'O chat está morto': a OpenAI vai mudar o ChatGPT, e o motivo não é tecnologia
A OpenAI quer transformar o ChatGPT num superapp de agentes antes de abrir o capital. Quase todos os 1 bilhão de usuários estão no plano grátis.
Um funcionário sênior da OpenAI resumiu o futuro do produto mais popular da empresa em três palavras ditas ao Financial Times: “o chat está morto”.
Não é desabafo de quem está de saco cheio do trabalho. É antecipação da maior reformulação do ChatGPT desde que ele apareceu, no fim de 2022, e o alvo da mudança é justamente a tela de conversa que fez quase 1 bilhão de pessoas usarem a ferramenta.
A frase soa estranha porque é o chat que vendeu o ChatGPT. Você abre, digita uma pergunta, ele responde. Foi isso que tirou a inteligência artificial do laboratório e botou no celular de gente que nunca tinha escrito uma linha de código. Agora a OpenAI quer empurrar essa porta de entrada pro canto e construir outra coisa por cima.
O que a OpenAI vai juntar num app só
O plano é fundir três produtos que hoje vivem separados. O ChatGPT que você conhece, a caixa de texto de pergunta e resposta. O Codex, a ferramenta da OpenAI que escreve e executa código de programação. E o Atlas, o navegador de internet da própria empresa. Os três viram um app só, vendido sob a palavra da moda: “superapp”.
Superapp é conceito emprestado da Ásia, onde aplicativos como o WeChat fazem tudo dentro de uma tela: conversa, pagamento, transporte, compra, agendamento. A ideia de transformar um app que todo mundo já usa num shopping fechado, onde você resolve a vida inteira sem sair, não é nova. É a ambição de toda empresa de tecnologia grande. Dá certo quando o app vira indispensável, e dá errado quando vira um inchaço cheio de função que ninguém pediu.
O termo que importa nessa virada é “agente”. A diferença entre um chatbot e um agente é a diferença entre alguém que te dá a receita e alguém que cozinha o prato. O chatbot responde a pergunta. O agente, na promessa, executa a tarefa sozinho: navega nos sites, preenche o formulário, escreve o código, gera a imagem e aperta o botão no fim. Quem comanda a fusão é Thibault Sottiaux, diretor de produto da OpenAI. Ele descreve o objetivo assim: “vai transcender a superfície atual… o que estamos construindo é um agente pessoal capaz de te ajudar em tudo na sua vida, seja no pessoal ou no trabalho”.
As mudanças começam nas próximas semanas e, no início, aparecem como ajustes no site e nos aplicativos: sugestões de comando e botões que empurram o usuário pra programação, geração de imagem e apps de parceiros como Canva e Booking. Nada de virada de chave de um dia pro outro. É um empurrãozinho de cada vez.
Por que matar o chat é sobre dinheiro, não tecnologia
Até aqui é o discurso. Os números contam outra história. Dos quase 1 bilhão de usuários do ChatGPT, a quase totalidade está no plano grátis. O Codex, a parte que dá dinheiro, tem 5 milhões de usuários semanais pagantes. Cliente corporativo já responde por cerca de 40% da receita da OpenAI, e a empresa quer que isso chegue a 50% até o fim do ano.
Olhe a conta de novo. Um bilhão de pessoas usando de graça, 5 milhões pagando. Servidor de inteligência artificial é caro, cada resposta custa energia e processamento, e ninguém banca um bilhão de usuários grátis por simpatia. O “chat morto” não é uma frase sobre tecnologia. É uma frase sobre quem paga a conta.
E tem prazo. A OpenAI está se preparando pra abrir o capital, virar empresa de bolsa com avaliação que beira o trilhão de dólares, segundo a Bloomberg apurou sobre o mesmo movimento. Quem vai abrir capital precisa mostrar planilha que fecha pro investidor, não um brinquedo grátis que queima dinheiro. Um app de bate-papo usado por um bilhão de pessoas que não pagam é despesa. Um “agente que faz tudo por você” e cobra por isso é receita. A tradução de “o chat está morto” é mais ou menos essa: o brinquedo grátis acabou, agora alguém vai pagar antes do sino tocar na bolsa.
Não é a primeira vez que a empresa mexe no ChatGPT atrás de dinheiro. No começo do ano ela já tinha começado a testar anúncios dentro do chat, o caminho mais velho da internet pra transformar usuário grátis em dinheiro. Agora a aposta é maior e copia descaradamente a Anthropic, dona do Claude: a rival passou meses empurrando o Claude Code, a versão de programação do modelo dela, porque é no contrato de empresa que o dinheiro aparece rápido. Quando as duas maiores do setor correm pro mesmo lugar, não é coincidência, é onde está o dinheiro.
Quanto o brasileiro vai pagar por isso
Pro brasileiro tem um detalhe a mais. O plano pago, o ChatGPT Plus, custa US$20 por mês lá fora. Aqui a OpenAI já passou a cobrar em real e lançou um plano mais barato, o ChatGPT Go, por R$39,99 mensais, pensado justamente pra mercados como o Brasil, onde pagar em dólar com IOF no cartão espanta o usuário. Cobrar em real foi o primeiro passo pra tirar o brasileiro do grátis sem o susto do câmbio. Reformular o app inteiro pra empurrar agente pago é o segundo. Dá pra conferir os planos na própria página da OpenAI.
A pergunta que sobra é simples e prática: o agente vai funcionar bem o suficiente pra justificar a cobrança? Hoje, agente de inteligência artificial ainda é coisa lenta e furada, que erra a tarefa, trava no meio e precisa de gente conferindo se ele não fez besteira. Pagar uma assinatura mensal por um robô que faz “quase” o que você pediu é apostar no escuro. E a OpenAI está pedindo essa aposta de quem hoje resolve a vida de graça com a caixa de texto.
Promessa de software que faz tudo sozinho a gente já ouviu antes, e quase sempre a versão real chega mais burra e mais cara que o slide da apresentação. Vale guardar uma coisa: a tela de conversa que a OpenAI agora chama de morta é a mesma que construiu o império inteiro. Matar o que funciona pra agradar investidor é uma aposta. E quem vai testar essa aposta na prática, de graça, é você.
Lucas Ferreira
Gamer desde o PS1, cético desde sempre
Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.
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