A IA que a Anthropic chamou de 'perigosa demais' agora está liberada e de graça por tempo limitado

A Anthropic lançou o Claude Fable 5, a versão pública do seu modelo mais poderoso. Sai sem custo extra nos planos pagos até 22 de junho, com travas polêmicas.

Bruno Silva
Bruno Silva Entusiasta de hardware e overclocker nas horas vagas
10 de junho de 2026 6 min
Logo do Claude, da Anthropic, com a identidade visual do modelo Fable 5
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A Anthropic fez uma jogada estranha nesta terça-feira, 9 de junho: colocou nas mãos do público o Claude Fable 5, a versão liberada do modelo de inteligência artificial mais poderoso que ela já construiu. O que faz isso soar contraditório é que, pouco tempo antes, a própria empresa tinha avisado em alto e bom som que essa nova geração de IA estava ficando perigosa demais.

Modelo de fronteira é o nome que se dá a esses sistemas de ponta, os mais avançados que existem num dado momento. Eles programam, leem documento, enxergam imagem e resolvem problema científico num nível que já incomoda governo, banco e gente de segurança digital. O Fable 5 é o primeiro da chamada classe Mythos a sair do laboratório e chegar pra quem assina o Claude.

Fable 5 e Mythos 5 são o mesmo cérebro com coleiras diferentes

Existem dois modelos rodando o mesmo motor por baixo: o Fable 5 e o Mythos 5. A única diferença real entre eles é a coleira de segurança.

O Mythos 5 é a versão sem coleira em algumas áreas, e ela não é pra você. Fica restrita a um grupo pequeno de profissionais de defesa digital e provedores de infraestrutura, distribuída pelo Project Glasswing, uma parceria da Anthropic com o governo dos Estados Unidos. O Fable 5 é o mesmo modelo, mas com as travas de segurança ativadas. É essa versão domada que entrou nos planos pagos.

A Anthropic não economiza no marketing da capacidade: diz que o Fable 5 está “no estado da arte em quase todos os testes” e que, em ensaios na Stripe, “comprimiu meses de engenharia em poucos dias”. Tem até um número simpático de exemplo: a empresa afirma que o modelo consegue jogar um Pokémon antigo só olhando pra tela, sem ninguém digitar os comandos pra ele. Bonito no slide. A prova de verdade vem do uso, não do anúncio.

Como funciona a trava que desliga a IA no meio da conversa

O Fable 5 carrega o que a Anthropic chama de classificadores, que são pequenos sistemas treinados pra farejar o assunto da sua pergunta. Quando você toca em um de três temas considerados de risco, a resposta não vem do Fable 5. Ela é desviada na hora pro Claude Opus 4.8, o modelo anterior, menos capaz.

Os três temas que disparam o desvio são cibersegurança, biologia e química (com medo de receita de arma biológica) e destilação, que é a técnica de espremer o conhecimento de um modelo pra treinar outro, geralmente um concorrente querendo copiar de graça. Segundo a Anthropic, essa trava dispara em menos de 5% das sessões.

Guarde esse número, porque tem gente discordando feio dele.

O “de graça até dia 22” tem letra miúda

Esse foi o gancho que rodou os sites brasileiros, e ele merece um asterisco grande. O Fable 5 não está liberado pra qualquer um que abra o Claude no navegador. Ele entra sem custo adicional pra quem já paga assinatura, nos planos Pro, Max, Team e Enterprise, de hoje até 22 de junho. No dia 23, ele sai desses planos e passa a consumir créditos, ou seja, vira item pago à parte.

Traduzindo: “de graça” aqui quer dizer “sem cobrança extra pra quem já desembolsa a mensalidade”. Se você está no plano gratuito do Claude, a festa não é sua. É uma degustação com prazo de validade pra empurrar quem assina a usar o brinquedo novo antes de ele virar consumo medido.

Vale lembrar que essa corrida por prender e cobrar o usuário é o esporte do momento no setor. Não faz nem uma semana que a OpenAI sinalizou que vai transformar o ChatGPT num superapp de agentes antes de abrir o capital, de olho no bilhão de usuários que hoje não paga nada. Anthropic e OpenAI estão no mesmo tabuleiro: capacidade absurda na vitrine, monetização apertando na saída.

Os especialistas em segurança acharam a coleira curta demais

A Anthropic soltou um modelo que ela mesma chamou de perigoso, e a reclamação que apareceu não foi “está solto demais”. Foi o contrário: a trava de cibersegurança está tão sensível que atrapalha quem trabalha com segurança de forma legítima.

Valentina Palmiotti, pesquisadora da IBM X-Force, disse que o Fable 5 “rejeita qualquer pedido que possa ser remotamente ligado a cyber, até tarefas inofensivas como ler um post de blog”. Matt Suiche, veterano da área de cibersegurança, explicou o mecanismo do problema: “qualquer coisa no campo semântico de ‘cibersegurança’ aciona as travas”. Na prática, pedidos banais de programador, como “escreva um código seguro” ou “revise meu código”, já são suficientes pra derrubar você no modelo de baixo.

Suiche, pra ser justo, relativizou: “é compreensível, ainda estamos no começo”, e apostou que a Anthropic vai afrouxar com o tempo. Mas o retrato é estranho. O modelo é perigoso demais pra soltar inteiro e, ao mesmo tempo, tapado demais pra ajudar num “code review”. Os dois podem ser verdade ao mesmo tempo, e é justamente esse equilíbrio difícil que a Anthropic está testando ao vivo, com a sua conta de cobaia.

Vale a pena correr pra testar?

Pra quem já paga Pro ou Max e usa IA pra trabalho de verdade, principalmente programação e análise, sim, abrir o Fable 5 na janela gratuita faz sentido. É a chance de medir se ele encosta nas promessas antes de decidir gastar crédito com ele depois do dia 22. Quem mexe com segurança digital pode pular: vai esbarrar na coleira o tempo todo.

Na API, que é o canal pra quem integra o modelo em sistema próprio, o preço saiu a US$ 10 por milhão de tokens de entrada e US$ 50 por milhão de tokens de saída. Token é o pedacinho de texto que a IA processa e cobra; um milhão deles equivale a centenas de milhares de palavras. É menos da metade do que custava a prévia do Mythos, o que mostra onde a briga vai ser decidida: não no slide de benchmark, e sim em quem entrega mais capacidade pelo menor preço por token. Nesse jogo, o consumidor só ganha enquanto as empresas estiverem dispostas a queimar dinheiro pra te fisgar.

Bruno Silva
AUTOR

Bruno Silva

Entusiasta de hardware e overclocker nas horas vagas

Especialista em hardware, benchmarks e overclock. Analisa componentes e tendências do mercado.

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