O ator que carregou o Frodo montanha acima teve que vender a casa. Hoje ele preside o sindicato dos atores de Hollywood

Sean Astin ganhou US$ 250 mil por 18 meses na trilogia e perdeu a casa no processo. Em setembro de 2025 foi eleito presidente do SAG-AFTRA.

Felipe Ouder
Felipe Ouder Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
2 de agosto de 2026 7 min
Sean Astin como Samwise Gamgee, de capa e colete, ajoelhado ao lado de uma panela em cena de O Senhor dos Anéis: As Duas Torres
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Existe uma cena em O Retorno do Rei que virou atalho cultural para a palavra lealdade. Na encosta da Montanha da Perdição, com o Frodo esgotado no chão e o vulcão rugindo em volta, Sam o levanta e diz aquela frase sobre não poder carregar o Anel por ele, mas poder carregar ele. É o clímax emocional de nove horas de cinema, e o ator que está ali literalmente com outro homem nas costas ganhou, pelo salário de O Senhor dos Anéis inteiro, US$ 250 mil.

Sean Astin contou a conta completa numa entrevista ao Guardian publicada agora. Cerca de US$ 75 mil por filme, um ano e meio de trabalho na Nova Zelândia, e uma casa em Los Angeles que ele perdeu no meio do caminho.

“Não era muito dinheiro. Na verdade, eu tive que vender minha casa porque negociei um valor muito pequeno na trilogia”, ele disse.

A conta que não fechava desde o dia da assinatura

A parte mais reveladora do relato é a aritmética, porque ela expõe o buraco antes mesmo da primeira diária. Astin tinha acabado de comprar um imóvel em Los Angeles que o comprometia com US$ 250 mil por ano. A proposta da New Line era US$ 250 mil por um ano e meio.

Ele descreve o momento em que a ficha caiu: “Espera aí, minha caneta assinou este contrato, que me obrigava a US$ 250 mil por ano, e agora eu vou assinar este outro, que vai fazer com que eu absolutamente não consiga cumprir aquele primeiro.”

Assinou mesmo assim, e vendeu a casa.

Tem uma nuance que se perdeu na repercussão: Astin ficou com uma fatia dos lucros de merchandising, ou seja, da venda de bonecos, camisetas e réplicas de espada. Sobre residuais, a cobertura toda afirma que ele não recebe nenhum, um ponto que a entrevista original não detalha. Residual é o pagamento que cai na conta do ator toda vez que a obra é reexibida, vendida em disco ou licenciada para uma plataforma, e é o mecanismo que transforma um papel icônico em renda de longo prazo. Se a informação estiver correta, ele carrega o Frodo montanha acima desde 2003 e não vê um centavo cada vez que alguém aperta o play.

Astin diz hoje estar “muito confortável financeiramente”. Perguntado se brigaria por um cachê melhor em projetos futuros da franquia, respondeu com um “pode ter certeza que sim” que em inglês veio bem menos educado.

Vale olhar o que aqueles US$ 75 mil por filme compraram. Em As Duas Torres tem uma sequência em que Sam simplesmente cozinha: refoga uns coelhos, discute batata com o Gollum e serve o Frodo no meio de uma guerra que eles estão perdendo. Nenhum efeito visual, nenhum troll das cavernas, nenhuma linha de diálogo memorável no papel.

É uma cena de cozinha, e é ela que faz o resto da trilogia funcionar. Sem esse registro doméstico, teimoso, quase chato de tão terreno, a Montanha da Perdição no filme seguinte seria só espetáculo. Astin constrói ali a única coisa que Jackson não podia resolver com miniatura, maquiagem protética ou a partitura do Howard Shore.

Bloom levou menos, e a Galadriel disse que ganhou sanduíche

O caso dele deixa de parecer exceção quando você olha a folha inteira. Orlando Bloom revelou no programa do Howard Stern, em 2019, ter recebido US$ 175 mil para viver o Legolas nos três filmes. Cate Blanchett resumiu a experiência dizendo que ninguém recebeu nada para fazer aquilo e que ela basicamente ganhou sanduíches de graça e o direito de ficar com as orelhas de elfa.

Elijah Wood, que carregava o filme no papel do Frodo, explicou a engenharia por trás disso de um jeito que faz sentido. A New Line rodou os três filmes de uma vez só, uma aposta de risco altíssimo para um estúdio daquele porte em 1999, e comprou esse risco pagando pouco para todo mundo. “Como a gente não estava fazendo um filme e depois renegociando contrato para o próximo, não era o tipo de cenário lucrativo que deixa você descansar tranquilo pelo resto da vida”, disse Wood, que chama os salários baixos de compreensíveis.

E são, honestamente. Em 1999 ninguém tinha certeza de que Tolkien funcionaria em tela. A adaptação animada do Ralph Bakshi, de 1978, tinha ficado pela metade e envelhecido mal. Nova Zelândia, elenco sem grande estrela, três filmes simultâneos, um diretor conhecido por terror gore de baixo orçamento. Era uma aposta de verdade, e quem entra numa aposta divide o risco.

Quando a aposta deu certo, o dinheiro parou de ser dividido

A trilogia estreou entre 2001 e 2003 e fez cerca de US$ 3 bilhões nos cinemas. O risco tinha acabado. E o que aconteceu com o dinheiro a partir dali é a parte que envelhece mal para o estúdio.

Peter Jackson processou a New Line em 2005 pela produtora dele, a Wingnut Films, alegando que não estava recebendo o que lhe era devido de A Sociedade do Anel, incluindo a receita de DVD. Os advogados dele falaram em subpagamento de até US$ 100 milhões. O estúdio, segundo o processo, nem sequer permitia que ele auditasse os números. O caso terminou em acordo.

O espólio de Tolkien fez o mesmo. O Tolkien Trust entrou na justiça pedindo US$ 150 milhões, alegando não ter recebido participação nenhuma nos lucros brutos dos três filmes. A família do autor que inventou aquele mundo e o cineasta que o filmou tiveram que processar a mesma empresa pelo mesmo motivo.

Quando o diretor e o espólio do autor precisam de advogado para descobrir quanto o filme deu, o argumento do risco compartilhado perde a perna. O risco foi dividido com todo mundo em 1999. O lucro, quando chegou, ficou concentrado com quem controlava a planilha. A relação da família com a adaptação já era espinhosa por outros motivos, e o Christopher Tolkien tinha objeções ao trabalho do Jackson que iam muito além de dinheiro.

De vender a casa a presidir o SAG-AFTRA

Em 12 de setembro de 2025, Sean Astin foi eleito presidente do SAG-AFTRA, o sindicato que representa os atores americanos, com 79,25% dos votos. Sucedeu Fran Drescher, aquela mesma da série The Nanny, que comandou o sindicato durante a greve de 2023. O mandato é de dois anos.

Tem uma simetria familiar aí que o cinema adoraria ter roteirizado: a mãe dele, Patty Duke, presidiu o Screen Actors Guild, sindicato antecessor, entre 1985 e 1988.

O homem que assinou um contrato ruim e perdeu a casa por causa dele hoje ocupa a cadeira que negocia os contratos de todo mundo, num momento em que a categoria discute coisas bem mais estranhas que porcentagem de DVD, tipo uma atriz gerada por computador escalada para estrelar um filme de verdade. Se existe alguém em Hollywood com motivo pessoal para brigar por cláusula de residual, é ele.

Onde assistir no Brasil, e o que estreia em dezembro de 2027

No Brasil, a trilogia está no HBO Max, com as versões em 4K e HDR disponíveis nos planos compatíveis, e também aparece no catálogo do Prime Video. Se você só viu as versões de cinema, as estendidas acrescentam material que muda o peso de personagens inteiros, principalmente o Faramir.

E a franquia volta: O Senhor dos Anéis: A Caçada a Gollum tem estreia marcada para 17 de dezembro de 2027, com Andy Serkis dirigindo e voltando ao papel do Gollum, produção do Peter Jackson, e Ian McKellen e Elijah Wood retomando Gandalf e Frodo. Jamie Dornan entra como Aragorn, e Kate Winslet e Leo Woodall completam o elenco novo.

O Sam ainda não foi anunciado. Se o convite chegar, dessa vez a negociação passa pela mesa de um sujeito que já sabe exatamente quanto custa assinar rápido demais.

Felipe Ouder
AUTOR

Felipe Ouder

Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.

Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.

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