Gisèle Pelicot escreveu um livro sobre os dez anos em que foi estuprada dentro de casa. No Brasil, quatro mulheres por dia não vão poder escrever o delas
O livro de Gisèle Pelicot chegou ao Brasil enquanto o país bate recordes de feminicídio. A coincidência não é acidental.
Gisèle Pelicot tinha pesadelos com homens armados entrando no quarto. Pesadelos recorrentes. Durante anos. Antes de saber.
Ela dormia tardes inteiras. Acordava sem lembrar o que tinha feito no dia anterior. Abriu a porta de um cabeleireiro e depois tudo ficou negro. Os neurologistas sugeriram derrame, ansiedade, Alzheimer precoce. Ela tratou infecções ginecológicas recorrentes que ninguém conectou a nada. O marido acompanhava as consultas. Demonstrava preocupação. E quando ela chegava em casa e dormia de novo, porque os ansiolíticos que ele colocava na comida faziam isso, ela associava o sono à morte, porque alguma parte do corpo sabia o que a consciência não sabia, e o corpo fazia o que podia, que era sonhar com homens entrando no quarto.
Dominique usava lorazepam, um benzodiazepínico ansiolítico. Conseguia receitas com o próprio médico, 450 comprimidos num ano só, e colocava nos pratos. Trocou de marca uma vez porque a primeira era “salgada demais” e Gisèle poderia perceber o gosto. Quando ela apagava, ele entrava no Coco.gg, um site de chat sem moderação, e abria um fórum chamado à son insu. “Sem o conhecimento dela.” Usava o pseudônimo Marc Dorian. Conversava por mensagem privada e Skype. Combinava horário, endereço, instruções. Os homens vinham. 92 estupros documentados. 72 homens identificados. 20 nunca serão.
Os identificados tinham entre 21 e 72 anos. Bombeiro. Enfermeiro. Jornalista. Soldado. Eletricista. Encanador. Pedreiro. Caminhoneiro. Funcionário de supermercado. Carpinteiro. Especialista em TI. Motorista de ambulância. A maioria da região de Vaucluse. 23 tinham condenações anteriores. Os outros não. Os outros eram exatamente o que a gente gostaria que estupradores não fossem: gente normal. Gente com emprego, com rotina, com uma vida que não levantava nenhuma suspeita, que chegava na casa dos Pelicot como quem vai a um compromisso qualquer e saía como quem cumpriu um.
Dominique filmava TUDO. Mais de 20 mil imagens e vídeos numa pasta USB chamada “abuses”. Cada arquivo etiquetado com o nome do participante. Cada estupro catalogado com a disciplina de quem organiza fotos de viagem. A polícia só encontrou porque prenderam ele em setembro de 2020 filmando por baixo da saia de mulheres num supermercado. Apreenderam o celular. Encontraram a pasta. E no meio das imagens de Gisèle inconsciente, encontraram também fotos das noras no chuveiro e da filha, Caroline, inconsciente na cama.
O que me interessa no livro de Gisèle não é o inventário do horror, que já está no processo judicial e qualquer um pode ler. O que me interessa é o intervalo. Os dez anos. O espaço entre o primeiro estupro e o dia 2 de novembro de 2020, na delegacia de Carpentras, quando uma policial mostrou fotos de uma mulher inconsciente sendo violentada e Gisèle não se reconheceu. Disse que não eram suas roupas. Disse que a mulher parecia morta. Mas era sua mesa de cabeceira. Seu abajur. Seu quarto. E a mulher que parecia morta era ela.
A psiquiatria tem um conceito que se aplica aqui com uma precisão quase obscena: dissociação. Não no sentido pop de “desligar da realidade”. No sentido clínico. O aparelho psíquico diante de informação intolerável produz um NÃO que não é negação consciente, é operação de sobrevivência. Gisèle olhou pras fotos e disse “não sou eu” porque ser ela significava que tudo, TUDO, os cinquenta anos de casamento, os filhos, os natais, as consultas médicas em que ele segurava sua mão na sala de espera, era outra coisa. Significava que a vida inteira tinha acontecido dentro de uma ficção mantida por alguém que ela achava que conhecia.
Um hino à vida, foi publicado pela Companhia das Letrascom tradução de Julia da Rosa Simões e co-autoria com Judith Perrignon. O título original é Et la joie de vivre (E a alegria de viver). É o tipo de título que só alguém que passou pelo que ela passou pode dar sem soar patético. Na boca de qualquer outro seria autoajuda. Na dela é resistência.
Gisèle conta que quando saiu de casa levou duas malas e o cachorro. Vendeu os móveis pela internet “como uma jovem de vinte anos começando a vida”. Passou o aspirador na casa antes de ir embora, e quando perguntaram por quê, disse que precisava limpar o que estava dentro da cabeça. Quatro anos depois, em maio de 2024, assistiu aos vídeos. “Não reconheci a mulher na tela. Era uma carcaça.” De novo a morte. De novo o corpo que parece não ter ninguém dentro.
Até então ela era anônima. A imprensa a descrevia como “a mulher estuprada por mais de 50 homens”, como se fosse marca num placar, como se o número definisse a pessoa. E foi isso que a moveu. Gisèle demorou quatro anos pra chegar na decisão, e quando chegou a lógica era esta: se ela continuasse sem rosto, os 51 réus também ficavam sem rosto. Um julgamento fechado significava ela SOZINHA numa sala com os homens que a estupraram. Um julgamento aberto significava que o mundo inteiro ia ver quem eles eram. A vergonha precisa mudar de lado. Não é slogan. É estratégia. Ao dar nome e rosto à vítima, ela tirou dos agressores a proteção do anonimato e devolveu a eles o peso que a cultura insiste em colocar nela. Os 51 foram condenados. Dominique pegou 20 anos, pena máxima. E a defesa dos outros réus, que é a parte que revela mais sobre o mundo do que sobre o caso, foi exatamente a que você imagina: o marido autorizou. Ela estava ali. Não parecia estar sofrendo. Ele disse que podia. A mulher INCONSCIENTE, drogada, filmada, não parecia estar sofrendo. Porque não reagia. Porque estava em coma químico. E a ausência de resistência, para aqueles homens, era consentimento.
O que o livro faz que a cobertura jornalística não conseguiu é mostrar tudo isso por dentro. Não como observação, como EXPERIÊNCIA. Gisèle perdeu a mãe aos nove anos, de tumor cerebral. A avó perdeu uma filha pequena, queimada com água quente. A resiliência que todo mundo celebra nela não caiu do céu. Veio de gerações de mulheres que aprenderam a continuar funcionando depois que tudo quebra. Quando Gisèle diz “não posso nem levar o mérito por isso, deve ser genético”, ela não está sendo modesta. Está sendo PRECISA. Está identificando uma estrutura adaptativa transmitida entre mulheres que não tiveram escolha senão sobreviver. “Ódio e raiva não me interessam. Eles não constroem nada.” “Se eu deixasse de acreditar no amor, ele teria vencido.” Frases que em qualquer outro contexto seriam insuportáveis. Vindas de quem vem, depois do que veio, são outra coisa.
E é aqui que a coisa muda de escala.
Porque o livro de Gisèle Pelicot chegou ao Brasil em fevereiro de 2026, e em 2025 o Brasil registrou 1.518 feminicídios. Quatro mulheres por dia. O recorde anterior era 2024. Em São Paulo, os feminicídios aumentaram 96% em quatro anos. Os processos triplicaram em cinco anos. 62,6% das vítimas eram negras. 66,3% mortas dentro de casa. 59,4% pelo parceiro. 21,3% pelo ex.
A pergunta que precisa ser feita é incômoda e necessária: o número está subindo porque mais mulheres estão morrendo ou porque estamos finalmente CONTANDO? A Lei do Feminicídio é de 2015. Antes dela, mulher assassinada pelo marido entrava na estatística genérica de homicídio. A tipificação criou visibilidade. A Daiane Bertasso, do Laboratório de Estudos de Feminicídios da UEL, diz que os dados reais superam em 38% os registros oficiais, e que a subnotificação estimada é de 56%. Mais da metade dos casos nunca chega a registro nenhum.
Então sim. Parte do aumento é visibilidade. Estamos aprendendo a contar o que sempre esteve ali. Mas o aumento de 2025 rompeu uma estabilidade que durava desde 2022, e isso não se explica só com tipificação melhor. Samira Bueno, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, disse o que ninguém quer ouvir: “esse é um crime evitável.” Evitável com medidas protetivas que funcionem. Com redes de apoio que não sejam sucateadas. Com um Estado que decida que quatro mortes por dia justifica investimento.
Feminicídio não é estupro. São crimes diferentes, com mecânicas diferentes, e forçar uma equivalência entre o caso Pelicot e as 1.518 mortas no Brasil seria desonesto. Mas o que conecta as duas coisas não é o tipo de violência. É o CENÁRIO. Dentro de casa. Pelo parceiro. Com a confiança como pré-condição. E com um sistema que não detecta, não pergunta, não intervém até que seja tarde demais.
66,3% das vítimas de feminicídio no Brasil em 2025 foram mortas dentro de casa. Gisèle foi estuprada dentro de casa. As mortas no Acre, 3,2 por 100 mil, em Rondônia, 2,9, no Mato Grosso do Sul, 2,7, confiaram nas mesmas paredes. A violência íntima opera no mesmo terreno, mesmo quando o desfecho é diferente. Em Mazan era o coma químico e os homens que chegavam pela noite. Aqui são as facadas, os tiros, os estrangulamentos. Lá, a mulher sobreviveu e escreveu um livro em 22 idiomas. Aqui, a maioria nem chega a virar estatística correta.
Gisèle Pelicot sobreviveu, teve um sistema judicial que funcionou, teve advogados, teve julgamento público, teve Fernanda Montenegro gravando o audiolivro. Ela pode dizer “se eu deixasse de acreditar no amor, ele teria vencido” porque está VIVA. Porque teve as condições materiais e institucionais para transformar o que viveu em testemunho.
Gisèle passou o aspirador antes de ir embora. Disse que precisava limpar o que estava dentro da cabeça. É um gesto pequeno, quase absurdo, e é o gesto mais humano do livro inteiro. Porque limpar é o que se faz quando não se sabe o que fazer. E ela não sabia. E fez mesmo assim.
Sicko
Ex editor de gente pelada. Agora lê livros.
Editor literário e resenhista. Especialista em ficção, graphic novels e cultura digital.
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