O trailer de Metro 2039 chegou e o estúdio ucraniano por trás do jogo escreveu uma história sobre fascismo enquanto se escondia de ataques de drones
Depois de sete anos, a 4A Games revelou Metro 2039 no Xbox First Look. O jogo chega no inverno de 2026 e a guerra na Ucrânia mudou tudo.
A 4A Games esperou sete anos pra mostrar Metro 2039, e quando o trailer finalmente chegou no Xbox First Look de 16 de abril, ele carregava mais peso do que qualquer preview de jogo costuma carregar.
O estúdio por trás da série Metro é ucraniano.
A maior parte da equipe continuou desenvolvendo o jogo durante a invasão russa, alternando entre lidar com ataques de drones, quedas de energia e geradores improvisados pra manter os computadores ligados.
O que saiu dessa produção é uma história sobre uma Moscou pós-apocalíptica dominada por um regime fascista, e a conexão não precisa ser explicada duas vezes.
O Metro volta pros túneis e abandona o mundo aberto de Exodus
Metro 2039 é o quarto jogo principal da série e o primeiro desde Metro Exodus, que saiu em 2019. Depois da experiência mais aberta do terceiro jogo, a 4A Games decidiu voltar às origens: os túneis claustrofóbicos do metrô de Moscou, os recursos escassos, a tensão constante de não saber se o próximo som é inimigo ou vento.
O jogo traz pela primeira vez na série um protagonista com voz. Ele se chama “The Stranger”, um recluso atormentado por pesadelos violentos que é forçado a voltar ao metrô depois de ter jurado nunca mais pôr os pés lá. O vilão é Hunter, um Spartan lendário que aparecia nos jogos anteriores e que agora lidera o Novoreich, um regime fascista que uniu todas as facções e comunidades do subsolo sob uma bandeira só.

Dmitry Glukhovsky, o autor dos livros que originaram a franquia, voltou à equipe pra ajudar a escrever a história. Glukhovsky também não está nos termos mais amistosos com o governo russo: em agosto de 2023, foi condenado à revelia por um tribunal de Moscou a 8 anos de prisão por “disseminar informações falsas” sobre as Forças Armadas russas, depois de ter postado em redes sociais denúncias sobre as perdas militares da Rússia e os assassinatos de civis ucranianos. Ele vive fora do país desde o começo da guerra. A descrição oficial do jogo, vinda do co-diretor criativo Pawel Ulmer, é direta: “a história mais sombria da franquia.”
Como era fazer um jogo durante a invasão
A 4A Games foi fundada em Kyiv em 2006 por ex-desenvolvedores do estúdio responsável por S.T.A.L.K.E.R.: Shadow of Chernobyl. Em 2014, já durante a guerra russo-ucraniana, a empresa transferiu a sede para Malta, mas a maior parte da equipe permaneceu trabalhando da Ucrânia. Durante o desenvolvimento de Metro 2039, isso significou realidades que nenhum outro estúdio AAA precisou lidar: se abrigar durante ataques de drones, operar com geradores e baterias quando a rede elétrica caía, continuar programando enquanto as sirenes tocavam.
Andriy “mLs” Shevchenko, o diretor criativo, foi claro sobre o efeito disso no jogo. Em entrevista na transmissão, ele disse que tudo o que a equipe havia planejado pra essa sequência mudou depois de fevereiro de 2022. A mensagem da história passou a ser “sobre as consequências, sobre o custo do silêncio, sobre os horrores da tirania e o preço da liberdade.”
Ulmer completou com uma frase que é a declaração de intenções do projeto inteiro: “A gente não está romantizando o pós-apocalipse, nem fazendo dele um parque temático. Metro sempre foi uma visão mais trágica sobre nossas ações como humanidade.”
O que o trailer mostrou de gameplay
O trailer de seis minutos alternou cinemática com gameplay real. A primeira coisa que salta aos olhos é o salto técnico. A engine proprietária da 4A Games, desenvolvida há mais de quinze anos, parece capaz de ray tracing avançado e de uma qualidade de imagem que beira o fotorrealismo. Os túneis estão mais escuros, mais detalhados, e aparentemente mais vazios.
A estrutura do jogo mantém o que sempre funcionou na série: armas artesanais, munição escassa, manutenção obrigatória das armas, stealth como opção viável em quase todo encontro. A decisão de design mais marcante é a interface. Em vez de HUD tradicional, Metro 2039 continua usando objetos do mundo pra dar informação ao jogador. O exemplo mostrado no trailer é o relógio de pulso do Stranger fazendo contagem regressiva durante uma sequência de tensão.
Os Nosalises, mutantes bípedes parecidos com toupeiras que são marca registrada da série, aparecem brevemente no trailer, sugerindo que a fauna do metrô continua tão hostil quanto os humanos armados.
Janela de lançamento e plataformas
Metro 2039 chega no inverno americano de 2026, o que no calendário brasileiro significa entre dezembro e março de 2027. O jogo sai simultaneamente em PlayStation 5, Xbox Series e PC, este último nas três lojas principais: Steam, Epic Games Store e Xbox on PC. É uma experiência exclusivamente single-player, o que numa era em que todo estúdio AAA parece obrigado a testar um multiplayer vale nota.
Um jogo que carrega o peso do lugar de onde veio
A tentação, com um jogo como Metro 2039, é tratar o ângulo da guerra como curiosidade de bastidores. Não é. O que a equipe da 4A Games está dizendo com esse jogo é que a ficção pós-apocalíptica sempre foi uma alegoria, e que agora eles têm o infortúnio de ter vivido uma versão suavizada dela.

A 4A Games também não está tentando esconder nada. A bandeira do Novoreich que aparece no trailer carrega um símbolo que é, na prática, uma adaptação estilizada da suástica. O regime tem um Führer. O nome “Novoreich” é literalmente “Novo Reich”. A escolha de colocar um personagem chamado Hunter, que era um herói dos livros, como o rosto desse regime que promete unidade e entrega opressão, não é sutil. Nem precisa ser.
Sete anos de desenvolvimento é muito tempo. Três deles aconteceram durante uma invasão. Quando o jogo chegar no fim do ano, vai ser o primeiro grande lançamento AAA a tratar diretamente do que é fazer arte enquanto o seu país está sendo atacado. Metro 2039 não promete catarse nem resposta. Promete, nas palavras da própria equipe, uma visão trágica. E eles sabem do que estão falando.
Marina Costa
Entusiasta de tech e indie games
Especialista em games indie e multiplayer. Jogadora e analista de mecânicas de jogo.
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