A lista de 18 empresas não era blefe. O Irã atingiu data centers da Oracle e da Amazon esta semana

O Irã atingiu data centers da Amazon no Bahrein e afirma ter atacado a Oracle em Dubai. A ameaça às 18 empresas virou ação.

Bruno Silva
Bruno Silva Entusiasta de hardware e overclocker nas horas vagas
3 de abril de 2026 4 min
Data center em chamas no Oriente Médio após ataque iraniano
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Na terça-feira, a Guarda Revolucionária do Irã publicou uma lista com 18 empresas de tecnologia americanas que considerava alvos militares legítimos e deu um prazo: a partir das 20h de 1 de abril, horário de Teerã, as instalações dessas empresas no Oriente Médio se tornariam alvos. Era terça. Na quarta, um drone iraniano atingiu um data center da Amazon no Bahrein. Na quinta, a mídia estatal iraniana afirmou que forças do país atacaram um data center da Oracle em Dubai.

Dois dias. Duas instalações. A lista não era blefe.

O que aconteceu

O ataque ao data center da Amazon no Bahrein em 1 de abril foi confirmado pelo Ministério do Interior do Bahrein, que informou que equipes de defesa civil combatiam um incêndio em uma instalação da empresa após ofensiva iraniana. É o terceiro ataque contra infraestrutura da AWS na região desde o início do conflito. Em 1 de março, drones Shahed iranianos atingiram dois data centers da Amazon nos Emirados Árabes e um terceiro no Bahrein, no que foi descrito como o primeiro ataque militar deliberado contra data centers comerciais na história.

O ataque à Oracle em Dubai, reivindicado pela IRGC em 2 de abril, é mais nebuloso. O governo de Dubai negou que qualquer data center tenha sido atingido. A Oracle informou em seu site que as operações na cidade seguem normais. Mas o Irã publicou a reivindicação mesmo assim, o que pode ser postura, pode ser dano menor que nenhuma das partes quer confirmar, ou pode ser mentira deliberada pra manter a pressão psicológica. Não temos como saber com certeza neste momento.

O que já sabemos sobre os danos

Os ataques de março fornecem o melhor retrato do que esse tipo de ofensiva causa. As duas instalações da AWS nos Emirados que foram atingidas em 1 de março comprometeram duas das três zonas de disponibilidade da região ME-CENTRAL-1. A terceira zona no Bahrein, ME-SOUTH-1, também foi afetada. Zonas de disponibilidade são unidades redundantes dentro de uma região de nuvem, projetadas justamente pra que se uma cair, as outras segurem o serviço. Quando duas caem ao mesmo tempo, a redundância falha.

A AWS confirmou danos estruturais, interrupção de energia, incêndio e danos causados pela água dos sistemas de combate a fogo. O efeito cascata atingiu o sistema bancário local: Abu Dhabi Commercial Bank, Emirates NBD, First Abu Dhabi Bank, as plataformas de pagamento Hubpay e Alaan, a empresa de dados Snowflake e a plataforma de transporte Careem. Serviços de entretenimento, notícias e operações governamentais da região também foram afetados.

Por que data centers são alvos

A lógica iraniana é que essas instalações servem simultaneamente como infraestrutura comercial e militar. Os Estados Unidos confirmaram o uso de IA para navegação de drones e análise de inteligência na campanha contra o Irã. A infraestrutura de nuvem que hospeda e-mails corporativos é a mesma que processa dados de sistemas de mira. O CTO da Palantir descreveu o conflito como “a primeira grande guerra impulsionada por IA”. Quando o militar e o comercial ocupam o mesmo rack de servidores, a distinção legal entre alvo civil e alvo militar fica turva.

Academicamente, isso se enquadra no conceito de “uso dual”: infraestrutura que serve propósitos civis e militares ao mesmo tempo. O direito internacional humanitário não proíbe ataques a alvos de uso dual, mas exige que o dano a civis seja proporcional à vantagem militar obtida. Na prática, ninguém parou pra fazer essa conta antes de lançar os drones.

Data centers são grandes, frágeis e não têm defesas antiaéreas dedicadas. São, como descreveu um especialista da Virginia Tech, “alvos de oportunidade e conveniência”. Fáceis de achar, fáceis de atingir, difíceis de proteger.

O que muda

Os gastos previstos das big techs com infraestrutura de IA em 2026 somam US$600 bilhões, dos quais 75% estão ligados a projetos de inteligência artificial. Parte significativa desse dinheiro ia pra Emirados Árabes e Arábia Saudita. Depois de março, e agora com os ataques de abril, a premissa de que a região do Golfo é um ambiente estável pra construir data centers de IA acabou. A Microsoft tem US$15 bilhões comprometidos em expansão nos Emirados até 2029. A Amazon tem um hub de IA de US$5 bilhões em Riad. Google e AWS planejavam regiões de nuvem dedicadas na Arábia Saudita pra 2026.

Todo esse planejamento agora precisa ser reavaliado. Seguradoras vão recalcular prêmios. Contratos vão incluir cláusulas de guerra. Empresas vão diversificar regiões. E o custo disso vai, eventualmente, chegar na sua conta de serviço de nuvem.

O Irã disse que ia atacar. Atacou. A pergunta agora não é se vai continuar, mas quantas das outras 16 empresas da lista estão no caminho.

Bruno Silva
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Bruno Silva

Entusiasta de hardware e overclocker nas horas vagas

Especialista em hardware, benchmarks e overclock. Analisa componentes e tendências do mercado.

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