O cocriador de Mario e Zelda, e criador do Yoshi, vai se aposentar após 42 anos na Nintendo

Takashi Tezuka, diretor de Super Mario World e criador de Yoshi, se aposenta da Nintendo em 26 de junho de 2026, após 42 anos de empresa.

Marina Costa
Marina Costa Entusiasta de tech e indie games
9 de maio de 2026 6 min
Takashi Tezuka sorrindo em um evento da Nintendo
!!

A primeira vez que eu ouvi o som de Yoshi pousando no chão em Super Mario World, eu tinha uns sete anos. Não sabia que aquele personagem tinha sido criado por Takashi Tezuka. Não sabia o nome de ninguém que tinha feito aquele jogo. Nunca tinha pensado em saber.

É assim com tudo que nos define quando somos crianças. A música favorita, o filme que passou umas dez vezes na TV, o jogo que ficou na memória. A gente abraça a obra sem imaginar que existe uma pessoa do outro lado tomando decisões, testando variações, escolhendo que o personagem vai ter olhos desse tamanho, que o som vai ser esse, que a fase vai funcionar assim, que o controle vai responder de um jeito específico que vai ficar gravado na memória muscular por décadas.

Tezuka passou 42 anos tomando essas decisões na Nintendo. Em 26 de junho de 2026, ele se aposenta.

A lista que a maioria das pessoas não vai reconhecer pelo nome

Tezuka co-criou Super Mario Bros., o jogo de 1985 que definiu o que um jogo de plataforma pode ser. Dirigiu Super Mario Bros. 3, de 1988, que aparece em qualquer lista séria dos melhores jogos já feitos. Dirigiu Super Mario World, de 1990, onde criou Yoshi, o personagem que virou mascote, brinquedo, camiseta e tatuagem de gente que nem sabe quem o fez.

The Legend of Zelda original, de 1986, também tem o DNA dele. Depois veio A Link to the Past, de 1991, o Zelda mais amado de toda a série, um jogo tão reverenciado que até a IA do Google tentou recriar, com resultados que os fãs não perdoaram. E foi Tezuka quem dirigiu. Depois, Link’s Awakening e Yoshi’s Island.

A partir de Super Mario 64, ele migrou para o papel de produtor. Supervisionou Breath of the Wild, Animal Crossing, Super Mario Galaxy 2 e Super Mario Bros. Wonder, de 2023, que foi seu último crédito oficial antes da aposentadoria.

Mais de 150 títulos. 42 anos. Um nome que a maioria das pessoas nunca aprendeu.

O parceiro que ficou na sombra de Miyamoto

Shigeru Miyamoto é o nome que todo mundo conhece. O rosto público de Mario, de Zelda, de Donkey Kong. O mais famoso da Nintendo, provavelmente o designer de jogos mais reconhecível do mundo.

Mas Mario e Zelda não existem sem Tezuka.

No Zelda original, de 1986, Miyamoto cuidou do design de gameplay e Tezuka escreveu a história e co-dirigiu. Em Super Mario Bros., dividiram a direção. A separação entre os dois nunca foi “Miyamoto cria, Tezuka executa” - foi uma parceria real, com Tezuka fazendo escolhas tão fundamentais quanto as de Miyamoto. O mundo só não sabe o nome dele. Quando a Nintendo precisou de um animal que Mario pudesse cavalgar em Super Mario World, foi Tezuka quem criou Yoshi. Não é metáfora. Yoshi é uma criação direta de Takashi Tezuka.

Existe uma ironia quase dolorosa nisso. Yoshi tem mais merchandising, fanarts e colecionáveis do que quase qualquer outro personagem da Nintendo. É um dos mais amados do catálogo inteiro. E o nome da pessoa que o trouxe ao mundo é desconhecido pela esmagadora maioria das pessoas que têm um boneco dele na prateleira.

A Nintendo nunca foi uma empresa que promoveu seus criadores como celebridades. Diferente do cinema, onde o nome do diretor é parte do marketing, os jogos existem como produtos da marca, não como obras de autores específicos. Miyamoto é a exceção que a própria Nintendo construiu ao longo dos anos. Tezuka foi a regra. Trabalhou, construiu, definiu décadas de design, e vai sair de cena sem jamais ter virado personagem.

A geração que está partindo ao mesmo tempo

Tezuka não está saindo sozinho.

Em janeiro de 2026, outros dois veteranos deixaram a Nintendo: Hideki Konno, que passou décadas desenvolvendo a série Mario Kart e também esteve em Yoshi’s Island, e Kensuke Tanabe, produtor responsável pela série Metroid Prime. Três pilares fundamentais do que a Nintendo é, saindo em poucos meses.

É uma transição geracional que estava vindo faz tempo. A Nintendo tem uma cultura de longevidade que a diferencia de quase qualquer outra empresa do setor, e Shigeru Miyamoto, com 73 anos, continua ativo como executive fellow, um cargo criado especificamente para mantê-lo envolvido sem as pressões do dia a dia executivo. Mas a maioria dos contemporâneos de Miyamoto está chegando à idade padrão de aposentadoria da empresa.

O que vem depois é a pergunta sem resposta fácil. A Nintendo sob Tezuka e Miyamoto produziu alguns dos jogos mais importantes da história do meio. Os criadores que herdam esse legado agora, muitos formados dentro da própria empresa em projetos como Super Mario Bros. Wonder, são praticamente desconhecidos para o público em geral.

Que é exatamente a situação em que Tezuka estava quando entrou na Nintendo com 23 anos, em 1984.

O que fica quando o nome desaparece

Tem algo melancólico e bonito ao mesmo tempo em descobrir quem fez os jogos que te criaram.

Eu cresci com Super Mario World. Aprendi o que é design de fase jogando Yoshi’s Island sem saber que estava aprendendo nada. A Link to the Past me ensinou como uma narrativa pode caber num cartucho de SNES sem perder o que importa. Essas não foram escolhas de algoritmo ou de comitê. Foram escolhas de uma pessoa com nome, com gostos, com uma visão específica de como o jogo deveria funcionar.

Yoshi ainda vai aparecer nos próximos Marios. A Link to the Past vai continuar sendo reverenciado e relançado. Super Mario Bros. 3 ainda vai ser o padrão de comparação pra jogos de plataforma durante muitos anos.

O que não vai ter mais é Tezuka tomando as decisões.

Esse tipo de legado, invisível mas presente em tudo que veio depois, é o que separa um designer de games de alguém que simplesmente trabalhou bem por muitos anos numa empresa grande. Tezuka construiu coisas que duraram mais do que qualquer tecnologia de sua época. Construiu personagens que existem independente do hardware que os criou. E fez isso durante quatro décadas, em uma das empresas mais influentes da história do entretenimento, com o nome pouco maior do que uma linha no final dos créditos.

Agora ele vai descansar. Faz mais do que jus.

Marina Costa
AUTOR

Marina Costa

Entusiasta de tech e indie games

Especialista em games indie e multiplayer. Jogadora e analista de mecânicas de jogo.

100% FREE * SEM SPAM

FICA POR
DENTRO

Todo domingo, um drop com o que você precisa saber sobre cultura pop e tech. Rápido, curado, sem spam.