Angela Davis levou 35 anos pra ser traduzida no Brasil. Pra lotar a Flip, vai precisar de uma tarde.
Angela Davis foi confirmada na Flip 2026 pela primeira vez, na Casa Sesc. O país que a transformou em ícone agora terá que encará-la como autora.
“Women, Race & Class” saiu nos Estados Unidos em 1981. A tradução brasileira, “Mulheres, raça e classe”, só chegou em 2016, pela Boitempo, nas mãos da tradutora Heci Regina Candiani. Trinta e cinco anos entre o livro e o leitor daqui. E quando ele enfim chegou, chegou de uma vez só: virou bibliografia de curso, citação de timeline, faixa de manifestação. A presença de Angela Davis na Flip deste ano, a primeira na história do festival, fecha um ciclo torto. O país abraçou a figura dela muito antes de abrir os livros.
A frase mais repetida de Angela Davis no Brasil, “quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”, está em camiseta, parede de escola e bio de rede social. É dela, dita num discurso por aqui. Só que circula sozinha, descolada do raciocínio comprido e exigente que a sustenta nos livros. A frase coube no cartaz. O argumento, não.
Por que Casa Sesc, e não as 21 mesas principais
A 24ª Flip acontece de 22 a 26 de julho, em Paraty, com curadoria de Rita Palmeira e homenagem à poeta Orides Fontela, morta em 1998 e finalmente recolocada no centro de uma conversa que sempre a manteve na margem. A programação principal tem 21 mesas e reúne Zadie Smith, Hisham Matar, Djaimilia Pereira de Almeida, Ana Paula Tavares, Cármen Lúcia e Drauzio Varella, entre outros.
Angela Davis não está nessas mesas. Ela vem pela Casa Sesc, o espaço que funciona ao lado da grade oficial, numa presença confirmada por Ivana Jinkings, fundadora da Boitempo. Até o fechamento desta matéria, nem data nem horário tinham sido divulgados. Já se fala em montar um telão para dar conta do público que não vai caber.
Davis não escreve romance, conto nem poesia. Escreve teoria política, filosofia, ensaio de combate. Uma festa literária a recebe com louvor e, ao mesmo tempo, a coloca num anexo, como quem reconhece o peso da convidada sem saber direito em que prateleira ela vai. É o velho desconforto do nosso meio literário com o livro que pensa em vez de narrar.
Não deixa de ser irônico que a homenageada do ano seja Orides Fontela. A poeta paulista passou a vida à margem do mesmo circuito que agora a celebra, morreu pobre em 1998 e escreveu uma poesia de rigor quase insuportável, avessa à frase de efeito. Davis e Orides fazem coisas opostas com a palavra. O que as aproxima é o lugar que o meio reservou às duas por tempo demais: o canto, o anexo, a nota de rodapé que só vira manchete quando já passou da hora. A Flip de 2026 junta as duas no mesmo cartaz sem medir direito o tamanho do recado.
Como os livros de Davis chegaram ao Brasil pela Boitempo
O catálogo brasileiro de Angela Davis é quase todo da Boitempo: além de “Mulheres, raça e classe”, saíram “A liberdade é uma luta constante”, “O sentido da liberdade”, “Mulheres, cultura e política” e a “Autobiografia”. A exceção recente veio da Companhia das Letras, que lançou “Abolição: políticas, práticas, promessas” em 2025. É um corpo de obra que casa filosofia marxista, feminismo e crítica racial sem pedir desculpa por nenhuma das três coisas. Aluna de Herbert Marcuse e leitora de Adorno, Davis puxou a Escola de Frankfurt pra dentro da tradição radical negra e conseguiu fazer isso sem soar acadêmica. No Brasil, encontrou um terreno preparado de antemão.
Preparado por quem leu Davis antes de a Davis ser traduzida, e por quem pensava o cruzamento de raça, classe e gênero por conta própria. Lélia Gonzalez vinha fazendo isso desde os anos 1980. Sueli Carneiro também. Quando os títulos da Boitempo chegaram às livrarias, encontraram leitoras que já tinham a pergunta na ponta da língua e só precisavam do interlocutor de fora pra confirmar que não estavam delirando sozinhas.
A própria autora já tinha pisado aqui. Em 2019, veio para o seminário Democracia em Colapso, promovido pela Boitempo com o Sesc. Lotou tudo, virou notícia, rendeu foto. A Flip 2026 repete a parceria com o Sesc, e repete também o problema bom de ter gente demais querendo entrar.
A abolição das prisões num país que prende como poucos
O que nunca cabe no cartaz é o centro do trabalho dela: a defesa da abolição das prisões. A proposta vai além de reformar a cadeia, chega a torná-la obsoleta, trocar o castigo pela reconstrução das condições que produzem o crime. É uma tese radical, e ela ressoa de um jeito particular num país com a terceira maior população carcerária do planeta, atrás só de Estados Unidos e China.
Esse debate não é novidade nas livrarias brasileiras. A Ovelha já tratou do feminismo anticarcerário a partir de Françoise Vergès, que parte de uma intuição parecida: o mesmo Estado que promete proteger é o que encarcera e mata. Davis chegou primeiro a essa conclusão, nos anos 1970, escrevendo de dentro de uma cela enquanto respondia a um processo que quase a levou à pena de morte. A biografia é a matéria-prima da teoria dela.
Há ainda o movimento mais recente do mercado, que aprendeu tarde, mas aprendeu, que existe leitor para a autora negra. Foi o que comentei quando a Todavia e a atriz Viola Davis apostaram na literatura afro-brasileira antes de o mercado internacional perceber que precisava dela. A vinda de Angela Davis à Flip pega essa onda no melhor momento possível: o público existe, está formado e quer mais que a frase da camiseta.
O que a Casa Sesc vai fazer com ela
A questão que fica de pé é simples e um pouco cruel. O salão lotado da Casa Sesc vai aplaudir o ícone, isso é garantido. A pergunta é quantas dessas pessoas vão sair de lá e abrir “Mulheres, raça e classe” até o fim, encarar a discussão sobre trabalho doméstico e mais-valia que a Davis faz no último terço do livro, a parte que ninguém transforma em legenda porque ela exige caderno e café.
Se você for um dos sortudos que conseguir lugar, ou só quiser se preparar pra quando ela falar, comece pela tradução da Candiani. Depois pule pra Lélia Gonzalez de “Por um feminismo afro-latino-americano”, que conversa com Davis de igual pra igual e quase nunca aparece na mesma camiseta. As duas mereciam o palco principal. Uma delas, enfim, está chegando.
Helena Braga
O livro que você procura provavelmente está na estante dela
Redatora literária. Cobre lançamentos editoriais e produz resenhas aprofundadas.
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