A desenvolvedora de Fortune's Run foi presa, escreveu um jogo em C++ no papel da cadeia e acabou de voltar ao trabalho

Dizzie, a única desenvolvedora de Fortune's Run, saiu da cadeia após um ano de uma sentença de três e já anunciou o retorno do desenvolvimento na Steam.

Marina Costa
Marina Costa Entusiasta de tech e indie games
17 de abril de 2026 5 min
Arte promocional de Fortune's Run com personagem empunhando espada em cenário sci-fi industrial
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Dizzie, a única pessoa por trás de Fortune’s Run, postou na Steam no dia 3 de abril um update com o título “Kept you waiting, huh?”, a frase clássica de Snake em Metal Gear Solid. A primeira linha: “Boas notícias, pessoal! Estou escrevendo este post na Steam com um computador e não ditando pelo telefone da cadeia!” Se você não conhece a história desse jogo, essa frase sozinha já diz muito sobre o tipo de desenvolvimento que Fortune’s Run teve até aqui.

Post de Dizzie na Steam anunciando o retorno ao desenvolvimento de Fortune's Run
Post de Dizzie na Steam anunciando o retorno ao desenvolvimento de Fortune's Run

Fortune’s Run é um immersive sim com cara de shooter retrô que vive no Steam Early Access há alguns anos. O jogo se passa num cenário sci-fi em que a humanidade já fugiu da Terra e o que sobrou é destroço industrial, violência e gente tentando sobreviver no meio do caos. O DNA é de Thief e Deus Ex, mas rodando a 1.5x de velocidade, como se alguém tivesse misturado a precisão tática de um immersive sim clássico com a urgência de Hotline Miami. A comunidade que descobriu Fortune’s Run no Early Access tratou o jogo como um achado raro, e com razão.

Uma sentença de três anos, um ano cumprido e uma saída inesperada

Em janeiro de 2025, Dizzie publicou na Steam o tipo de update que ninguém espera ver de um desenvolvedor indie: foi condenada a três anos de prisão. Sobre o crime, foi direta e curta: “O que eu fiz foi errado e é tudo o que vocês precisam saber.” Disse que era “uma pessoa muito violenta” e que “machucou muita gente” antes de virar desenvolvedora. Fez questão de dizer que não era um crime sexual. E desapareceu.

O jogo ficou parado. Arachne, a co-desenvolvedora que ajudava no projeto, saiu durante a ausência de Dizzie. Fortune’s Run estava oficialmente em limbo, com uma comunidade que não sabia se o jogo ia voltar a existir.

Pouco mais de um ano depois, a resposta chegou num post da Steam que parecia escrito por alguém que ainda não acreditava direito no que tinha acontecido. “O conselho revisou meu caso e me chutou pra fora da cadeia instantaneamente.” Dizzie está livre, está em casa, e Fortune’s Run está de volta ao desenvolvimento.

O que acontece quando você tranca uma programadora por um ano sem computador

Os primeiros seis meses de Dizzie na prisão foram num centro de recepção, sem acesso a reabilitação, psiquiatria ou educação. Ela relata ter sofrido maus-tratos dos agentes, incluindo um incidente em que descarregaram um extintor de incêndio na boca dela. Nenhum desses detalhes foi confirmado de forma independente, mas Dizzie incluiu no post como parte do que viveu.

O que aconteceu nesses meses sem computador é a parte que nenhum fã de indie vai esquecer tão cedo: Dizzie projetou um roguelike inteiro no papel. Um jogo sobre cogumelos parasitas, escrito em C++, com conceitos de renderização voxel, tudo desenhado à mão em folhas de caderno dentro de uma cela. Quando dizem que game dev é obsessão, raramente é tão literal.

Fortune’s Run agora é um projeto solo de novo

Com Arachne fora do projeto, Dizzie volta sozinha. O plano é lançar um novo build em seis meses e uma atualização numerada completa dentro de um ano, mas ela mesma faz questão de lembrar que são estimativas. “Saí há 72 horas. Ainda estou me ajustando.” O conteúdo do jogo vai precisar ser reestruturado sem o trabalho da co-desenvolvedora, o que significa que parte do que estava planejado pode mudar.

O que não muda é o jogo em si. Fortune’s Run já tinha construído uma reputação no Early Access como um daqueles indies que faz mais com menos, o tipo de projeto que lembra por que a cena indie existe. Um shooter que te dá liberdade pra explorar cada canto do mapa mas te mata sem pensar duas vezes se você não estiver preparado. A comunidade da Steam manteve o jogo vivo durante a ausência, e o retorno de Dizzie foi recebido com o tipo de entusiasmo que só aparece quando as pessoas realmente se importam com o projeto.

A história mais estranha do desenvolvimento indie em 2026

Existem muitas formas de pausar o desenvolvimento de um jogo. Burnout, falta de verba, problemas de saúde, disputas de equipe. Ir para a cadeia é uma que a maioria dos desenvolvedores não precisa considerar. O que faz essa história funcionar como história de games, e não só como nota policial, é o que Dizzie fez com o tempo. Não parou de pensar em jogos. Não parou de projetar. Sentou numa cela sem computador e escreveu C++ no papel como se fosse a coisa mais natural do mundo. Quando saiu, a primeira coisa que fez foi abrir o Steam e avisar que estava de volta.

Fortune’s Run não é só um jogo voltando do limbo. É a prova de que, para certas pessoas, fazer jogos não é profissão nem hobby. É a forma como o cérebro funciona, esteja ele livre ou não.

Marina Costa
AUTOR

Marina Costa

Entusiasta de tech e indie games

Especialista em games indie e multiplayer. Jogadora e analista de mecânicas de jogo.

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