A IA publica livros para outras IAs lerem. O leitor desapareceu.

A IA produz conteúdo para que outras IAs aprendam com ele. É o colapso de modelo aplicado à literatura, e Borges imaginou algo parecido em 1941.

Sicko
Sicko Ex editor de gente pelada. Agora lê livros.
3 de julho de 2026 7 min
Corredor de biblioteca infinita com prateleiras se perdendo no horizonte, volumes sem título na espinha
!!

Borges imaginou uma biblioteca com todos os livros possíveis em 1941 - a maioria volumes de ruído puro, sequências sem sentido dispostas em capítulos, nada que se organize em direção a qualquer coisa. O horror da ideia era proporcional ao projeto: existia alguém tentando achar o volume certo. Os habitantes da biblioteca passavam a vida procurando o volume que justificasse a busca. Procuravam, e procuravam, e procuravam. É esse detalhe que eu não consigo largar: os que procuram.

O que Borges não imaginou - porque ninguém imaginaria, nem mesmo Borges - é que a biblioteca ia ser construída sem os que procuram. Para que outras bibliotecas aprendessem com ela.

Em 2026, estima-se que 74% das novas páginas publicadas na internet contenham conteúdo gerado por IA. Pesquisadores calculam que entre 30 e 40% de tudo que circula na web JÁ É sintético. Quando o próximo grande modelo for treinado, uma parcela considerável do que ele vai “ler” será texto produzido por um modelo anterior. Que foi treinado em texto produzido pelo modelo antes desse. Que foi treinado em texto produzido. Que foi treinado. Que foi …

Existe um nome formal para o que acontece quando esse ciclo se fecha sobre si mesmo: COLAPSO DE MODELO. A degeneração é documentada em estudos desde 2023: a diversidade de ideias se contrai, os pontos fora da curva somem porque nenhum sistema os distingue de ruído. O que sobra é A MÉDIA DAS MÉDIAS - prosa que aprendeu a soar como prosa, argumento que aprendeu a soar como argumento, nenhum dos dois sabendo o que qualquer um desses dois é além da superfície acústica. Como se o sistema fosse literalmente incapaz de produzir algo que não tivesse sido produzido antes. Como se a repetição fosse a única coisa possível. Como se …

Tenho que falar de Clarice. Não tem outro jeito.

Eu li A Paixão segundo G.H. uma vez com dezoito anos e fechei o livro com a sensação de que alguém tinha entrado no meu quarto enquanto eu dormia e reorganizado os móveis um centímetro. Tudo no lugar. Nada no lugar. A protagonista tem uma experiência com uma barata que a desestrutura por inteiro, e ela passa trezentas páginas tentando descrever o que foi aquilo. O que FOI. A distinção entre um relato e literatura começa exatamente aí, e a distinção é inteira, e não tem gradação. Clarice sabia que estava tentando o impossível. Tentou mesmo assim. O fracasso que não desiste é a única definição funcional de obra que ela nos deixou.

Guimarães Rosa viajou pelo interior durante anos antes de escrever uma linha de Grande Sertão: Veredas. Meses de estrada, cadernos enchendo de expressões de boiadeiros, o ouvido afinando numa frequência que o português padrão não cobria - a frequência em que a realidade sertaneja se articulava sem tradução possível para o português de quem observa de fora. O primeiro e único vocábulo do romance é “Nonada”, que é nada em dialeto sertanejo, como se o livro começasse se contradizendo antes de começar - e essa sintaxe estranhada é argumento: você aprende um idioma enquanto lê um livro que usa esse idioma como prova de que a realidade sertaneja é irredutível ao português de quem observa de fora. Rosa negou a si mesmo a língua que dominava melhor do que quase qualquer outro escritor do século vinte, porque a língua que queria usar precisava SOAR DENTRO DE ALGUÉM antes de existir no papel. Nos cadernos, nas noites de estrada. Meses.

Uma IA produz o equivalente em volume em segundos. É sempre o argumento. Sempre.

Imagina a cena. Um modelo de linguagem recebe, em alguma fração de segundo, o texto completo de Molloy. As duzentas e poucas páginas de Beckett, o que ele levou décadas para destilar: a agonia de existir dentro de uma linguagem que nunca é suficiente para o que precisa ser dito, um narrador que reporta o próprio deterioramento com a frieza de quem preenche formulário, frases que correm e se contradizem e recomeçam porque a consciência do narrador faz exatamente isso. O modelo processa cada token. Calcula a probabilidade do próximo. Atualiza pesos. O que sai do outro lado é uma distribuição estatística do tipo de estrutura gramatical que aparece nesse corpus. O modelo aprendeu a frequência das palavras que descrevem a agonia. Não aprendeu A AGONIA. A distinção parece técnica até você sentar com ela por tempo suficiente para perceber o que implica.

Em psicanálise existe o conceito de dessimbolização: o processo pelo qual um sistema perde a capacidade de relacionar o símbolo à experiência afetiva que o ancora. O que os modelos de linguagem fazem com o texto é, tecnicamente, uma dessimbolização de FÁBRICA. O símbolo existe. A experiência que o ancora nunca existiu. A questão começa antes de sentir: a leitura pressupõe um sujeito que tem algo a perder com o que vai encontrar no texto. A leitura é um evento que acontece num ser com história. A tokenização é um processo que ocorre num sistema sem.

Todo texto é uma aposta de que existe alguém do outro lado. Kafka escreveu O Processo para um leitor que reconhece a burocracia como agente hostil, que sente no corpo o que é ser julgado sem entender a acusação. Borges escreveu para quem consegue ter vertigem diante de um argumento matemático. Beckett escreveu para quem entende que a linguagem às vezes corre em círculo porque a consciência humana também corre. O destinatário é a condição de possibilidade do processo inteiro.

Quando o destinatário é outro modelo, essa aposta desaparece. Não existe alguém do outro lado com infância, com medo específico, com o tipo de culpa que só se acumula em quem já deu errado ao tentar. Existe tokenização, seguida de cálculo de probabilidade, seguida de predição do próximo token. A passagem que levou Clarice trezentas páginas para construir se torna, para o modelo, distribuição estatística com peso ajustado. O sistema está funcionando exatamente como foi projetado para funcionar.

Existe uma categoria de conteúdo sintético mais incômoda do que o resto: textos produzidos DELIBERADAMENTE para serem consumidos por sistemas de IA, sem leitor humano em mente nem na cadeia de produção. como produto, com essa intenção desde o início. Conteúdo formatado para parecer legítimo a outros modelos, consumido exclusivamente por esses modelos, que vão usá-lo para gerar mais conteúdo que será consumido da mesma forma, que treinará mais modelos que gerarão mais conteúdo. Quando o Google confirmou que usa conteúdo de usuários para treinar seus modelos, a discussão ficou centrada nos direitos de quem criou. A pergunta que ninguém fez com suficiente seriedade: o que acontece quando os próximos modelos aprendem com o que os anteriores geraram a partir de tudo isso, e os modelos depois desses aprendem com o que esses geraram, e os modelos depois desses?

A Biblioteca de Babel que Borges imaginou era perturbadora porque o projeto humano de procurar os volumes úteis ainda existia, ainda dava sentido à busca - mesmo que a busca durasse gerações, mesmo que fosse vã. A biblioteca que está sendo construída agora dispensa essa parte. Os volumes são produzidos sem leitor em mente, consumidos por sistemas sem mente, para gerar mais volumes que serão consumidos da mesma forma.

O projeto humano saiu da equação.

Sobrou a escala.

“Grande Sertão: Veredas” tem seiscentas páginas. Guimarães Rosa levou anos para escrever.

Uma IA produz o equivalente em volume em segundos.

A velocidade é o argumento. O leitor desapareceu.

Sicko
AUTOR

Sicko

Ex editor de gente pelada. Agora lê livros.

Editor literário e resenhista. Especialista em ficção, graphic novels e cultura digital.

100% FREE * SEM SPAM

FICA POR
DENTRO

Todo domingo, um drop com o que você precisa saber sobre cultura pop e tech. Rápido, curado, sem spam.