Marjane Satrapi, autora de Persépolis, morreu de tristeza, diz a família. Ela desenhou exatamente essa morte 20 anos atrás

A autora de Persépolis morreu aos 56 anos, um ano depois do marido. Em Frango com Ameixas, ela já tinha contado como alguém decide morrer de tristeza.

Helena Braga
Helena Braga O livro que você procura provavelmente está na estante dela
6 de junho de 2026 6 min
Marjane Satrapi, autora de Persépolis, em retrato em preto e branco
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A notícia atravessou A Feira do Livro como um corte. Na quinta-feira (4), a France-Presse confirmou que Marjane Satrapi, autora de Persépolis, morreu aos 56 anos na França. No dia seguinte, em São Paulo, um debate sobre mulheres nos quadrinhos na Praça Charles Miller virou a primeira despedida brasileira de uma artista que ensinou o mundo a ler a história do Irã pelos olhos de uma menina de Teerã.

O comunicado da família dispensou eufemismo. Marjane “morreu de tristeza, pouco mais de um ano após a morte de Mattias Ripa, seu marido e o amor de sua vida”. Ripa morreu em 8 de abril de 2025.

A questão é que Satrapi já tinha desenhado essa morte. Em Frango com Ameixas, de 2004, o músico Nasser Ali Khan perde o instrumento que dava sentido à sua vida, deita na cama e decide morrer. Leva oito dias. O livro inteiro é a anatomia de uma tristeza que mata, página a página, sem pressa e sem diagnóstico. Vinte e dois anos depois, a morte que a família descreveu no comunicado é a mesma que ela desenhou para o personagem. Escritor prever o próprio fim não é novidade; desenhá-lo quadro a quadro, com essa precisão, é quase inédito.

De Rasht aos cadernos pretos da L’Association

Satrapi nasceu em 1969 em Rasht, no norte do Irã, e cresceu em Teerã, onde viu a revolução de 1979 transformar uma monarquia autocrática numa república teocrática que tratava as mulheres como um problema a ser administrado. Aos 14 anos, os pais a mandaram sozinha para Viena, longe da guerra Irã-Iraque. Ela voltou, sufocou, saiu de novo, e foi em Paris que a vida fez a curva decisiva: dividiu ateliê com David B., cofundador da L’Association, a editora independente que publicaria Persépolis em quatro volumes entre 2000 e 2003. Foi ele quem a empurrou para os quadrinhos.

A genealogia importa. Sem Maus, de Art Spiegelman, que nos anos 80 provou que uma HQ aguentava o peso de um genocídio, talvez não houvesse espaço para Persépolis. E sem Persépolis, que provou que esse espaço também pertencia às mulheres e ao Oriente Médio, a prateleira de memórias desenhadas que veio depois seria mais pobre e mais homogênea: de Fun Home, de Alison Bechdel, a Tangles, de Sarah Leavitt, cuja adaptação animada arrancou sete minutos de ovação em Cannes no mês passado. Em 2024, o New York Times colocou Persépolis entre os 100 melhores livros do século, sem subdivisão de gênero ou formato. Uma autobiografia em preto e branco, desenhada em traço de xilogravura, disputando de igual para igual com romance, ensaio e reportagem.

O cinema confirmou o alcance. Em 2007, ela mesma codirigiu a adaptação animada com Vincent Paronnaud, com as vozes de Chiara Mastroianni e Catherine Deneuve, e levou o prêmio do júri em Cannes, além de uma indicação ao Oscar de melhor animação, perdida para Ratatouille. A menina Marji, alter ego da autora, virou patrimônio comum: o filme passou a circular em escolas e cineclubes do mundo inteiro, e por aqui virou até material de aula de francês na USP.

Paulo Werneck, o tradutor que acabou anfitrião da despedida

No Brasil, Persépolis chegou pela Companhia das Letras, no selo Quadrinhos na Cia, com tradução de Paulo Werneck; os volumes avulsos começaram a sair em meados dos anos 2000, e a edição completa, de 352 páginas, veio em dezembro de 2007. E aqui a coincidência é boa demais para passar batida: Werneck é fundador e diretor-geral d’A Feira do Livro, a mesma feira que, no dia seguinte à morte da autora, abrigou a homenagem involuntária. O tradutor brasileiro de Satrapi acabou anfitrião da sua despedida, na praça aberta que ele criou para que literatura não precisasse de catraca.

O debate reunia Gabriela Borges e Dani Marino, pesquisadoras do projeto Mina de HQ, que há dez anos mapeia mulheres quadrinistas no Brasil. Elas lançavam ali Quadrinhos, diversidade e insurgência, coletânea da editora Kipuka que reúne cerca de 200 artistas brasileiras. Diante do público, Borges resumiu por que o livro de Satrapi virou o que virou: é “uma mulher narrando a história. O mundo é narrado por vozes masculinas”.

Na plateia, uma menina de 10 anos chamada Laura, que quer ser ilustradora. É assim, sem cerimônia, que uma linhagem passa adiante.

Mulher, vida, liberdade: a última resposta ao regime

Satrapi levou 14 anos para voltar aos quadrinhos, e o motivo do retorno tem nome: Mahsa Amini, a estudante de 22 anos morta em 2022 sob custódia da polícia da moralidade de Teerã, detida por causa do véu. Do levante que incendiou o Irã em seguida, Satrapi organizou Mulher, vida, liberdade, projeto coletivo que juntou 17 quadrinistas, entre eles Paco Roca, Winshluss e Bahareh Akrami, e analistas como o historiador Abbas Milani, de Stanford, para documentar o que o regime tentava apagar. No Brasil, o volume saiu em 2024, de novo pelo Quadrinhos na Cia, com tradução de Julia da Rosa Simões.

A coerência custava caro, e ela pagava a conta sem reclamar. Em 2025, recusou a Legião de Honra, a mais alta condecoração da França, acusando o governo do país de hipocrisia na relação com o Irã. Na quinta, o Palácio do Eliseu declarou que sua morte “representa a perda de uma figura importante da cultura francesa e de uma artista profundamente comprometida com a liberdade”. O Estado que ela dispensou agora a reivindica. Ela pertencia a outra república, a dos leitores, que não distribui medalha, mas também não solta a mão.

Quem nunca leu Satrapi tem um mapa pela frente, e ele não é longo. Comece por Persépolis, claro. Siga para Bordados, em que as mulheres da família dela conversam sobre sexo, casamento e sobrevivência em volta do samovar, rindo do que deveria intimidá-las. Termine em Frango com Ameixas sabendo que agora o livro é também outra coisa: o ensaio geral de uma morte que a autora conhecia por dentro. Tristeza, ela passou a vida mostrando, é assunto sério demais para ficar fora da literatura.

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