O Chrome instalou 4 GB de IA no seu computador sem te perguntar - e se você deletar, ele baixa de novo

O Chrome está instalando o Gemini Nano, modelo de IA de 4 GB, no disco dos usuários sem aviso. Se você deletar, ele baixa de novo. Saiba como verificar e desativar.

Bruno Silva
Bruno Silva Entusiasta de hardware e overclocker nas horas vagas
6 de maio de 2026 6 min
Tela do explorador de arquivos mostrando pasta OptGuideOnDeviceModel do Chrome com arquivo weights.bin de 4 GB
!!

Existe um arquivo de 4 GB no seu computador que você provavelmente não sabe que está lá. O Google Chrome o instalou silenciosamente, sem notificação, sem confirmação, sem opção visível de recusar. E se você encontrar e deletar, o Chrome baixa de novo.

O arquivo se chama weights.bin. Ele fica numa pasta chamada OptGuideOnDeviceModel, dentro do diretório de dados do Chrome. No Windows 11, o caminho completo é %LOCALAPPDATA%\Google\Chrome\User Data\OptGuideOnDeviceModel. Em macOS e Linux, a estrutura segue formato equivalente. O conteúdo: o Gemini Nano, modelo de inteligência artificial da Google projetado para rodar localmente no dispositivo.

Modelos de IA são, na prática, arquivos enormes de parâmetros matemáticos gerados durante o processo de treinamento que ensinam uma rede neural a realizar tarefas específicas - no caso do Gemini Nano, recursos como sugerir continuações de texto, resumir páginas e alimentar o “Help me write”, recurso do Chrome que ajuda a redigir e-mails e preencher formulários. Quando um modelo roda diretamente no dispositivo do usuário, sem precisar de servidor remoto, ele precisa estar armazenado localmente. Essa abordagem tem vantagens reais: mais velocidade, menos latência, funcionamento sem internet. O problema não é a tecnologia. É que o Chrome está instalando esses 4 GB sem te contar.

Alexander Hanff: o pesquisador que mediu o download

Alexander Hanff, pesquisador de privacidade e advogado que publica sob o nome “That Privacy Guy”, conduziu um teste controlado para confirmar o comportamento. Ele criou um perfil completamente limpo no Chrome, sem abrir nenhuma página, sem ativar nenhuma função de IA, sem interagir com absolutamente nada. Em seguida, monitorou o sistema de arquivos do macOS com ferramentas nativas do sistema operacional para registrar qualquer criação ou modificação de arquivos.

Em pouco mais de 14 minutos, a pasta OptGuideOnDeviceModel foi criada e os 4 GB foram transferidos para o disco. Tudo em segundo plano, sem ação alguma do usuário.

O comportamento foi confirmado em múltiplos sistemas: Windows 11, Mac com Apple Silicon e Ubuntu. Há relatos de usuários descrevendo o mesmo fenômeno há pelo menos um ano. Não é um bug recente que passou despercebido. É uma política de produto que nunca foi comunicada.

Se você deletar, o Chrome baixa de novo

Localizar a pasta e apagar o conteúdo não resolve nada. O Chrome detecta a ausência dos arquivos e inicia um novo download automaticamente. A pasta simplesmente reaparece.

Para verificar se o arquivo já existe na sua máquina, no Windows 11 abra o Explorador de Arquivos e cole o caminho %LOCALAPPDATA%\Google\Chrome\User Data\OptGuideOnDeviceModel diretamente na barra de endereços. Se a pasta estiver lá, o modelo foi instalado.

A forma mais eficaz de interromper o ciclo de redownload é pela interface de flags experimentais do navegador, uma seção de configurações avançadas que a maioria dos usuários nunca viu e que o Google não anuncia:

  1. Digite chrome://flags na barra de endereços
  2. Pesquise por “Enables optimization guide on device”
  3. Mude o valor para “Disabled”
  4. Reinicie o navegador

Não é uma configuração exposta no menu de preferências normal. Isso não é acidente.

4 GB vezes um bilhão de usuários

Individualmente, 4 GB é pouco. Na escala do Chrome, que opera em mais de um bilhão de dispositivos ativos no mundo, o número passa a ter outra dimensão. Hanff calculou que distribuir silenciosamente esse arquivo para centenas de milhões de usuários pode ter gerado entre 6.000 e 60.000 toneladas métricas de CO2, levando em conta o consumo de energia nos servidores de distribuição e o impacto do processamento nos dispositivos dos usuários.

O Chrome não pediu licença para usar a sua energia, o seu disco nem as emissões associadas ao download.

O agravante brasileiro

Nos grandes centros brasileiros, conexões de fibra com franquia ilimitada são comuns. Fora deles, a realidade é outra. Uma parcela considerável dos usuários brasileiros acessa a internet principalmente pelo celular, com planos que cobram por gigabyte consumido. Usar o smartphone como ponto de acesso para o notebook, prática rotineira fora das capitais e em regiões com infraestrutura precária, transforma esses 4 GB em cobrança direta na conta do usuário.

O Chrome não verifica se você está numa conexão com dados medidos antes de iniciar o download. Não há opção de adiamento. Não há aviso de nenhum tipo.

Esse padrão de decisões tomadas sem considerar o contexto do usuário não é exclusividade do Chrome. Mês passado, o aplicativo da Meta AI expunha informações de amigos sem que eles soubessem. A lógica subjacente é a mesma: a big tech julga que a funcionalidade adicionada justifica a ausência de consentimento, e o usuário descobre o que aconteceu, se tiver sorte, muito depois.

As implicações legais dos dois lados do Atlântico

Na União Europeia, a Diretiva ePrivacy é direta: qualquer armazenamento no dispositivo do usuário que não seja estritamente necessário para o serviço solicitado requer consentimento explícito. Um modelo de IA de 4 GB para funcionalidades que o usuário nunca ativou não passa por esse critério. Hanff formalizou acusação contra o Google com base nessa legislação.

No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) segue princípio similar. O armazenamento local pode se enquadrar como tratamento de dados que exige base legal adequada. O consentimento é uma dessas bases; um download silencioso dificilmente se qualifica como consentimento válido sob qualquer leitura razoável da lei.

Não é a primeira vez que o ecossistema do Chrome aparece no centro de uma polêmica de privacidade com comportamentos que os usuários não conheciam. Em abril, o caso do LinkedIn escaneando extensões instaladas no navegador revelou como o ambiente do Chrome pode ser usado para coletar dados além do que se imagina. Não são incidentes isolados.

O que o Google disse

Até o momento em que este artigo foi escrito: nada. Nenhuma resposta pública sobre as alegações. Nenhuma explicação para o download sem consentimento. Nenhuma indicação de que o comportamento será alterado ou de que uma opção acessível será adicionada às preferências normais do navegador.

O Chrome tem participação de mercado em torno de 66% entre os navegadores. A decisão de distribuir um modelo de IA de 4 GB para essa fatia do mercado global, sem comunicação, sem consentimento e sem mecanismo de recusa simples, não aconteceu por descuido.

Isso foi uma escolha de produto. O silêncio sobre ela também é.

Bruno Silva
AUTOR

Bruno Silva

Entusiasta de hardware e overclocker nas horas vagas

Especialista em hardware, benchmarks e overclock. Analisa componentes e tendências do mercado.

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