Fallout temporada 2 e o efeito Lumet: quando a distopia vira documentário

Walton Goggins admite que a simetria entre Fallout e o noticiário atual é perturbadora. Uma reflexão sobre quando a ficção distópica vira espelho.

Felipe Ouder
Felipe Ouder Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
4 de fevereiro de 2026 4 min
Walton Goggins como The Ghoul em Fallout
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Existe um fenômeno curioso no cinema distópico que os franceses chamariam de l’effet miroir - quando a ficção especulativa deixa de especular e passa a simplesmente descrever. Sidney Lumet capturou isso perfeitamente em Rede de Intrigas (1976), Paddy Chayefsky escreveu aquele roteiro como sátira e quarenta anos depois virou documentário. Pois bem, Walton Goggins acabou de admitir em entrevista ao Decider que a segunda temporada de Fallout o deixou genuinamente perturbado - não pela maquiagem de seis horas do Ghoul, mas pela “simetria enervante” entre o roteiro e o noticiário.

Vindo de um ator que construiu carreira interpretando figuras moralmente dúbias com uma precisão quase cirúrgica - de Boyd Crowder em Justified ao inesquecível Baby Billy Freeman em The Righteous Gemstones -, essa declaração carrega peso. Goggins não é dado a hipérboles promocionais.

A exaustão como ferramenta de composição

Há uma tradição no cinema de autor de usar o estado físico e emocional do ator como matéria-prima. Werner Herzog fazia isso com Klaus Kinski, Cassavetes fazia com Gena Rowlands. Não estou comparando Fallout a Fitzcarraldo, mas o princípio se aplica: Goggins chegou ao set da segunda temporada depois de filmar consecutivamente White Lotus e a temporada final de Gemstones. O homem estava, nas palavras dele, “profundamente desgastado”.

No episódio 5, “The Wrangler”, há uma cena em que o Ghoul confronta a ausência da filha. É um momento de vulnerabilidade que quebra a casca cínica do personagem. Goggins não precisou fabricar a exaustão - ela estava lá, orgânica, sangrando para a câmera. O diretor de fotografia claramente percebeu isso; a iluminação daquela sequência trabalha com sombras que parecem engolir o personagem, um uso de claro-escuro que remete ao trabalho de Gordon Willis em O Poderoso Chefão.

O retro-futurismo como crítica política

A direção de arte de Fallout sempre foi seu trunfo maior. Aquele visual atompunk dos anos 50, com seus Nuka-Colas e robôs de design Googie, funciona como uma camada de ironia visual constante - a América que nunca existiu destruída pela América que sempre existiu. Na segunda temporada, com a introdução de New Vegas e do personagem de Justin Theroux como Robert House, essa ironia ganha contornos mais afiados.

House é um CEO de tecnologia que literalmente planeja o apocalipse como oportunidade de negócio. A fotografia o enquadra frequentemente em contraplongée, aquele ângulo de baixo para cima que Orson Welles usava para conferir poder ameaçador a Charles Foster Kane. Não é acidental. A série está dizendo algo sobre a concentração de poder nas mãos de oligarcas tecnológicos, e está dizendo em uma linguagem visual que qualquer estudante de cinema reconhece.

Quando a distopia vira espelho

Goggins pontuou algo crucial: a produção não tinha intenção de comentar eventos específicos, mas “estava fadada a falar sobre os eventos atuais”. É o que acontece quando você escreve sobre corporações sociopatas e colapso institucional - a realidade eventualmente alcança a ficção. Ou, como diria o velho Godard, “o cinema é a verdade 24 vezes por segundo”.

A série propõe um dilema moral que ecoa debates contemporâneos: sobreviver a qualquer custo ou manter princípios em um mundo que os abandonou? Lucy representa o segundo caminho; o Ghoul, o primeiro. O arco dramático os força a confrontar as consequências de cada escolha, e o roteiro tem a inteligência de não oferecer respostas fáceis.

Considerações finais

Fallout não é Stalker de Tarkovsky nem La Jetée de Chris Marker, mas opera em território similar - ficção científica como veículo para inquietação existencial. A produção visual continua impecável, a trilha sonora de Ramin Djawadi sustenta a tensão sem manipular emocionalmente, e as performances carregam o peso necessário.

Se você tem estômago para distopia que não oferece catarse confortável, a temporada está no Prime Video. E se depois precisar de algo mais leve, recomendo revisitar Dr. Fantástico de Kubrick - pelo menos ali a destruição nuclear ainda era piada.

Felipe Ouder
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