God of War: tirar o sexo dos remakes seria o maior tiro no pé da Sony em anos
70% dos jogadores querem os minigames de sexo intactos nos remakes da trilogia. A Sony não disse uma palavra. Isso é um problema.
A Santa Monica Studio mal anunciou o remake da trilogia God of War no State of Play de fevereiro e a comunidade já está em guerra. Não sobre gráficos. Não sobre gameplay. Sobre sexo.
Os minigames de sexo da trilogia original viraram o centro de uma polêmica que a Sony claramente não esperava ter que resolver tão cedo. E a resposta dela até agora? Silêncio absoluto.
A enquete que fala mais alto que qualquer press release
O Push Square botou a questão na mesa com uma enquete direta: os minigames de sexo devem ficar ou sair nos remakes? O resultado não tem margem pra interpretação. 70% dos votantes querem que os minigames permaneçam exatamente como eram. Só 7% pediram remoção. De 1.293 votos. Não é um nicho barulhento no Reddit - é a posição esmagadora da base de fãs.
Pra quem não lembra ou era muito jovem na época: os minigames de sexo de God of War eram encontros QTE (Quick Time Events - sequências de botões cronometrados) com personagens como Afrodite. Você apertava botões no timing certo, a câmera desviava pra uma vela derretendo ou um vaso balançando, e Kratos ganhava red orbs como recompensa. A cena mais explícita que a câmera mostrava era… uma vela. Era mais insinuação que conteúdo explícito.
O ponto é: fazia parte do DNA de God of War. Kratos era isso. Um semideus brutal, violento e carnal. Tirar o sexo e manter as decapitações gráficas em 4K HDR seria uma hipocrisia tão óbvia que até o próprio Zeus reviraria os olhos no Olimpo.
O fantasma da censura retroativa
A preocupação dos jogadores não é paranoia. A indústria tem um histórico crescente de sanitizar conteúdo em remasters e remakes. Cada vez que um jogo clássico volta repaginado, a pergunta aparece: o que vai ser cortado desta vez?
O caso mais revelador é a própria Sony. A empresa que nos deu God of War no PS2 sem pestanejar é a mesma que, a partir de 2018, começou a apertar as regras sobre conteúdo sexual em jogos japoneses no PS4. Desenvolvedores de visual novels e jogos anime reclamaram publicamente de restrições que não existiam no PS3. O padrão mudou. A Sony ficou mais cautelosa com sexualidade do que com violência - e essa assimetria é o que alimenta o medo dos fãs agora.
E quando você olha pro contexto mais amplo, a coisa fica mais tensa. A franquia God of War está em plena expansão multimídia. Já tem a série de God of War no Prime Video com um elenco que pegou todo mundo de surpresa. Tem o Sons of Sparta que a Sony fez shadow drop no mesmo State of Play por US$29.99 com TC Carson de volta como a voz do Kratos original. A marca está crescendo pra além dos games.
Quando uma marca cresce pra público mainstream, a pressão por “limpeza” de conteúdo cresce junto. É a lógica Disney aplicada a games: quanto mais olhos, menos risco. Menos risco, menos conteúdo adulto. Menos conteúdo adulto, menos identidade.
Sons of Sparta: o termômetro que ninguém está lendo direito
O shadow drop de God of War: Sons of Sparta no mesmo evento deu pistas importantes que a maioria ignorou. O jogo é um beat’em up top-down ambientado antes de God of War 1, com TC Carson voltando ao papel que definiu Kratos antes de Christopher Judge assumir na era nórdica.
O preço é US$29.99, que no Brasil deve ficar na faixa de R$150 a R$170 pela PSN dependendo da conversão e impostos. Mas o que importa aqui não é o preço - é o tom. Sons of Sparta é violento, brutal e fiel ao Kratos clássico. A Santa Monica Studio mostrou que não tem medo de sangue.
Sangue e sexo, porém, são tratados de forma completamente diferente pela classificação indicativa. Violência extrema passa tranquilo. Conteúdo sexual? Aí a conversa muda. A ESRB (Entertainment Software Rating Board, a classificação indicativa americana) e o PEGI (Pan European Game Information, a europeia) têm limiares distintos pra cada categoria. Um jogo pode ter decapitações detalhadas e receber M (Mature). Adiciona nudez e a classificação pode pular pra AO (Adults Only - classificação que proíbe venda em lojas convencionais) - que é basicamente uma sentença de morte comercial. Nenhuma loja grande vende jogos AO. Nenhum console permite.
É nessa linha que a decisão da Sony se complica. Os minigames originais rendiam classificação M sem problema. Mas em 2026, com critérios de classificação mais detalhados e uma Sony visivelmente mais conservadora em conteúdo sexual, a conta pode não fechar do mesmo jeito.
O que a história dos remakes ensina
A história recente mostra que fidelidade vende. Shadow of the Colossus no PS4 manteve tudo intacto e foi aclamado pela crítica e pelo público. Demon’s Souls no PS5 foi uma recriação tão respeitosa que virou referência de como fazer remake. Resident Evil 2 Remake mudou a estrutura do jogo mas manteve o horror e a violência sem filtro.
Os remakes que falharam? Grand Theft Auto: The Trilogy - Definitive Edition. Que além de bugs absurdos, tinha censurado e alterado conteúdo sem avisar ninguém. O público percebeu. O público não perdoou. A Rockstar levou um dos maiores danos de reputação da década por causa daquela coleção.
A lição é direta: jogadores adultos que compraram jogos classificados pra adultos querem o jogo que compraram. Não querem uma versão editada pra agradar quem não jogaria de qualquer forma.
O problema do silêncio
O remake da trilogia God of War está em desenvolvimento inicial - a Sony fez questão de repetir isso. Vai demorar. Tudo bem. Ninguém espera gameplay amanhã.
Mas a janela pra definir o tom é agora. Cada semana de silêncio alimenta especulação. E especulação negativa vira narrativa. Narrativa vira reputação. E reputação é muito mais difícil de reconstruir do que um remake.
O State of Play de fevereiro foi um dos mais fortes da Sony em anos. Mais de 30 títulos revelados, Sons of Sparta de surpresa, Metal Gear Solid Collection Vol. 2, e o anúncio do remake que todo fã de PlayStation queria. O hype está no teto.
Hype é combustível volátil. Um comunicado errado sobre “adaptar o conteúdo pra audiências modernas” pode transformar entusiasmo em revolta numa velocidade que nenhum PR consegue conter. A comunidade de God of War é leal, barulhenta e tem memória longa.
TC Carson voltando como Kratos é um sinal de respeito às origens. É a Santa Monica Studio dizendo “sabemos de onde viemos”. Trazer a voz original e não trazer o conteúdo original seria uma contradição que a comunidade não vai engolir.
Sete palavras resolveriam tudo
A situação é matematicamente clara: 70% da base quer os minigames intactos. A história mostra que fidelidade em remakes funciona e que censura retroativa fracassa. O silêncio da Sony está criando uma ansiedade que não precisava existir.
Bastava um tweet. Uma frase. “O remake da trilogia God of War será fiel ao conteúdo original.” Sete palavras. Nenhum spoiler. Nenhum comprometimento técnico. Só a confirmação de que o jogo que marcou uma geração vai voltar como o jogo que marcou uma geração.
Enquanto elas não vierem, a comunidade vai continuar perguntando. E a cada dia sem resposta, a pergunta fica mais alta.
Carla Mendes
Cobrindo esports desde 2018
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