Epic demitiu funcionário com câncer terminal e a esposa não sabe como vai pagar o funeral
Mike Prinke trabalhava na Epic desde 2019 e lutava contra um câncer cerebral terminal. Foi demitido junto com mil pessoas. Perdeu o seguro de vida. A esposa pergunta como vai pagar o enterro.
Mike Prinke trabalhava na Epic Games desde 2019. Era programador técnico e redator. Tinha esposa, um filho e cachorros. Tinha câncer cerebral terminal. A empresa sabia. As consultas médicas eram frequentes e não eram segredo.
Na terça-feira, quando a Epic demitiu mais de mil funcionários de uma vez, Mike estava na lista.
Quando Jenni Griffin, esposa de Mike, processou o que tinha acontecido, a primeira coisa que percebeu não foi que o marido tinha perdido o emprego. Foi que ele tinha perdido o seguro de vida.
Porque nos Estados Unidos, seguro de vida é um benefício atrelado ao emprego. Quando você é demitido, o benefício vai junto. Existem opções de conversão e portabilidade, mas como Jenni explicou, essas opções custam “provavelmente milhares de dólares por mês”. E como o câncer de Mike agora é classificado como condição pré-existente por qualquer seguradora do mercado, ele não consegue contratar uma nova apólice. Nenhuma. De nenhuma empresa. Por nenhum valor.
O homem está morrendo, e a burocracia que deveria proteger a família dele depois que ele se for simplesmente desapareceu junto com o crachá.
”Como vou pagar o funeral”
Jenni escreveu um post no Facebook que é impossível de ler sem sentir o estômago apertar:
“Enquanto eu enfrento a realidade de perder meu marido, também estou enfrentando a realidade de que tipo de funeral eu consigo pagar. Como vou manter um teto sobre nossas cabeças. Como vou proteger nosso filho e a vida que construímos juntos.”

Essa é uma mulher que já sabe que vai perder o marido. Já sabe que o tempo é finito. E agora precisa gastar parte desse tempo, que deveria ser só deles, calculando se tem dinheiro para um enterro digno.
A resposta de Tim Sweeney
Depois que a história viralizou, Tim Sweeney, CEO da Epic, se pronunciou no X:
“A Epic está em contato com a família e vai resolver a questão do seguro. Existe alta confidencialidade em torno de informações médicas e isso não foi um fator na decisão de demissão.”
E acrescentou que pedia desculpas “por não ter reconhecido essa situação terrivelmente dolorosa e tratado dela com antecedência”.
Vamos com calma aqui. A Epic sabia que Mike tinha câncer terminal. As consultas não eram segredo. E mesmo assim, quando alguém montou a planilha com os nomes dos mil demitidos, ninguém parou para verificar se alguma dessas pessoas dependia do seguro de vida da empresa para, literalmente, morrer com dignidade.
Sweeney diz que vai “resolver”. Ótimo. Mas o fato de que isso precisou viralizar na internet para que a resolução acontecesse diz mais sobre os processos internos da Epic do que qualquer comunicado oficial.
A demissão em massa
O contexto é esse: a Epic demitiu mais de mil pessoas esta semana. A justificativa foi queda de engajamento no Fortnite. Segundo a empresa, o jogo está gastando mais do que arrecada, e os cortes são necessários para realinhar a operação.
É a segunda vez. Em 2023, a Epic demitiu 900 pessoas pelo mesmo motivo. Mesma justificativa. Mesmo padrão. Fortnite sobe, contrata. Fortnite desce, demite. As pessoas no meio são variáveis numa planilha.
Entre os demitidos desta semana estão Vitaliy Naymushin, criador do Jonesy, um dos personagens mais icônicos do Fortnite, e Johnny Cash (não aquele), responsável pelo sistema de passe de batalha e missões. Gente que construiu a coisa que gera a receita que justifica a existência da empresa. Descartada porque a receita caiu.
O que isso significa
Existe uma conversa importante sobre a indústria de games acontecendo neste momento. É sobre sustentabilidade, sobre como estúdios crescem rápido demais em tempos bons e cortam brutalmente em tempos ruins, sobre como as pessoas que fazem os jogos são tratadas como recursos descartáveis.
Mas o caso de Mike Prinke não é sobre a indústria. É sobre uma falha que é ao mesmo tempo sistêmica e específica. Sistêmica porque nos Estados Unidos o seguro de vida é atrelado ao emprego, o que significa que as pessoas mais vulneráveis são as que mais sofrem quando perdem o trabalho. E específica porque alguém na Epic tinha as informações necessárias para evitar isso e não evitou.
Não é sobre não saber. É sobre não checar. Sobre tratar demissão em massa como operação logística onde você corta nomes de uma lista sem olhar para o que cada nome carrega.
Mike Prinke é um programador com câncer terminal, uma esposa que não sabe como vai pagar o funeral, e um filho que vai crescer sem o pai. Nada disso aparece numa planilha.
Jenni está avaliando se lança uma campanha de GoFundMe, mas não tem certeza se deveria esperar até ter mais informações sobre o que a Epic vai oferecer. O medo dela é que, se esperar demais, seja tarde.
Esse medo, num contexto onde “tarde” não é metáfora, é tudo que você precisa saber sobre como essa história foi tratada.
Marina Costa
Entusiasta de tech e indie games
Especialista em games indie e multiplayer. Jogadora e analista de mecânicas de jogo.
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