antes da estreia.

Sicko
Sicko Ex editor de gente pelada. Agora lê livros.
11 de julho de 2026 10 min
Retrato estilo daguerreótipo do bando de Glanton legendado Chihuahua 1849, com o juiz Holden calvo e gigante ao fundo
!!

Em 1849, o governo do estado de Chihuahua, no norte do México, pagava recompensa em dinheiro por escalpo de apaches. A ideia era terceirizar: contratar particulares para uma guerra que o exército perdia havia décadas. O defeito do modelo é visível para qualquer um que pense nele por dez segundos, e os contratados pensaram: escalpo não tem rosto. O bando de John Joel Glanton, contratado para exterminar apaches, descobriu que o escalpo de um índio pacífico e o de um camponês mexicano rendiam o mesmo, e passou a entregar os dois.

O que significa que em algum escritório de Chihuahua existiu um homem cuja função era receber cabelo humano ensanguentado, conferir, contar, pagar e lançar no livro-caixa, e que em algum momento esse homem pagou ao bando pelo escalpo de gente que talvez conhecesse de vista, e lançou no livro-caixa do mesmo jeito.

Eu penso nesse funcionário toda vez que alguém me diz que Meridiano de Sangue é um livro exagerado. O romance que Cormac McCarthy publicou em 1985 é esse lançamento contábil esticado em quatrocentas páginas, e a notícia de que ele vai finalmente virar filme, com John Hillcoat dirigindo e John Logan no roteiro, importa menos do que a pergunta que ela reabre: o que exatamente esse livro faz com quem lê, e POR QUE Hollywood passou três décadas fugindo dele.

Sobre o que ele faz, o caso mais documentado é o de Harold Bloom, por décadas o crítico mais influente dos Estados Unidos, que abandonou a leitura na página 60. Voltou, chegou perto da 140, abandonou de novo. Terminou na terceira investida e passou a chamar o romance de o maior livro americano desde Enquanto Agonizo, de Faulkner.

Ninguém larga um livro na página 60 por causa de sangue; a essa altura o leitor de 1985 já tinha atravessado Vietnã no jornal e Peckinpah no cinema. O que expulsa o leitor é outra coisa. O texto não oferece NENHUM lugar para se esconder. McCarthy narra sem entrar na cabeça de ninguém, nunca, em página alguma: sem monólogo interno, sem culpa descrita, sem “ele sentiu horror” em nenhuma variante. O narrador registra escalpelamento e formação rochosa na mesma sintaxe majestosa de Antigo Testamento, e quando um arbusto enfeitado de bebês mortos recebe a mesma temperatura descritiva de um pôr do sol, o julgamento moral, que em qualquer outro romance vem embutido de fábrica na voz narrativa, vira responsabilidade EXCLUSIVA de quem lê. A clínica psicanalítica chama de FUNÇÃO DE TESTEMUNHO a presença que acompanha e valida o horror de quem o viveu; o livro recusa a exercer essa função para o próprio leitor. Você testemunha sozinho, por conta própria, quatrocentas páginas. Gente adulta e letrada desiste na página 60 porque o custo é REAL. David Foster Wallace, que sabia uma coisa ou duas sobre exigir esforço do leitor, colocou o romance entre os cinco americanos mais subestimados desde 1960.

O autor cobrava de si o mesmo que cobrava do leitor. McCarthy refez o trajeto histórico do bando pelo deserto do México várias vezes, aprendeu a fabricar pólvora caseira porque uma cena exigia que ele soubesse, e estudou a fonte primária, My Confession, memória de Samuel Chamberlain, que cavalgou com Glanton e sobreviveu para pintar aquarelas do que viu. Quando o New York Times finalmente o entrevistou, em 1992, ele entregou a frase que funciona como bula do livro inteiro: “Não existe vida sem derramamento de sangue. A noção de que a espécie pode ser melhorada de alguma forma, de que todos poderiam viver em harmonia, é uma ideia realmente perigosa”. E completou que os afligidos por essa noção são os primeiros a entregar a alma e a liberdade. No mesmo perfil, descartou Proust e Henry James: aquilo, para ele, nem era literatura, porque literatura séria lida com vida e morte. Dá para ler como pose de eremita durão, e parte da imprensa leu. O livro sustenta a tese com método: a violência em Meridiano de Sangue acontece como clima, sem função de clímax, de punição ou de pedagogia. Acontece como chuva acontece, sobre justos e injustos.

E tem o juiz. O juiz Holden existia, ou pelo menos Chamberlain jura que sim. Nas memórias, ele aparece como um homem gigantesco e educado, que Chamberlain resume numa frase: o vilão de sangue mais frio que já escapou da forca. No romance, McCarthy o transforma em outra coisa. Glabro da cabeça aos pés, rosto de bebê, colossal, branco como cera, dançarino excelente, violinista melhor ainda, fluente na língua que a cena pedir, o juiz desenha num caderno os pássaros, os artefatos e as ruínas que encontra, e depois destrói os originais, porque tudo que existe sem o conhecimento dele existe sem o consentimento dele. A palavra que ele usa para si é suzerano, aquele cuja autoridade alcança onde a dos outros governantes termina. É o Iluminismo com os freios cortados, catalogar para dominar, e o caderno do juiz faz com a natureza exatamente o que o livro-caixa de Chihuahua fazia com o assassinato: converte em registro, e registro em posse.

Os sermões dele sobre a guerra como deus, McCarthy tirou de Heráclito, fragmento 53. A guerra como pai e rei de todas as coisas. Bloom o chamou de a figura mais assustadora de toda a literatura americana e fez questão de registrar que McCarthy sabia exatamente o que era gnosticismo e escolheu deixar o juiz inexplicável. A escolha é o ponto. O leitor com formação clínica tenta o repertório de sempre, psicopatia, sadismo, narcisismo maligno, perversão, e escorrega tudo, por um motivo técnico que eu levei duas leituras para formular: diagnóstico pressupõe conflito. Pressupõe aparelho psíquico dividido, algo reprimido empurrando contra algo que reprime, desejo batendo em interdição. O juiz não tem divisão. Não tem falta, no sentido exato que a psicanálise dá à palavra: nada lhe escapa, nada o constitui de fora, nada lhe é interdito. Cada leitor percebe, em algum ponto diferente do livro, que está diante de uma VONTADE com vocabulário, vestida de homem culto e sorridente. Bloom de novo: aquém de Moby Dick, a aparição mais monstruosa da literatura americana. A baleia ao menos ignora Ahab. O juiz presta atenção.

E presta atenção especificamente no garoto. O protagonista, na medida em que a palavra se aplica, foge de casa no Tennessee aos catorze anos e acaba absorvido pelo bando; tem algumas dezenas de falas no romance inteiro. A psicologia dele precisa ser lida por sinais externos, como tudo no livro, e os sinais são gestos mínimos, quase administrativos, de misericórdia: puxar uma flecha da perna de um companheiro quando ninguém mais se oferece, hesitar diante de um ferido que devia executar. É pouco. Resíduo, sujeira de compaixão no filtro. E é EXATAMENTE o resíduo que o juiz persegue. Perto do fim, ele encosta o dedo na acusação: só você foi amotinado, só você reservou na alma algum canto de clemência pelo pagão. O pecado do garoto, no tribunal do juiz, foi ter sobrado nele um canto que a guerra não ocupou.

McCarthy descreveu o futuro filme para Hillcoat, nos almoços de três, cinco horas que os dois tiveram antes da morte do autor, como um conto fáustico, a jornada do juiz tentando conquistar a alma do garoto. É a leitura mais generosa possível do próprio livro, porque Fausto pressupõe que a alma existe, tem dono e pode ser negociada. O romance passa quatrocentas páginas mostrando um canto de clemência do tamanho de um selo postal e recusando qualquer confirmação de que haja mais.

A fila dos que tentaram filmar isso: Steve Tesich escreveu o primeiro roteiro em 1995; Tommy Lee Jones comprou os direitos, reescreveu, quis dirigir e estrelar, e os estúdios recusaram; Ridley Scott passou de 2004 a 2008 no projeto com roteiro de William Monahan e desistiu admitindo que a violência ultrapassava o que a indústria aguentava; James Franco filmou 25 minutos de teste em 2011, com Scott Glenn no papel do juiz, e viu o produtor engavetar sem explicação; tentou de novo em 2016, com Russell Crowe anunciado, e o projeto desabou no mesmo dia da notícia, por briga de direitos. “Infilmável” virou epíteto oficial, e o diagnóstico, como quase todo diagnóstico repetido por trinta anos sem reexame, aponta para o órgão errado.

Cinema processa violência industrialmente; é seu produto de exportação mais estável desde o faroeste, aliás desde ESTE faroeste, que o gênero passou um século lavando. O que a câmera perde é o registro. Na página, a atrocidade chega embalada na prosa bíblica e indiferente que é o próprio argumento do livro; a câmera só sabe mostrar, e duas horas de escalpelamento mostrado, sem a voz que o distancia, produzem um western snuff, um pornô barato de violência. Falta ainda o segundo órgão: Hollywood precisa que violência signifique, trauma, culpa, vingança, redenção, arco, e o livro nega significado com disciplina de monge. Para caber numa tela, vai ter que virar OUTRO livro, provavelmente o conto fáustico que McCarthy, num último gesto de piedade por Hillcoat, deixou pronto como álibi. A Estrada também virou um filme menor que o texto e o mundo seguiu em frente. Convém só saber de antemão que o que estreia vai ser tradução, e das domesticadas.

O final, e pule este parágrafo se quiser chegar virgem a ele: 1878, Fort Griffin, Texas, décadas depois de o bando ter sido massacrado pelos yumas numa travessia do rio Colorado. O garoto, agora chamado apenas de o homem, reencontra o juiz num saloon, idêntico, sem nenhuma marca de ter sido afetado pelo tempo. Horas depois o juiz o encontra numa latrina nos fundos. O que acontece lá dentro fica fora da página; o livro corta para dois homens que abrem a porta e recuam diante do que veem. Quarenta anos de crítica se dividem entre assassinato, estupro e recusa deliberada de resposta, e a terceira leitura é a mais coerente com o método do livro: depois de quatrocentas páginas vendo tudo, a única cena que o narrador esconde é a que você imploraria para ele esconder desde o início.

A cena seguinte é o juiz dançando nu sobre o palco, tocando violino, declarando que nunca dorme e que nunca vai morrer. Depois, um epílogo de um parágrafo: um homem abrindo buracos de cerca na planície, arrancando fogo da pedra, seguido pelos catadores de ossos de búfalo. Ninguém concorda sobre o que significa. Bloom propôs a leitura mais generosa, a de que o epílogo existe para negar ao juiz a última palavra. Eu gostaria de conseguir acreditar nela tanto quanto ele acreditou.

A edição brasileira sai pela Alfaguara, 352 páginas, tradução de Cássio de Arantes Leite, que teve a sensatez de preservar a estranheza da sintaxe em vez de apará-la. Se ajuda calibrar a régua: é o McCarthy com quem Ana Paula Maia é comparada toda vez que a crítica precisa de um atalho. Leia antes da estreia, devagar, sabendo o que está contratando: quatrocentas páginas sem um único lugar para se esconder, um funcionário lançando escalpos no livro-caixa, um juiz que sorri.

Ele diz que nunca dorme e que nunca vai morrer. Três décadas de Hollywood sugerem que ele sabia do que estava falando.

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Sicko

Ex editor de gente pelada. Agora lê livros.

Editor literário e resenhista. Especialista em ficção, graphic novels e cultura digital.

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