Um RPG francês feito por 30 pessoas acabou de se tornar o segundo jogo da história a ganhar todos os grandes prêmios de Jogo do Ano

Clair Obscur: Expedition 33 ganhou o BAFTA de Jogo do Ano e virou o segundo jogo da história a limpar os cinco grandes prêmios de GOTY, igualando o feito de Baldur's Gate 3.

Marina Costa
Marina Costa Entusiasta de tech e indie games
18 de abril de 2026 6 min
Captura de gameplay de Clair Obscur: Expedition 33 mostrando combate por turnos com Maelle e escultura gigante ao fundo
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Na noite de sexta-feira, 17 de abril, no Queen Elizabeth Hall em Londres, Clair Obscur: Expedition 33 subiu ao palco do BAFTA Games Awards para receber o prêmio de Melhor Jogo. Foi o último prêmio que o RPG francês da Sandfall Interactive precisava pra entrar num clube que só tinha um membro até agora: o dos jogos que ganharam Jogo do Ano em todas as cinco grandes premiações da indústria no mesmo ciclo. O primeiro foi Baldur’s Gate 3 em 2023. O segundo é um jogo feito por trinta pessoas em Montpellier com orçamento abaixo de dez milhões de euros.

O que significa “limpar” os cinco grandes prêmios

A indústria de jogos tem cinco premiações que, somadas, funcionam como um espelho razoavelmente completo do que foi o ano. Cada uma avalia de um ângulo diferente. O Golden Joystick é o prêmio votado pelos jogadores. The Game Awards combina voto de jurados e voto popular. O DICE Awards é votado pela própria indústria, assim como o Game Developers Choice Awards. O BAFTA Games Awards é decidido por membros da academia britânica de cinema e televisão.

Ganhar em todos os cinco no mesmo ciclo é raro por um motivo simples: cada premiação tem prioridades e gostos diferentes. Jogos como The Witcher 3, Breath of the Wild e Elden Ring ganharam em algumas, mas sempre deixaram uma ou outra de lado. Baldur’s Gate 3 conseguiu limpar a coleção em 2023. Expedition 33 repetiu o feito em 2026.

Uma equipe de 30 pessoas venceu blockbusters que gastaram cem vezes mais

Sandfall Interactive é um estúdio com cerca de 30 funcionários. O projeto começou em 2019, quando Guillaume Broche, um funcionário da Ubisoft, decidiu que queria fazer um RPG de turnos inspirado nos clássicos japoneses que tinha amado na adolescência. Em 2020, no meio da pandemia, ele saiu da Ubisoft e fundou a Sandfall em Montpellier, no sul da França, com dois ex-colegas: François Meurisse e Tom Guillermin.

O orçamento final de Expedition 33 ficou abaixo de dez milhões de euros. Pra comparação, um AAA médio hoje custa entre cem e trezentos milhões. Dispatch, Ghost of Yotei, Indiana Jones and the Great Circle, Arc Raiders e Blue Prince foram os outros indicados a Melhor Jogo do BAFTA este ano. Todos vinham de estúdios com mais experiência, mais dinheiro ou mais tempo de estrada. Nenhum ganhou.

O que Expedition 33 colocou em pé

Cena do prólogo de Clair Obscur: Expedition 33 mostrando personagens em ambiente Belle Époque com pétalas caindo
Cena do prólogo de Clair Obscur: Expedition 33 mostrando personagens em ambiente Belle Époque com pétalas caindo

O jogo se passa num mundo de fantasia estilizado com forte influência da Belle Époque francesa. A premissa é macabra e elegante: todo ano, uma figura conhecida como a Paintress aparece e pinta um número numa estrutura gigantesca. Esse número define a idade em que todas as pessoas acima dela serão apagadas da existência. O número diminui a cada ciclo. A Expedição 33 é o grupo de voluntários que decide tentar matar a Paintress quando o número chega em 33.

O combate é por turnos, mas com elementos de ação em tempo real (esquivas precisas, parries, ataques contra-atacáveis). A direção de arte bebe de pintura a óleo e de cenários teatrais. A trilha sonora, de Lorien Testard, conduz o peso emocional da narrativa. Jennifer English, que faz a voz de Maelle, ganhou o BAFTA de Melhor Interpretação Principal pelo papel.

Os números do BAFTA e do The Game Awards

No BAFTA Games Awards 2026, Expedition 33 foi indicado em doze categorias e levou três: Melhor Jogo, Melhor Jogo Estreante e Melhor Interpretação Principal. No The Game Awards do ano passado, foi indicado em treze categorias e ganhou nove, incluindo GOTY. Os nove prêmios foram o maior número já conquistado por um único jogo na história da premiação, superando o recorde anterior de The Last of Us Part II.

Some os dois eventos, adicione os prêmios do Golden Joystick, do DICE e do GDC, e o resultado é uma trajetória que simplesmente não acontece. Jogos indie costumam perder pra blockbusters em premiações grandes. Jogos de RPG de turnos costumam perder pra jogos de ação. Estreantes costumam perder pra veteranos. Expedition 33 fez tudo isso acontecer no sentido contrário, e não só uma vez.

A França respondeu à altura

Em 6 de fevereiro deste ano, numa cerimônia em Paris, o governo francês concedeu título de cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras (Chevalier de l’Ordre des Arts et des Lettres) a 28 membros da equipe da Sandfall, em reconhecimento à contribuição deles pra cultura francesa. A mesma honraria já foi dada a Shigeru Miyamoto, criador do Mario, e a Eiji Aonuma, produtor de Zelda. É o tipo de honra que normalmente vai pra cientistas, diplomatas e artistas consagrados. A justificativa oficial foi que os videogames “alcançaram um novo nível de reconhecimento como forma cultural”.

Pra quem acha que isso é exagero, vale lembrar que a França tem uma longa tradição de tratar games como arte (o país chegou a criar a taxa sobre serviços de streaming pra financiar produção audiovisual, incluindo games). O que o caso da Sandfall mostra é que essa visão tá sendo validada na prática, não só no discurso.

O que Expedition 33 significa pra cena indie

Não é comum um RPG de estreia feito por trinta pessoas ganhar tudo que tem pra ganhar. É possível argumentar que o mercado tava particularmente receptivo em 2025, que os AAA do ano estavam fracos, que o algoritmo do Steam ajudou, que a imprensa criou momentum. Tudo isso pode ser verdade. Mas nada disso explica como um jogo feito com um décimo do orçamento dos concorrentes conseguiu convencer cinco premiações diferentes, com cinco metodologias diferentes, de que ele era o melhor do ano.

O que Expedition 33 provou é que o teto dos jogos feitos por equipes pequenas é muito mais alto do que a indústria gosta de admitir. Baldur’s Gate 3 fez o mesmo em 2023, mas com um estúdio grande e quase três décadas de estrada. A Sandfall fez na primeira tentativa.

Se a lição vai ser aprendida pelos publishers grandes, é outra história. Enquanto isso, Guillaume Broche e sua equipe de trinta pessoas estão num clube que tinha Larian Studios como único membro. Agora tem mais um nome lá.

Marina Costa
AUTOR

Marina Costa

Entusiasta de tech e indie games

Especialista em games indie e multiplayer. Jogadora e analista de mecânicas de jogo.

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