'Morrer mil mortes' é o que o criador do Resident Evil 2 deseja a quem vazou Requiem inteiro
Cópias físicas de RE Requiem vazaram 10 dias antes do lançamento. Hideki Kamiya, criador do RE2 original, desejou mil mortes aos responsáveis.
Eu ia esperar até dia 27 pra escrever sobre Resident Evil Requiem de novo. Ia. Mas alguém decidiu que o mundo não merece coisas boas.
Cópias físicas da edição Deluxe de Resident Evil Requiem vazaram na internet cerca de dez dias antes do lançamento oficial. Não foi um screenshot borrado de celular. Foi o jogo inteiro - final boss, cutscenes, reviravoltas de roteiro, tudo. Incluindo coisas que fãs esperavam há anos descobrir por conta própria na frente da tela, de madrugada, com o coração na boca.
O insider Dusk Golem confirmou o vazamento com fotos das cópias em mãos. A Capcom respondeu com pedidos formais de DMCA e ameaças de processo contra canais no YouTube, clipes na Twitch e posts no X. A internet respondeu tentando desviar de spoilers como quem atravessa um campo minado.
E Hideki Kamiya respondeu sendo Hideki Kamiya.
”Morram mil mortes”
Se você joga desde os anos 90, conhece o nome. Kamiya dirigiu o Resident Evil 2 original em 1998 - o jogo que transformou a franquia. Depois veio Devil May Cry, Viewtiful Joe, Bayonetta. O homem não é de meias palavras, nunca foi, e não ia começar agora.
No X, Kamiya escreveu:
“Pela satisfação egoísta de vocês, vocês pisoteiam os sentimentos dos jogadores que esperavam ansiosamente pelo jogo e dos criadores que colocaram o coração inteiro nele. É um ato desprezível que destrói a felicidade de todo mundo - vocês merecem morrer mil mortes.”
E completou: “Que sejam amaldiçoados a nunca mais jogar games.”
A expressão original em japonês - 万死に値する - é um idiomatismo que significa algo como “merecer o pior dos piores”. Kamiya não estava ameaçando ninguém. Estava destilando em 280 caracteres a frustração de quem já passou por isso antes.
Ele já passou por isso
Kamiya contou que quando o Resident Evil 2 original estava prestes a sair, uma revista semanal japonesa publicou fotos que revelavam uma das maiores reviravoltas do jogo. A equipe de desenvolvimento ficou arrasada. Ele lembra até hoje da sensação de ver meses de trabalho tendo o impacto destruído por alguém que queria ser o primeiro a mostrar.
Vinte e oito anos depois, a tecnologia mudou. O sentimento não.
O que vazou (sem spoilers, prometo)
Não vou listar o que saiu. Se você está evitando spoilers, pode continuar lendo tranquila.
O que posso dizer é que o material inclui o confronto final, cutscenes de encerramento e pelo menos uma revelação que muda o contexto de tudo que a gente conversou sobre o Leon e a infecção dele. Se você leu o que escrevi sobre o quarto trailer, sabe que já estávamos preocupadas. Agora a preocupação tem nome, sobrenome e spoiler tag.

A Capcom está fazendo o possível pra conter o estrago. Pedidos de DMCA voando, strikes em canais do YouTube, remoção de posts no Reddit. A empresa publicou um comunicado oficial pedindo que jogadores “se abstenham de publicar ou postar vídeos de gameplay antes da data de lançamento” e avisando que vai tomar “medidas firmes” contra quem continuar. Funciona? Mais ou menos. Quem quer encontrar, encontra. Mas pelo menos estão tentando.
Quem paga a conta
A conversa sobre vazamentos quase sempre gira em torno de “liberdade de informação” versus “proteção de spoilers”. Mas tem uma terceira parte que todo mundo esquece: as pessoas que fizeram o jogo.
Resident Evil Requiem levou anos pra ficar pronto. O diretor Koshi Nakanishi falou em entrevistas sobre como a equipe reescreveu sessões inteiras do Leon porque o tom original não funcionava. Testaram e retestaram o equilíbrio entre horror e ação até encontrar o que ele chamou de “pular numa banheira gelada depois de uma sauna quente.”
Tudo isso pra alguém postar o final num fórum antes do jogo sair.
Eu sei que vazamentos são parte da indústria. Sempre foram. Cópias vazam, dados são minerados, insiders falam. É o mundo que a gente vive. Mas quando Kamiya diz que é um “ato desprezível que destrói a felicidade de todo mundo”, ele não está exagerando. Está descrevendo com precisão o que acontece quando alguém decide que a satisfação de ser primeiro importa mais do que a experiência de todo mundo.
Quatro dias
Resident Evil Requiem chega dia 27 de fevereiro pra PS5, Xbox Series X/S, PC e Nintendo Switch 2. São quatro dias. Quatro dias pra mutar palavras-chave no Twitter, evitar o Reddit, não abrir o YouTube na página principal.
Kamiya disse “morram mil mortes” e parte da internet achou graça. Eu entendo ele. Quando você dedica a vida a criar algo e alguém destrói a surpresa por clout, “mil mortes” é pouco.
Marina Costa
Entusiasta de tech e indie games
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