O dilema entre amar Harry Potter e financiar a Rowling tem uma solução que ninguém quer admitir
A The Verge diz que não existe consumo ético da série Harry Potter da HBO. Eu nunca li os livros, não tenho nostalgia, e acho que todo mundo está discutindo a coisa errada.
Meus autores favoritos são pessoas HORRÍVEIS.
Céline era antissemita de carteirinha e passou a guerra colaborando com Vichy. Burroughs atirou na esposa durante uma brincadeira de William Tell numa festa no México. Heidegger era nazista, não no sentido metafórico, no sentido de carteirinha do partido, discurso de reitor celebrando Hitler, nazista de VERDADE. Cioran flertou com a Guarda de Ferro romena. Mishima tentou um golpe de estado e se abriu com uma espada. Eu leio todos. Sem culpa. Sem asterisco. Sem nota de rodapé moral. Sem precisar publicar uma story dizendo “eu condeno as atitudes pessoais do autor mas valorizo sua contribuição literária” como se alguém tivesse perguntado.
Eles estão mortos. Todos. E essa é a parte que importa, que é a parte que todo mundo finge não ver quando invoca o argumento da separação entre arte e artista para justificar assistir à série de Harry Potter da HBO sem culpa.
Céline não recebe royalties. Quando eu compro Viagem ao Fim da Noite na Companhia das Letras, o dinheiro vai pra editora, pro tradutor, pra livraria. Céline não está sentado em algum lugar acumulando capital e influência e usando cada centavo pra tornar a vida de alguém mais difícil. Céline está num cemitério em Meudon e não faz mais NADA. E quando o autor está vivo e o dinheiro dele vai pra lugar que eu não quero que vá, eu consumo a obra por meios alternativos de redistribuição popular de propriedade intelectual. Que é um jeito bonito de dizer que eu não pago. Porque o capitalismo criou o mecanismo pelo qual consumir cultura financia lixo, e o povo, com a criatividade que lhe é característica, criou o mecanismo que desativa esse circuito.
J.K. Rowling está viva. É produtora executiva da série da HBO. Recebe entre 50 e 100 milhões de dólares por ano em royalties de tudo que carrega o nome Harry Potter. E usa esse dinheiro para financiar organizações que trabalham ativamente, deliberadamente, com estratégia e recursos, contra os direitos de pessoas trans. Não é opinião de Twitter. É alocação de capital. É contabilidade. CADA assinatura da HBO Max que existe parcialmente porque Harry Potter está no catálogo alimenta uma conta bancária que financia lobby anti-trans. O circuito é curto. Não tem intermediário moral.
E a questão trans é só a mais barulhenta. Os livros em si já tinham o DNA do problema, e quem não quer ver sempre pode fingir que é acaso. Os banqueiros do mundo bruxo são criaturas narigudas, gananciosas, que controlam o sistema financeiro e vivem debaixo da terra, e se você acha que isso não se parece com séculos de caricatura antissemita, Jon Stewart te desenha. A única personagem asiática relevante se chama Cho Chang, que são dois sobrenomes de países DIFERENTES grudados como se “asiático” fosse um idioma só, e a profundidade da representação dela é: chorou, beijou o Harry, sumiu. A cobra de estimação do vilão mais maligno do universo é, na verdade, uma mulher asiática que passa a franquia inteira como animal de estimação do Voldemort, o que evoca o estereótipo da dragon lady com a sutileza de um tijolo na cara. O único personagem negro com destaque se chama Kingsley Shacklebolt, e se você não vê o problema em dar o sobrenome “Shackle-bolt” (algema-grilhões) pra um homem negro numa franquia que já tem escravos domésticos felizes, eu não sei o que te dizer. Os elfos domésticos são escravos que GOSTAM de ser escravos e a personagem que luta pela libertação deles é tratada como histérica e inconveniente pela narrativa.
Nenhuma dessas coisas sozinha prova que Rowling é racista ou antissemita no sentido consciente do termo. Mas o PADRÃO, quando você olha de fora sem a nostalgia funcionando como anestésico, é de alguém que escreveu a partir de um repertório cultural que ela nunca se deu ao trabalho de examinar. E quando finalmente foi confrontada sobre qualquer coisa, em vez de reconsiderar, dobrou a aposta. Que é o que estamos vendo agora com a questão trans, só que em escala industrial.
Quando o artista está morto, separar a arte do artista é um exercício filosófico inofensivo. Quando o artista está vivo e usando a grana pra fazer merda, não é separação. É financiamento com desculpa bonita.
Eu nunca li Harry Potter. Nenhum dos sete. Sei vagamente o que é um horcrux porque a internet não me DEIXA não saber. Não tenho nostalgia. Não tenho identidade construída em torno desses livros. E é por isso que consigo olhar pra esse debate e ver o que ele realmente é, porque eu sou o único sujeito na sala que não está tentando proteger uma parte da própria infância enquanto finge estar discutindo ética.
A The Verge publicou um texto dizendo que não existe consumo ético da série de Harry Potter. O trailer bateu 277 milhões de views em 48 horas. O recorde anterior da HBO era 61 milhões. Uma petição pedindo o cancelamento juntou assinaturas. O boicote foi convocado. E 277 MILHÕES de pessoas assistiram ao trailer.
A petição e os 277 milhões existem simultaneamente. Na mesma internet. Habitados frequentemente pelas mesmas pessoas. Isso não é hipocrisia no sentido simples. É algo mais interessante. É algo CLÍNICO.
O que eu vejo quando olho pra essa coisa toda, como o velho sem pele no jogo que sou, é uma operação psíquica acontecendo em escala industrial. Milhões de pessoas executando ao mesmo tempo a mesma ginástica cognitiva: como preservar o prazer sem aceitar a culpa? Como voltar pra Hogwarts sem pagar pedágio pra Rowling? E as soluções que aparecem são fascinantes como sintoma. Assistir na casa de alguém que já paga, como se diluir a responsabilidade entre mais gente a fizesse desaparecer. Assinar, assistir, cancelar antes da renovação, como se o timing do cancelamento alterasse o fato de que você pagou. Doar o equivalente da assinatura pra uma ONG trans, como se caridade compensatória anulasse o que o dinheiro original financia, como se a ética funcionasse como crédito de carbono.
Cada uma dessas estratégias é um mecanismo de defesa. Não estou dizendo isso como xingamento. Estou dizendo como DIAGNÓSTICO. São formas psiquicamente sofisticadas de manter dois estados incompatíveis funcionando ao mesmo tempo sem que a pessoa precise escolher entre eles. Eu amo Harry Potter E eu sei que Rowling é nociva. As duas coisas operam em paralelo, e a distância entre elas é preenchida por rituais de purificação simbólica que não mudam nada na realidade material mas permitem que o sujeito durma à noite.
E ninguém menciona a solução que funciona. A que todo brasileiro conhece pelo nome carinhoso de TV comunista. A redistribuição popular e não-autorizada de bens culturais, como diria um advogado com senso de humor. O único método que resolve SIMULTANEAMENTE todos os critérios éticos que o debate levanta: você consome a obra, o artista problemático não recebe, e o dilema moral se dissolve com a elegância de quem nunca precisou existir. Não é que a The Verge esteja errada ao dizer que não existe consumo ético. É que ela está presa numa moldura onde consumo necessariamente implica transação financeira. Muda a moldura e o problema desaparece.
Se Cormac McCarthy estivesse vivo e usando a grana de Meridiano de Sangue pra financiar milícia, eu acessaria a obra dele pelos mesmos canais comunitários de difusão cultural que uso pra qualquer coisa feita por gente viva cujo dinheiro eu prefiro que não aumente. Sem thread. Sem manifesto. Sem voto de pobreza performático. A gente faz de conta que é complicado porque a indústria precisa que seja complicado. Não é.
O boicote, por outro lado, não funciona. Não porque as pessoas sejam fracas. Não funciona porque você está pedindo pra uma geração inteira abrir mão de uma parte ESTRUTURAL da própria identidade como gesto político, e a psicologia humana não suporta isso. Harry Potter não é um livro que essas pessoas leram. É o livro que ENSINOU essas pessoas a ler. É a mitologia fundacional de uma geração. Pedir pra boicotar é pedir pra alguém arrancar um pedaço do que é e jogar fora por princípio, e princípio é a coisa mais cara que existe quando compete com afeto.
A HBO sabe. Sabe que a negociação moral vai ser ruidosa, vai gerar manchete, vai movimentar o debate durante meses. Sabe que no final 277 milhões de pessoas vão assistir porque Hogwarts é mais forte que qualquer posição política. Calculou que vale a pena. E calculou certo. Os executivos disseram pra Variety que as opiniões de Rowling são “pessoais” e que a série não será “infundida” com nada. Como se o problema fosse o conteúdo da ficção e não o destino do dinheiro. Como se a preocupação das pessoas fosse que Dumbledore vai fazer discurso transfóbico e não que cada real gasto na assinatura financia quem faz discurso transfóbico na VIDA REAL.
Eu não vou assistir. Não por princípio. Por indiferença. Eu nunca li os livros, não tenho saudade de Hogwarts, e a série poderia ser a melhor coisa já filmada e ainda assim competiria com a pilha de livros que eu tenho pra ler e que foram escritos por gente morta que não pode mais fazer mal a ninguém.
Mas se eu tivesse crescido com Harry Potter, se aqueles livros fossem parte do que me fez, eu sei exatamente o que faria. Eu aplicaria o mesmo método de redistribuição comunitária de propriedade intelectual que uso pro resto. E dormiria tranquilo. E você sabe que faria o mesmo, porque a solução existe, todo mundo conhece, funciona, e o único motivo pelo qual ela não aparece nos artigos da The Verge sobre consumo ético é que nomeá-la não combina com o tom de seriedade moral que a publicação exige pra se manter anunciável.
277 milhões de views. Natal de 2026. Sete temporadas planejadas, dez anos de produção.
A solução existe desde que inventaram a internet.
Sicko
Ex editor de gente pelada. Agora lê livros.
Editor literário e resenhista. Especialista em ficção, graphic novels e cultura digital.
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