A Nvidia quer transformar seus jogos em filtro de Instagram

O DLSS 5 foi anunciado na GDC e promete fotorrealismo. O que a Nvidia entregou até agora foi personagens com cara de filtro do BeautyPlus.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
17 de março de 2026 4 min
Comparativo lado a lado de personagem de Starfield com e sem DLSS 5, mostrando o efeito de filtro de IA no rosto do NPC
!!

O vídeo de apresentação do DLSS 5 na GDC 2026 tem mais dislikes do que likes no YouTube. Isso já diz bastante.

A Nvidia anunciou o DLSS 5 durante a Game Developers Conference em San Jose, e a recepção foi, digamos, gelada. A tecnologia foi demonstrada em Resident Evil Requiem, Hogwarts Legacy e Starfield, e em minutos o Twitter estava cheio de comparações com filtro de BeautyPlus. Um dos comentários mais curtidos no vídeo oficial resumiu bem: “isso ficou assustadoramente estranho.”

Pra entender o problema, precisa entender o que o DLSS 5 realmente faz - porque não é upscaling. DLSS até a versão 4.5 é upscaling com geração de frames: o jogo renderiza em resolução menor, a IA reconstrói a imagem em qualidade maior e gera frames intermediários pra aumentar o FPS. É tecnologia de compressão esperta. O Adrenaline testou em blind test e o 4.5 bateu até o modo nativo em mais da metade dos jogos. Numa RTX 5070 - R$ 4.500 no Brasil, US$ 549 nos EUA - é o que faz o 4K ser viável sem fritar a placa.

O DLSS 5 é uma categoria diferente. A Nvidia chama de “neural rendering model”: a IA pega o frame já renderizado e injeta iluminação fotorrealista por cima, recalculando como a luz interage com pele, cabelo, metal e água em tempo real. Jensen Huang chamou de “o momento GPT dos gráficos.” Humildade zero.

O resultado nas demos foi constrangedor. Grace, a protagonista de Resident Evil Requiem, ficou com a pele de boneca de plástico. Leon Kennedy saiu com um backlight tão artificial que parece efeito de Photoshop. A bruxa de Hogwarts Legacy ganhou rugas cartunescas que lembram filtro de envelhecimento do TikTok. E os NPCs de Starfield - que já eram robóticos por natureza - saíram com maçãs do rosto e sobrancelhas tão marcadas que entraram de vez no vale da estranheza.

A parte que mais incomoda: a Nvidia diz que o DLSS 5 não toca em nenhum asset original do jogo. Nenhuma textura, nenhum modelo 3D. Só a camada de iluminação. Quer dizer que a IA jogando luz diferente num personagem já é suficiente pra desfigurá-lo a ponto de parecer outro. O artista que modelou aquele rosto não autorizou esse filtro.

Aí entra Todd Howard.

A Nvidia colocou o diretor da Bethesda num vídeo elogiando o DLSS 5 rodando em Starfield: “foi incrível como ele trouxe o jogo à vida. Nós jogamos; mal podemos esperar pra vocês fazerem o mesmo.” Starfield. O jogo com NPCs que viraram meme por parecerem sem vida. A internet não perdoou. A Bethesda correu pro X pra tentar apagar o incêndio, dizendo que “os times de arte vão ajustar a iluminação pra ficar do jeito que achamos que funciona melhor.” A Nvidia prometeu “controle artístico total” pra os desenvolvedores, com intensidade e masking configuráveis. A comunidade leu tudo e respondeu: “tá, mas eu não pedi.”

Tem um detalhe financeiro que importa aqui. O DLSS 5 é exclusivo da série RTX 50, e a demo na GDC rodou em duas RTX 5090 em paralelo, segundo a Eurogamer Portugal - a Nvidia garantiu que a versão final vai rodar numa GPU só, mas ainda assim estamos falando da linha que começa em R$ 4.500 e chega perto de R$ 20.000. Hardware de elite pra ter acesso a um filtro que, no estado atual, deixa os personagens parecendo render de stock photo.

O DLSS 4.5 continua sendo o melhor upscaler do mercado, batendo o FSR 4 da AMD e o XeSS 2 da Intel na maioria dos testes. O FSR 4 chegou forte - mais estável, open source, e funciona em qualquer GPU RDNA 4 sem depender do ecossistema Nvidia. Mas nenhum dos dois faz o que o DLSS 5 tenta fazer: upscaling reconstrói o que você renderizou, frame generation cria frames intermediários. O DLSS 5 coloca a IA em cima do trabalho dos artistas e decide que pode melhorar. É uma premissa diferente, e as demos mostraram por que ela assusta.

O lançamento está previsto pra segunda metade de 2026, então a Nvidia ainda tem tempo. A tecnologia tem potencial real - nas demos, iluminação de ambientes chegou a parecer genuinamente melhor. O problema é rostos, e rostos são exatamente o que as pessoas olham.

Pagar R$ 4.500 numa RTX 5070 pra ter acesso a um filtro de beleza indesejado nos seus NPCs preferidos não é o argumento de venda que a Nvidia precisava.

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