Jared Leto é acusado de crimes sexuais por quatro mulheres em documentário da BBC; ator nega tudo

Documentário da BBC reúne dez mulheres que acusam Jared Leto de conduta sexual criminosa. O ator nega categoricamente. E Hollywood tem contas a acertar.

Felipe Ouder
Felipe Ouder Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
29 de julho de 2026 6 min
O ator Jared Leto fotografado de terno em um tapete vermelho, em close, olhando para a câmera
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Existe uma linhagem de atores que Hollywood trata quase como sacerdócio. Robert De Niro engordou 27 quilos pra viver o boxeador decadente de Touro Indomável. Daniel Day-Lewis se recusava a sair do personagem mesmo com as câmeras desligadas. Christian Bale desapareceu até virar osso em O Operário. É o culto ao “método”, a escola de atuação nascida das ideias do russo Stanislávski e popularizada pelo Actors Studio de Nova York, que prega que o ator deve viver a experiência do papel em vez de simplesmente fingir.

Há décadas ela funciona como carimbo de seriedade, de entrega, de gênio. Jared Leto passou vinte anos cavando seu lugar nessa linhagem. Um documentário da BBC lançado nesta quarta-feira, “Jared Leto: Hollywood’s Dark Secret”, oferece uma leitura bem menos romântica daquilo que o público aprendeu a chamar de excentricidade de um ator obsessivo.

O filme reúne dez mulheres, nove delas falando publicamente pela primeira vez. Quatro fazem acusações que, se comprovadas, configurariam crime sexual. Uma diz ter sido agredida sexualmente por Leto no banheiro de um motel quando tinha 17 anos. Outra afirma que ele a ameaçou de agressão sexual num quarto de hotel, aos 19. Uma terceira relata ter feito sexo com o ator na Califórnia aos 17, e por lá a idade de consentimento é 18 anos, o que torna sexo com alguém mais novo um crime mesmo que a pessoa tenha concordado, algo próximo do nosso estupro de vulnerável. A quarta conta que recebeu ligações de teor sexual explícito quando tinha 16. Os episódios relatados teriam acontecido entre 2002 e 2016, período em que Leto foi dos 30 aos 40 e poucos. Hoje ele tem 54.

Leto nega, e a negação é categórica. “Eu nunca agredi sexualmente ninguém em toda a minha vida. Essas alegações são absoluta e categoricamente falsas”, disse o ator em nota divulgada pelo representante. A BBC afirma que procurou Leto repetidamente e não recebeu resposta às acusações apresentadas no documentário. Vale dizer com todas as letras: são alegações, nenhuma delas testada diante de um júri.

Só que elas não caíram do céu ontem. Antes desse documentário, a revista Air Mail já tinha publicado uma investigação em que nove mulheres descreviam condutas sexuais inadequadas do ator ao longo dos anos, todas negadas por ele. Na mesma temporada, a DJ americana Allie Teilz afirmou nas redes sociais que Leto a agrediu quando ela tinha 17 anos. A própria BBC diz ter catalogado cerca de 120 acusações espalhadas pela internet ao longo do tempo. O documentário juntou o que já andava disperso e deu a isso nome, rosto e voz.

Uma acusação perdida numa thread de rede social envelhece em horas, some no scroll, é fácil de descartar como mágoa isolada de uma pessoa só. Dez depoimentos organizados, com a produção da BBC por trás e mulheres dispostas a aparecer de cara limpa, forçam o público a enxergar um padrão em vez de um episódio. Foi mais ou menos assim com Harvey Weinstein em 2017, quando as reportagens do New York Times e da New Yorker transformaram sussurros de bastidor de duas décadas num processo que acabou em condenação criminal. Quem conta a história, e como conta, pesa tanto quanto o que é contado.

E fica difícil assistir a esse acúmulo sem lembrar de como a indústria embrulhou o desconforto em papel de presente durante anos. Quando Leto ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante por Clube de Compras Dallas, em 2014, vivendo Rayon, uma mulher trans soropositiva, a narrativa oficial foi de coragem e metamorfose. Quando ele surgiu como Coringa em Esquadrão Suicida, os relatos do elenco sobre os “presentes” que ele mandava, incluindo um porco morto entregue durante uma reunião, coisa que Viola Davis contou em público, foram vendidos pela máquina de publicidade como prova de comprometimento com o papel. Cada gesto perturbador ganhava uma legenda nobre. O método explicava tudo, absolvia tudo.

Já conhecemos esse roteiro. Faz pouco tempo escrevi por aqui sobre a crueldade casual que o set de cinema historicamente perdoa, quando Matthew Lillard falou do tratamento que recebeu de Quentin Tarantino. A diferença de escala entre um diretor humilhando um ator e o que a BBC descreve é enorme, mas a mecânica cultural é idêntica: o talento como blindagem, a obra como álibi. O cinema faz isso desde sempre. A gente continua assistindo a Chinatown sabendo que Roman Polanski se declarou culpado de sexo ilegal com uma menina de 13 anos em 1977 antes de fugir dos Estados Unidos. A Academia ainda deu um Oscar de direção a Polanski em 2003, com plateia de pé.

A pergunta sobre separar a obra do artista volta sempre, e é genuinamente espinhosa quando o assunto é Réquiem para um Sonho ou Clube da Luta, dois filmes em que Leto é excelente e que continuam bons independentemente do que se prove sobre ele. A pergunta mais incômoda é menos filosófica: por quanto tempo tanta gente em volta preferiu enxergar dedicação onde havia sinais de outra coisa? O #MeToo prometeu, lá em 2017, que a resposta a essa pergunta tinha mudado. O caso Leto é um teste de quão verdadeira foi a promessa.

Pro público brasileiro, ele sempre teve duas caras. Tem o ator de prestígio de Clube de Compras Dallas e o vocalista do Thirty Seconds to Mars que enchia casa de show por aqui. E tem o Morbius, aquele fracasso retumbante da Sony que virou piada da internet e chegou a voltar aos cinemas na base da zoeira coletiva. A carreira dele já vinha patinando num limbo esquisito, metade nostalgia, metade meme. O documentário da BBC muda o tom da conversa de um jeito que nenhum meme alcança.

Nenhuma dessas acusações passou por um tribunal, e é justo repetir isso quantas vezes for preciso. Mas a história do cinema também é a história de quem a indústria escolhe proteger e de quem ela escolhe não ouvir. Por vinte anos, o benefício da dúvida coube todo a um lado só. Dez mulheres acabaram de tornar esse silêncio bem mais caro.

Felipe Ouder
AUTOR

Felipe Ouder

Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.

Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.

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