Google Genie tentou recriar Zelda com IA e caiu no vale da estranheza

O Project Genie do Google recriou Breath of the Wild com IA e os fãs não perdoaram. Enquanto isso, o romhack Zelda Indigo mostra como homenagear um clássico de verdade.

Marina Costa
Marina Costa Entusiasta de tech e indie games
10 de fevereiro de 2026 5 min
Comparativo entre o Zelda gerado por IA do Google Genie e o romhack Zelda Indigo feito à mão
!!

Tem um momento em Breath of the Wild que eu lembro com nitidez absoluta. Você sai do Shrine of Resurrection, sobe aquele primeiro platô e a câmera abre para Hyrule inteira. A trilha mal começou. O vento mexe a grama. E você simplesmente para. Não porque o jogo mandou, mas porque alguma coisa na direção de arte te segurou ali por pura emoção.

É exatamente essa sensação que falta no vídeo que o designer Min Choi publicou usando o Project Genie do Google para “recriar” Breath of the Wild com inteligência artificial. E olha, falta tanto que os fãs chamaram o resultado de “crime contra a humanidade”. Pesado? Talvez. Mas depois de assistir ao vídeo, eu meio que entendo.

O que o Google Genie fez (e por que todo mundo odiou)

No final de janeiro, o Google DeepMind lançou o Genie 3 - uma ferramenta que promete gerar mundos 3D jogáveis a partir de texto. Você descreve, a IA constrói. Min Choi pediu uma Hyrule e o resultado viralizou, mas não pelo motivo que o Google queria.

O que aparece no vídeo é uma versão chapada do BotW: Link com escudo e parapente, campos verdes, céu azul - tudo superficialmente parecido e profundamente errado. “Cada elemento é copiado de Zelda, sem um único pixel de originalidade”, resumiram os fãs. O Nintendo Life foi mais direto e chamou a ferramenta de “basicamente uma gigantesca máquina de plágio”.

E o mais absurdo: o Genie custa $124,99 por mês e entrega ambientes a 720p, 24 fps, com limite de 60 segundos. O Breath of the Wild original roda a 30fps num Switch de 2017. A IA de 2026 do Google, com toda infraestrutura de servidor do mundo, entrega algo PIOR que um console portátil de nove anos atrás. Se não fosse triste, seria engraçado.

Zelda recriado pelo Google Genie 3: à esquerda, a Hyrule gerada por IA com a marca d'água do Genie; à direita, a reação dos fãs resumida em um Toon Link furioso

O problema não é o gráfico, é a ausência de alguém ali

Eu jogo indie com pixel art 8-bit e choro feito criança. Gráfico nunca foi o ponto. O problema é que não tem ninguém por trás daqueles pixels.

Quando a equipe do Eiji Aonuma desenhou a Hyrule de Breath of the Wild, cada colina guiava o olhar do jogador, cada ruína contava um pedaço da história, cada mudança de luz marcava o ritmo da exploração. A direção de arte bebeu do Studio Ghibli e transformou um mundo aberto em algo que fazia você sentir o vento antes de vê-lo. Isso é game design com intenção - cada elemento existe porque alguém decidiu que ele precisava estar ali.

A IA do Genie não tem intenção. Ela gera terreno porque tem processamento pra isso. Ilumina tudo porque pode. É tipo aquele remake fotorrealista de O Rei Leão de 2019 - tecnicamente impressionante, emocionalmente morto. Se não tem uma pessoa decidindo onde a luz cai e por que aquela árvore está naquele lugar, não é um jogo. É um screensaver caro.

Agora, deixa eu te contar sobre o Zelda: Indigo

Se você quer ver o que acontece quando alguém realmente ama Zelda e resolve criar algo com as próprias mãos, precisa conhecer The Legend of Zelda: Indigo.

É um romhack de Ocarina of Time feito pelo Kenton M e sua equipe. Não é IA gerando mundo. É código C escrito à mão usando o código-fonte decompilado do jogo original, com modelos criados via Fast64, cada textura colocada ali de propósito. A história se passa 15 anos depois de Majora’s Mask, com um Link adulto explorando uma região nova chamada Valana. O projeto tem 50 animações inéditas, itens novos e um sistema de diálogos que o original nem sonhava em ter.

Tela de personalização do Link em Zelda: Indigo, o romhack de Kenton M com sistema de customização que o original não tinha

ScottFalco dedicou um vídeo inteiro chamando de “o MELHOR romhack de Zelda já feito” e, sinceramente? Depois de ver os devlogs eu concordo. Tem algo ali que me lembra a sensação de descobrir Cave Story pela primeira vez - aquele “espera, UMA PESSOA fez isso?”. É a mesma energia de Toby Fox construindo Undertale no quarto dele ou ConcernedApe passando quatro anos fazendo Stardew Valley sozinho. Uma pessoa com visão clara entrega mais do que uma corporação bilionária com poder de processamento infinito.

Gameplay de Zelda: Indigo na Tokiria Forest com o HUD clássico do N64, level design feito à mão dentro das limitações do hardware original

E é justamente a limitação do hardware do N64 que vira ferramenta criativa. Quando você não pode renderizar tudo, precisa escolher o que importa. Cada árvore na Tokiria Forest, cada ponte de madeira, cada sombra existe porque alguém decidiu que deveria estar ali. Isso é direção de arte. Isso é o que separa um jogo de uma demonstração técnica.

Uma pessoa com paixão vs. uma empresa com servidores

A gente vive num momento estranho pra games. De um lado, empresas bilionárias vendem ferramentas de $125 por mês que geram mundos genéricos sem alma. Do outro, uma pessoa chamada Kenton e sua equipe constroem um Zelda inteiro com código C e paixão genuína.

Eu sei qual dos dois me faz querer jogar.

Se você nunca ouviu falar do Zelda: Indigo, vai atrás. Procura os devlogs do Kenton M no YouTube, assiste o vídeo do ScottFalco. E se já jogou, me conta - porque eu ainda tô processando a Tokiria Forest e preciso falar com alguém sobre isso.

Marina Costa
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Marina Costa

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