O DRM do PS5 pode transformar seu console modificado em tijolo. Mas o verdadeiro problema é pior

No Réveillon de 2025, as chaves BootROM do PS5 vazaram. É uma brecha de hardware impossível de corrigir por atualização. O DRM que causou pânico em abril faz mais sentido com esse contexto.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
2 de maio de 2026 5 min
Console PS5 com placa de circuito exposta, representando vulnerabilidade de hardware no chip BootROM
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O título que circulou esta semana era “DRM vai tijolotar PS5 com jailbreak”. A história real é mais complicada e, dependendo de onde você está, mais grave.

Um “insider” anônimo especulou para o NotebookCheck que o novo DRM do PS5 jailbreak poderia ser usado para inutilizar consoles modificados. A Sony não confirmou nada. Nenhum PS5 foi confirmado como tijoletado. A afirmação é teoria, não fato.

Mas existe um contexto que transforma essa especulação em algo menos absurdo: no dia 31 de dezembro de 2025, as chaves BootROM do PS5 vazaram. E esse vazamento criou um problema que a Sony não consegue resolver com atualização de firmware.

O que é BootROM e por que o vazamento é diferente de outros hacks

Todo console tem um processo de inicialização. Quando você liga o PS5, a primeira coisa que roda é o código gravado no chip BootROM - um componente soldado na placa-mãe que não pode ser alterado depois da fabricação. É esse código que verifica se o resto do software do console é legítimo antes de deixá-lo rodar.

As chaves criptográficas que protegem esse processo são o que vazou. Com elas em mãos, pesquisadores de segurança conseguem assinar código não autorizado de um jeito que o console não distingue do software oficial da Sony.

A diferença para exploits anteriores: aqueles dependiam de bugs de software que a Sony podia corrigir em atualizações. O BootROM está em silício. Não tem patch. Cada PS5 vendido até hoje carrega essa vulnerabilidade e vai carregar para sempre.

A frase que correu nos círculos de segurança foi direta: “o hacking de console detonou uma bomba”.

O que isso tem a ver com o DRM de abril

Cobrimos o DRM do PS5 quando a coisa explodiu: jogos digitais comprados depois de março de 2026 recebem uma licença temporária que exige uma verificação online única nos primeiros 30 dias. Depois disso, a licença vira permanente e não precisa mais de conexão.

A teoria mais sólida para o motivo é o fechamento de um golpe de reembolso: alguém com PS4 desbloqueado comprava um jogo, extraía o arquivo de licença permanente, pedia reembolso dentro da janela de 14 dias e usava a licença numa cópia pirata. O DRM fecha essa brecha ao não gerar licença permanente durante a janela de reembolso.

O efeito colateral: quem usa PS5 com firmware antigo para manter um jailbreak ativo precisa ficar offline, porque conectar ao servidor da PlayStation força uma atualização que fecha as vulnerabilidades conhecidas. Sem conexão, os jogos novos não autenticam a licença temporária e param de funcionar.

A Sony não precisa mandar um comando “destruir console”. Só precisa tornar os jogos novos inacessíveis pra quem não atualiza. O resultado prático é parecido: ou você atualiza e perde o jailbreak, ou não atualiza e não joga nada lançado depois de março de 2026.

O PS3 já passou por isso, e a Sony pagou

Em 2010, a Sony lançou o firmware 3.21 do PS3 removendo a função “OtherOS” - que permitia instalar Linux no console - citando “razões de segurança”. A motivação real era bloquear o acesso que hackers estavam usando para explorar o sistema.

A diferença: o PS3 original foi vendido com essa função como feature anunciada. Remover ela via atualização custou à Sony um processo coletivo que levou oito anos para ser resolvido. A empresa pagou US$ 3,75 milhões em 2018, sem admitir culpa, com cada reclamante recebendo cerca de US$ 10.

O DRM atual do PS5 é mais sutil. Não remove nada que foi anunciado como feature. Age passivamente: novos jogos precisam de uma verificação que consoles desatualizados não conseguem fazer. A Sony não tirou nada de você. Apenas parou de entregar coisas novas para quem não aceita as condições.

O que isso significa se você tem um PS5 normal no Brasil

Nada, se você joga online e atualiza normalmente.

O DRM afeta quem compra jogos digitais novos e fica offline por mais de 30 dias sem ter feito a verificação inicial. Pra maioria das pessoas, isso não acontece. O risco para donos de consoles com jailbreak é real, mas essa é uma fatia pequena de usuários.

O que muda é o custo de estar nessa situação. O PS5 Standard subiu para R$ 5.099,90 no Brasil em abril, depois de um aumento anunciado pela Sony em 27 de março. Antes do reajuste, custava R$ 4.499,90. Ainda é possível encontrar unidades em estoque antigo abaixo do preço oficial em algumas lojas.

Comprar um PS5 por quase R$ 5.100 e descobrir que a Sony tem mecanismos técnicos para controlar o que você consegue jogar nele é uma conversa que a empresa não está tendo diretamente com os consumidores. Isso não é novidade no histórico recente da Sony.

O que ainda não sabemos

A pirataria completa no PS5 ainda não chegou. O vazamento do BootROM abriu a porta, mas a autenticação do drive óptico e o hypervisor do console ainda estão segurando a entrada. Rodar Linux no PS5 via exploit foi demonstrado em 1º de maio - impressionante tecnicamente, inútil para pirataria prática.

A Sony está correndo contra o tempo. O BootROM não tem conserto. A única saída de longo prazo é uma revisão de hardware com novo chip. Enquanto isso, o DRM que causou quatro dias de pânico em abril parece menos uma medida anti-consumidor e mais um tampão emergencial numa represa que já rachou.

O insider pode estar errado sobre o brick. Mas sobre o fato de que a Sony está preocupada: as evidências apontam que sim.

Lucas Ferreira
AUTOR

Lucas Ferreira

Gamer desde o PS1, cético desde sempre

Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.

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