A Meta demitiu os 1.108 trabalhadores que revelaram o que os óculos Ray-Ban Meta filmavam em situações íntimas

A Meta encerrou contrato com a Sama e 1.108 trabalhadores quenianos foram demitidos com 6 dias de aviso depois de revelar que os óculos Ray-Ban Meta filmavam usuários em situações íntimas.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
1 de maio de 2026 5 min
Óculos Ray-Ban Meta com câmera integrada, LED de captura visível na armação
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Os óculos Ray-Ban Meta chegaram ao Brasil em setembro de 2025 por R$ 3.299 com promessa de ser “feito para a sua privacidade”.

Em 16 de abril de 2026, a Meta demitiu 1.108 trabalhadores quenianos que haviam relatado o que esses óculos estavam filmando. Prazo dado para sair: seis dias.

A empresa justificou o encerramento do contrato dizendo que a firma terceirizada, Sama, “não atende aos nossos padrões”. Não especificou quais padrões. Não informou quando identificou o suposto problema. A Sama, por sua vez, disse que nunca foi notificada de qualquer falha de desempenho antes das demissões.

Em fevereiro de 2026, investigação conjunta dos jornais suecos Svenska Dagbladet e Göteborgs-Posten revelou que funcionários da Sama em Nairóbi eram pagos para revisar vídeos captados pelos óculos Ray-Ban Meta - material usado para treinar os sistemas de IA do produto. O que eles viram incluía usuários se desvestindo, usando o banheiro, dados bancários em telas de celular e cenas de sexo. Em um dos casos relatados, óculos deixados na mesinha de cabeceira filmaram a esposa do usuário se desvestindo sem que ela soubesse que estava sendo gravada.

Um dos trabalhadores descreveu assim: “Você entende que está olhando para a vida privada de alguém, mas ao mesmo tempo só é esperado que você execute o trabalho.”

Como os vídeos dos seus óculos chegam ao Quênia

Para entender o que aconteceu, é preciso entender como o produto funciona. Os Ray-Ban Meta têm câmera integrada na armação, microfones e um assistente de IA que o usuário acessa dizendo “Hey Meta”. Quando o usuário interage com o assistente ou faz um livestream, o vídeo vai para os servidores da Meta.

Parte desse material é repassada para empresas terceirizadas num processo chamado anotação de dados: trabalhadores assistem aos vídeos e rotulam o que veem - “pessoa caminhando”, “objeto na mesa”, “ambiente interno” - para treinar os modelos de IA. No caso dos Ray-Ban Meta, esse trabalho era feito pela Sama em Nairóbi.

O problema é que a câmera captura perspectivas que um celular dificilmente captaria. O usuário usa o óculos na cabeça. As pessoas ao redor raramente sabem que estão sendo filmadas. E o LED indicador de gravação, segundo relatos dos trabalhadores, passava despercebido com frequência.

A resposta da Meta: um manual de como não comunicar uma crise

A posição oficial da Meta é econômica ao extremo. À BBC, a empresa disse que a Sama “não atende aos nossos padrões”. Ponto final.

Sem explicação de quais padrões foram violados. Sem reconhecimento de que trabalhadores foram expostos a conteúdo íntimo sem escolha. Sem plano divulgado para garantir que isso não se repita.

A própria Sama contestou: afirmou que nunca foi comunicada de qualquer problema de desempenho e que “atendia consistentemente a todos os padrões” exigidos pelo contrato.

O mesmo slogan que a Meta usa na venda dos óculos - “projetado para privacidade, controlado por você” - é agora peça central de uma ação coletiva protocolada em março de 2026 no Tribunal do Distrito Norte da Califórnia. Dois usuários americanos alegam publicidade enganosa: o produto foi vendido com promessas de privacidade que contradizem como ele realmente opera.

Não é a primeira vez nesse mercado. Em 2019, a Apple enfrentou escândalo similar quando gravações do Siri - incluindo conversas médicas - eram revisadas por contratados terceirizados sem o conhecimento dos usuários. Em 2022, a própria Sama perdeu contrato com a OpenAI depois que trabalhadores foram expostos a material de abuso sexual infantil durante o processo de rotulação de dados.

A diferença no caso Ray-Ban é o contexto: o usuário está usando um óculos na cabeça. A câmera captura perspectivas que nenhum outro dispositivo capturaria - e as pessoas filmadas ao redor não têm como saber.

Para quem comprou no Brasil, o problema é direto

Nós cobrimos o início desse caso em março, quando os relatos dos trabalhadores quenianos vieram a público pela primeira vez. Naquele momento, o foco era o que os moderadores eram obrigados a assistir. Agora sabemos o que aconteceu com eles depois que falaram.

Os óculos Ray-Ban Meta (Gen 2) são vendidos no Brasil desde setembro de 2025 em lojas Ray-Ban, Sunglass Hut e no site oficial. O assistente Meta AI funciona em português. Não há indicação de que usuários brasileiros sejam tratados de forma diferente nas políticas de coleta e revisão de dados.

Se você usa o assistente de IA ou faz um livestream pelos óculos, esse material pode entrar no mesmo pipeline de treinamento que os trabalhadores da Sama revisavam. A política de privacidade da Meta menciona o uso de revisores humanos - está lá, mas não exatamente em destaque no folheto que vem na caixa a R$ 3.299.

A Electronic Frontier Foundation publicou alerta desaconselhando a compra. O Information Commissioner’s Office do Reino Unido e o órgão de proteção de dados do Quênia abriram investigações.

A Meta não explicou como vai evitar que isso se repita. Não disse o que acontece agora com os 1.108 trabalhadores que perderam o emprego com seis dias de aviso.

“Feito para a sua privacidade.” É um óculos de R$ 3.299. Com câmera que ninguém ao seu redor vê. E dados que vão parar em Nairóbi.

Lucas Ferreira
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Lucas Ferreira

Gamer desde o PS1, cético desde sempre

Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.

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