O novo Dumbledore mudou de opinião sobre Rowling entre uma entrevista e outra. Ninguém deixou passar

John Lithgow chamou as opiniões de Rowling de "inexplicáveis" em fevereiro. Em março, disse que foram "deturpadas". A internet notou.

Yumi Rodrigues
Yumi Rodrigues Já vi tudo, ainda acho que tem série boa pra descobrir
6 de abril de 2026 5 min
John Lithgow em evento de divulgação da série Harry Potter da HBO
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John Lithgow tem 80 anos e aceitou o papel de Dumbledore na série de Harry Potter da HBO. J.K. Rowling é produtora executiva da série. Rowling também é, desde pelo menos 2019, uma das vozes mais ativas contra direitos de pessoas trans no mundo anglófono, financiando organizações anti-trans com o dinheiro que recebe de tudo que leva o nome Harry Potter. Por isso, quando a escalação foi anunciada, parte do público e da própria comunidade artística pediu pra Lithgow recusar o papel. Trabalhar nessa série é, na prática, trabalhar pra Rowling.

Em fevereiro, no Festival de Roterdã, ele deu sua primeira resposta pública. Disse que achava as opiniões de Rowling “irônicas e inexplicáveis”, que nos livros “não se vê nenhum traço de sensibilidade transfóbica”, e que escolheu ficar porque as razões pra aceitar o trabalho eram maiores do que as razões pra protestar. Foi uma posição clara: eu discordo dela, mas não vou sair.

Um mês depois, no programa The New Yorker Radio Hour, o tom mudou. Lithgow repetiu que discorda de “muito” do que Rowling disse, mas acrescentou uma frase nova: “muito disso eu acho que foi distorcido e mal representado, e ela dobrou a aposta com custo próprio.” A diferença é enorme. Em fevereiro, as opiniões de Rowling eram “inexplicáveis”, algo que ele não entendia. Em março, eram “distorcidas”, algo que a mídia exagerou. De “eu discordo mas fico” pra “talvez ela nem esteja tão errada assim” tem uma distância que a internet mediu em tempo real.

O que aconteceu entre fevereiro e março

Ninguém sabe ao certo. Lithgow não explicou a mudança, e provavelmente nunca vai explicar. Mas o contexto ajuda. Entre uma entrevista e outra, o trailer da série bateu 277 milhões de views em 48 horas, destruindo o recorde anterior da HBO. Rowling postou no X que estava “muito feliz” com o resultado. A máquina de marketing da HBO acelerou. E Lithgow passou a ser o rosto mais sênior do elenco, o que carrega responsabilidade contratual que nenhuma entrevista no Roterdã carrega.

Ele também disse algo que poucos comentaram: “Havia tudo de atraente no trabalho, e segurança de emprego até os meus últimos anos. Você não ignora essas questões.” É uma honestidade rara. Lithgow tem 80 anos. Uma série da HBO que pode durar sete temporadas é, pra um ator nessa fase, a diferença entre encerrar a carreira com estabilidade ou não. Isso não invalida o que ele pensa sobre Rowling. Mas contextualiza o que ele está disposto a dizer em público.

O contraste com Snape

Enquanto Lithgow navegava a transição de “inexplicável” pra “distorcido”, Paapa Essiedu, o primeiro ator negro a interpretar Severus Snape, recebia ameaças de morte. “Desista ou eu te mato”, disse uma das mensagens. “Vou na sua casa e te mato”, disse outra. Essiedu deu as citações ao The Times de Londres sem filtro.

E fez mais. Assinou uma carta aberta apoiando os direitos de pessoas trans e não-binárias, posicionando-se diretamente contra Rowling. A resposta de Rowling foi: “Eu não tenho poder de demitir um ator da série e não exerceria se tivesse.”

A diferença entre os dois é gritante. Essiedu, negro, sob ameaça, assina carta pública contra a produtora executiva da série que paga seu salário. Lithgow, branco, protegido, veterano, migra de “inexplicável” pra “distorcido” em quatro semanas. Ninguém ameaçou Lithgow. Ninguém precisou.

O que o resto do elenco está fazendo

O elenco da série de Harry Potter virou um estudo em tempo real de como pessoas diferentes lidam com a mesma pressão. Nick Frost, que interpreta Hagrid, foi direto: “Ela tem direito à opinião dela e eu tenho direito à minha, elas simplesmente não se alinham de nenhuma forma.” Katherine Parkinson (Molly Weasley) recusou comentar. Warwick Davis (Flitwick) disse que “não é algo que me interessa particularmente, eu faço entretenimento”. Johnny Flynn (Lucius Malfoy) chamou a situação de “interessante de navegar”.

O caso mais revelador talvez seja o de Aud Mason-Hyde, ator não-binário que trabalhou com Lithgow em Jimpa (2025), um filme sobre um avô gay acolhendo um neto não-binário. Mason-Hyde disse que a escalação de Lithgow como Dumbledore “parece vagamente dolorosa”, ao mesmo tempo que reconheceu que ele “nunca invalidou minha identidade”. É o tipo de frase que resume todo o dilema: a pessoa pode ser boa E a escolha pode doer.

O que vem pela frente

A série estreia no Natal de 2026. Rowling é produtora executiva. Cada entrevista de cada ator vai incluir a pergunta sobre Rowling. O próprio Lithgow admitiu: “Isso vai aparecer em toda entrevista pelo resto da minha vida.”

Ele provavelmente tem razão. E a pergunta que ninguém vai fazer, mas todo mundo vai pensar, é se a resposta dele em dezembro vai ser a de fevereiro ou a de março. Porque entre “inexplicável” e “distorcido” cabe muita coisa. Cabe um contrato. Cabe uma temporada de promoção. Cabe a diferença entre o que você pensa e o que você pode se dar ao luxo de dizer.

Quem acompanhou o debate sobre consumir Harry Potter e financiar Rowling sabe que essa tensão não vai se resolver. Ela vai só mudar de forma, entrevista por entrevista, até a série estrear e o volume de audiência engolir tudo o que veio antes.

Yumi Rodrigues
AUTOR

Yumi Rodrigues

Já vi tudo, ainda acho que tem série boa pra descobrir

Especialista em séries de TV e plataformas de streaming. Analisa lançamentos e tendências.

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