O MMO que arrecadou US$ 3,2 milhões no Kickstarter gastou o dinheiro dos backers em chefs particulares, cartas colecionáveis e charutos

Ashes of Creation arrecadou milhões, durou 52 dias no Steam e morreu. Agora documentos internos mostram pra onde o dinheiro foi.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
12 de abril de 2026 5 min
Steven Sharif, fundador da Intrepid Studios e criador de Ashes of Creation
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Ashes of Creation arrecadou US$ 3,2 milhões no Kickstarter em 2017, prometendo ser o MMO que ia salvar o gênero. Quase nove anos depois, o jogo durou 52 dias no Steam Early Access antes de morrer. O estúdio fechou. 123 funcionários foram demitidos sem receber o último salário. E agora um livro contábil vazado mostra que o dinheiro dos backers foi parar em chefs particulares, cartas colecionáveis, antiguidades e charutos de luxo.

O que o livro contábil mostra

O investigador do YouTube NefasQS publicou na sexta-feira (11) um vídeo baseado no que diz ser o livro contábil completo da Intrepid Studios, de 2015 a 2026. O documento foi cruzado com entrevistas de ex-funcionários e outros registros.

Os gastos atribuídos ao fundador Steven Sharif e ao marido John Moore incluem: um chef particular que, segundo um ex-funcionário, trabalhava exclusivamente pra família e não pro estúdio. US$ 41.717 em sites de leilão de antiguidades e curiosidades históricas. Dezenas de milhares em lojas de cartas colecionáveis e miniaturas. US$ 421 numa loja de charutos de luxo. Mais de US$ 700 em Fortnite registrados como “pesquisa e desenvolvimento”. E US$ 81.166 pagos à Gore Oil Company, que era a proprietária da mansão de US$ 4,9 milhões do casal em San Diego.

No total, NefasQS estima que mais de US$ 12 milhões em saídas do caixa da Intrepid Studios “não estão completamente contabilizados” nos registros.

A fraude maior

Os gastos pessoais são o detalhe mais chamativo, mas não são o coração da acusação. O investidor Jason Caramanis, que perdeu US$ 12,5 milhões no projeto, acusa Sharif de ter orquestrado uma fraude de US$ 140 milhões. A alegação central: Sharif disse publicamente durante anos que estava investindo entre US$ 30 milhões e US$ 60 milhões do próprio bolso no jogo. Documentos contábeis supostamente mostram que ele nunca investiu um centavo de capital pessoal. O dinheiro todo veio de investidores e backers. Sharif e Moore recebiam US$ 500 mil por ano de salário.

O detalhe mais grave: quando o jogo lançou no Early Access em dezembro de 2025 e gerou US$ 3,7 milhões em vendas na Steam, os investidores alegam que Sharif redirecionou esse dinheiro via carta ao banco pra pagar a hipoteca da mansão pessoal, em vez de cobrir a folha de pagamento dos funcionários. O resultado: os 123 empregados demitidos em janeiro de 2026 não receberam os últimos salários.

52 dias de vida

A cronologia é brutal. Ashes of Creation lançou no Early Access em 11 de dezembro de 2025. Em 22 de janeiro de 2026, começaram os relatos de demissões internas. Em 31 de janeiro, Sharif renunciou “em protesto”. O conselho emitiu notificações de demissão em massa pra todos os 123 funcionários. Em 2 de fevereiro, o jogo foi removido da Steam. O estúdio foi declarado “fechamento permanente e total da planta”.

52 dias entre o lançamento e a morte. Menos de dois meses. É possivelmente o ciclo de vida mais curto de um MMO que chegou a ser jogável.

A defesa de Sharif

Sharif disse que vai “se defender apenas na justiça, onde os fatos importam”. Numa declaração formal à PCGamesN, afirmou: “nego categoricamente as acusações de que administrei mal os fundos da empresa, causei o fechamento do estúdio ou pratiquei qualquer conduta imprópria”.

Sobre o investimento pessoal, reformulou a história: o dinheiro veio de empréstimos garantidos pelos próprios bens e ativos pessoais, não de depósitos diretos. Tecnicamente diferente do que vendeu aos backers por quase uma década, mas legalmente pode funcionar.

Sharif processou o conselho de volta, acusando os diretores de “sabotar intencionalmente” o estúdio pra “roubar seus ativos”. Segundo ele, o conselho tinha compromisso de financiar a empresa até setembro de 2026 e executou “um plano premeditado pra afundar a empresa”.

O problema do Kickstarter

Aqui entra a armadilha que milhares de backers estão descobrindo. A página original do Kickstarter de Ashes of Creation incluía esta promessa: “no caso de Ashes of Creation NÃO ser lançado, prometemos reembolsar todos os backers integralmente”. O Early Access de dezembro de 2025, por mais curto que tenha sido, pode tecnicamente contar como “lançamento”. A Intrepid e seus advogados já argumentam que sim. Se essa interpretação se sustentar, os backers não têm direito a reembolso pelo Kickstarter.

Na Steam, alguns jogadores conseguiram reembolso usando o caminho de “tenho uma dúvida sobre a compra” em vez do sistema automatizado. Mas o resultado foi inconsistente.

O padrão que se repete

Ashes of Creation não é o primeiro e não vai ser o último. Chronicles of Elyria arrecadou US$ 1,4 milhão no Kickstarter em 2016 e fechou em 2020, uma semana depois de cobrar jogadores por terrenos virtuais. Star Citizen arrecadou mais de US$ 809 milhões de 5,6 milhões de backers desde 2012 e ainda não lançou um produto final depois de 14 anos.

O padrão é sempre o mesmo: backers compram um sonho, não um produto. Kickstarter não oferece mecanismo real de fiscalização. E o limite entre “lançamento” e “não-lançamento” é juridicamente ambíguo o suficiente pra proteger quem promete e não entrega.

O que torna Ashes of Creation pior é a concentração de falhas: uma promessa de Kickstarter tecnicamente cumprida por um Early Access de 52 dias, um fundador acusado de fabricar alegações de investimento pessoal por quase uma década, um livro contábil com gastos em Fortnite classificados como P&D, e 123 pessoas que trabalharam de boa-fé e não receberam o último salário porque o dinheiro supostamente foi pagar a hipoteca do chefe.

Sharif diz que a verdade vai aparecer na justiça. Os backers que pagaram US$ 3,2 milhões por um jogo que durou menos que uma assinatura mensal da Netflix provavelmente preferiam que a verdade tivesse aparecido antes.

Lucas Ferreira
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Lucas Ferreira

Gamer desde o PS1, cético desde sempre

Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.

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