Chamaram a SWAT para uma vovó que fazia streaming de Minecraft para ajudar o neto a lutar contra o câncer
Sue Jacquot, 81 anos, virou fenômeno no Twitch ajudando o neto a tratar câncer com streams de Minecraft. Na madrugada de 18 de maio, 20 viaturas e drones cercaram a casa dela.
Na noite de 18 de maio, Sue Jacquot dormia em Phoenix, Arizona. O stream de Minecraft dela continuava rodando no Twitch, como faz há meses, 24 horas por dia. Então a porta da casa dela foi aberta por policiais armados com rifles e lanternas. Vinte viaturas no estacionamento. Cinco integrantes do SWAT. Drones sobrevoando o bairro.
Sue tem 81 anos.
Seus 613 mil inscritos a conhecem como GrammaCrackers. Ela começou a transmitir Minecraft para pagar o tratamento de câncer do neto Jack Self, diagnosticado com sarcoma, um tipo raro e agressivo de câncer que se forma nos tecidos conjuntivos do corpo, como músculos, ossos e cartilagens. A vovó viu uma saída onde a maioria das pessoas não imaginaria: abrir um canal no YouTube, aprender a transmitir ao vivo no Twitch, e simplesmente jogar.
Deu certo. De um jeito que ela provavelmente jamais esperou.
Como Sue Jacquot acumulou 613 mil inscritos sem saber nada de streaming
Em poucos meses, GrammaCrackers arrecadou mais de 60 mil dólares no GoFundMe do neto. Hoje, Jack está curado. Ela não tinha experiência com streaming. Não conhecia algoritmos, não sabia nada de edição, de thumbnails, de como funciona o sistema de recomendação do YouTube.
Parte do charme de GrammaCrackers é exatamente isso. Ela não finge ser jovem. Não imita o estilo dos streamers de 25 anos. Joga Minecraft, Fortnite, Roblox, conversa com quem está assistindo, e algo nessa combinação de simplicidade e propósito genuíno fez com que meio mundo parasse para assistir.
O Brasil, que historicamente tem uma das maiores bases de jogadores de Minecraft do mundo, não ficou de fora dessa história. A vovó americana virou assunto repetido em grupos e comunidades de jogadores brasileiros. Em parte porque Minecraft tem esse poder único de ser coisa de criança e coisa de adulto ao mesmo tempo. Em parte porque é impossível não se sentir tocado por alguém que aprendeu a transmitir ao vivo aos 81 anos para salvar o neto.
É o tipo de história que a internet fabrica raramente: simples, real, sem nenhum artifício de marketing por trás.
A ligação que ninguém consegue explicar
Alguém ligou para a polícia e denunciou que Sue havia sido morta a tiros.
Não existe contexto que faça sentido para isso. Alguém, em algum momento da madrugada de 18 de maio, olhou para aquela vovó transmitindo Minecraft para curar o neto do câncer e decidiu chamar o SWAT.
O que aconteceu a seguir foi filmado pela câmera do stream, que continuava rodando enquanto Sue dormia: policiais entrando com lanternas e rifles enquanto a live seguia para quem ainda estivesse acordado.
Swatting, para quem não conhece o termo, é a prática de fazer uma denúncia falsa para a polícia com o objetivo de mandar uma equipe armada ao endereço de alguém. É uma prática que existe na cultura de games e streaming há anos, surgida nos Estados Unidos, onde equipes SWAT (forças táticas especiais) respondem rapidamente a denúncias de crimes graves como sequestros e assassinatos. A lógica do swatting é causar pânico, humilhação pública, e em casos extremos colocar a vida da vítima em risco real.
Em 2025, foram documentados 8.900 casos nos Estados Unidos. É crime federal americano com pena de até 5 anos de prisão, podendo chegar a prisão perpétua se alguém morrer como resultado. Pessoas já morreram. Casos em que a vítima entrou em pânico, em que a polícia atirou sem entender a situação em poucos segundos. Streamers famosos como Kai Cenat, Amouranth e IShowSpeed já foram alvo de swatting. Mas há uma diferença brutal entre atacar alguém que tem equipe de segurança e familiaridade com o risco, e atacar uma vovó de 81 anos que não sabe sequer o que é swatting.
GrammaCrackers teve sorte.
”Foi meio divertido”
No dia seguinte ao SWAT invadir a casa dela, Sue gravou um vídeo para os seguidores.
A reação não foi o que ninguém esperaria.
Ela acordou sem entender o que estava acontecendo, foi abraçada pelo neto e pelo filho que estavam na casa, e saiu da situação com a impressão de que tudo havia sido bastante agradável. A equipe policial foi cuidadosa com os equipamentos do stream, evitou a câmera durante a busca, e tratou Sue com respeito.
“A policial mais linda que já vi, olhos lindos, ela foi tão doce”, disse Sue. “Foi meio divertido. Meu neto e meu filho me abraçaram; você normalmente não consegue tanta atenção assim.”
Ela também ganhou a primeira viagem de viatura policial da vida dela. Achou ótimo.
Existe algo ao mesmo tempo enternecedor e perturbador nessa resposta. Não pela ingenuidade de Sue, que respondeu ao absurdo com a serenidade de quem viveu 81 anos e sabe distinguir o que importa do que não importa. Mas porque o swatting funciona de forma muito diferente quando a vítima entra em pânico, ou quando a equipe policial responde de outra maneira a uma denúncia de assassinato. Há um cenário parecido com esse em que GrammaCrackers não acorda bem.
O paradoxo da comunidade que construiu tudo isso
Existe uma contradição difícil de ignorar.
A mesma internet que transformou Sue Jacquot em fenômeno, que doou mais de 60 mil dólares para curar um menino de câncer, que fez de GrammaCrackers uma história sobre o bem que estranhos podem fazer uns pelos outros, também produziu alguém disposto a mandar o SWAT para a casa dela.
Isso não é uma falha de algoritmo. É uma característica humana que a cultura de streaming amplifica. Streamers se expõem ao vivo por horas, às vezes 24 horas por dia. Qualquer um com acesso ao endereço pode transformar raiva ou tédio numa ligação anônima. E quanto mais visível você se torna, mais você vira alvo, seja você um streamer profissional ou uma vovó que aprendeu a transmitir Minecraft para ajudar o neto.
A identidade do responsável pelo swatting de GrammaCrackers ainda não foi descoberta. Esse detalhe diz bastante sobre a impunidade que ainda envolve a prática.
Sue afirmou que não vai parar de transmitir. Jack está curado, mas a comunidade que se formou ao redor daquele canal cresceu além da campanha original. GrammaCrackers continua no Twitch, 24 horas por dia, e as pessoas continuam assistindo.
É impossível não torcer por ela. Mas é igualmente impossível não lembrar que o swatting funciona. Que quando funciona de verdade, alguém morre. E que a vovó do Minecraft teve a sorte de não ser esse alguém.
Marina Costa
Entusiasta de tech e indie games
Especialista em games indie e multiplayer. Jogadora e analista de mecânicas de jogo.
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