Cientistas colocaram 200 mil neurônios humanos vivos num chip. Uma semana depois, eles estavam jogando Doom
A Cortical Labs colocou 200 mil neurônios humanos num chip e ensinou as células a jogar Doom em menos de uma semana. O hardware custa US$35 mil.
Duzentos mil neurônios humanos, cultivados em laboratório, montados num chip do tamanho de uma moeda, aprenderam a jogar Doom em menos de uma semana. Não uma simulação. Não uma metáfora. Células cerebrais reais, vivas, controlando o Doomguy numa tela.
A Cortical Labs, startup australiana de Melbourne, publicou a demonstração do seu CL1 - um biocomputador que usa neurônios humanos como unidade de processamento. E o teste escolhido para mostrar o que ele faz foi o clássico de 1993 da id Software.
Como funciona (de verdade)
O CL1 não é um computador convencional com neurônios colados por cima. É uma arquitetura diferente.
Os neurônios vêm de células de pele ou sangue de adultos, reprogramadas em células-tronco e depois diferenciadas em neurônios corticais - as mesmas células que formam a camada externa do cérebro humano, responsável por pensamento e aprendizado. Essas células são cultivadas sobre uma matriz de 59 eletrodos de metal e vidro, mantidas vivas em um banho nutritivo controlado por temperatura.
O software do CL1, chamado biOS, faz a tradução entre o mundo digital e o biológico. Funciona assim: a imagem do jogo é convertida em padrões de estímulos elétricos que os eletrodos enviam para os neurônios. Se algo aparece do lado esquerdo da tela, os eletrodos estimulam a região correspondente da cultura neural. Os neurônios respondem com seus próprios impulsos elétricos, e o sistema interpreta esses sinais como comandos - mover para a direita, virar, atirar.
O tempo de resposta fica abaixo de um milissegundo. Os neurônios sobrevivem até seis meses nas condições certas de laboratório.

Jogam bem?
Não. Jogam como alguém que nunca viu um computador antes - o que, tecnicamente, é exatamente o caso.
Os neurônios conseguem localizar inimigos, se movimentar pelo ambiente 3D e atirar. Mas morrem muito. O desempenho atual lembra um jogador completamente iniciante, tateando os controles sem entender direito o que está acontecendo.
O ponto não é a performance. É o fato de que 200 mil células biológicas, sem nenhuma programação tradicional, conseguiram aprender a interagir com um ambiente digital complexo em menos de sete dias. Elas desenvolvem o que os pesquisadores chamam de padrões de resposta auto-organizados - basicamente, as células se reorganizam sozinhas para reagir melhor aos estímulos, sem que ninguém diga como.
Para comparação: o cérebro humano tem cerca de 86 bilhões de neurônios. Esse chip tem 200 mil. É como tentar pilotar um avião com o processador de uma calculadora de bolso - e ainda assim o negócio decola.
De Pong a Doom em quatro anos
A Cortical Labs já tinha virado notícia em 2022, quando o projeto DishBrain mostrou que 800 mil neurônios podiam aprender a jogar Pong - aquele jogo de rebater a bolinha. Era bidimensional, simples, quase abstrato.
Doom é outra história. Ambiente 3D, múltiplos inimigos, navegação espacial, armas com comportamentos diferentes. O salto de complexidade entre um e outro é enorme.
Quem fez a ponte foi Sean Cole, um desenvolvedor independente que não tinha experiência com computação biológica. Usando a Cortical Cloud, uma API em Python que a Cortical Labs abriu para desenvolvedores externos, ele programou a interface entre o jogo e os neurônios em uma semana. O código está no GitHub.
Isso é importante porque mostra que a tecnologia está saindo do laboratório. Se um dev solo consegue conectar neurônios a um jogo clássico usando uma API, o potencial de experimentação é real.
O hardware custa US$35 mil
O CL1 começou a ser vendido comercialmente em 2025, com entregas já em andamento. O preço: cerca de US$35 mil, o equivalente a mais ou menos R$181 mil na cotação atual.
É caro para um consumidor. Mas para um laboratório de pesquisa ou uma empresa de tecnologia explorando computação neuromórfica - a área que tenta usar princípios do cérebro biológico para criar novos tipos de processadores - é acessível. Para comparação, um servidor com GPUs de última geração para treinar modelos de IA custa muito mais que isso.
A Cortical Labs também oferece acesso remoto via Cortical Cloud, onde pesquisadores podem enviar código e monitorar os neurônios de qualquer lugar do mundo.
Por que isso importa
A computação tradicional funciona com transistores que ligam e desligam bilhões de vezes por segundo. É rápida, previsível e consome muita energia. Neurônios biológicos funcionam de um jeito completamente diferente: são lentos individualmente, mas se conectam em redes massivamente paralelas que consomem uma fração da energia.
O cérebro humano inteiro funciona com cerca de 20 watts - menos que uma lâmpada. Um data center de IA consome megawatts. Se a computação biológica amadurecer, o impacto energético seria absurdo.
Ainda estamos muito longe disso. Mas Doom sempre foi o primeiro teste. Rodou em impressoras, calculadoras, termostatos, testes de gravidez e até num programa de planilhas. Agora roda em neurônios humanos cultivados em laboratório.
O meme virou ciência de verdade. E a ciência está funcionando.
Bruno Silva
Entusiasta de hardware e overclocker nas horas vagas
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