Quase todos os fundadores da xAI já foram embora - e o Musk quer começar tudo de novo

Nove dos 11 co-fundadores da xAI já foram embora. Agora Musk admite que construiu tudo errado - seis semanas depois de uma fusão de US$ 1,25 trilhão.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
16 de março de 2026 4 min
Elon Musk, fundador da xAI, empresa de inteligência artificial que desenvolve o chatbot Grok
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Nove dos 11 co-fundadores da xAI já deixaram a empresa. O único que falta para fechar a conta é o próprio Musk. Essa é a situação da startup de IA que ele fundou em 2023 e que foi avaliada em US$ 250 bilhões quando a SpaceX a absorveu, há pouco menos de dois meses, numa fusão que Musk precificou em US$ 1,25 trilhão no total.

A resposta oficial para o xAI fundadores saindo em série? “A xAI não foi construída corretamente da primeira vez, então está sendo reconstruída a partir dos fundamentos”, escreveu Musk no X na semana passada. Boa sorte pra qualquer um que tentasse dizer isso sobre uma empresa de outra pessoa e ainda ser levado a sério.

Os nomes que foram embora desde janeiro falam por si: Jimmy Ba, pesquisador cujo trabalho foi central para o desenvolvimento do Grok; Tony Wu; Greg Yang; Toby Pohlen, que liderava o projeto Macrohard - e saiu 16 dias depois de ser nomeado para o cargo; Zihang Dai, que trabalhava nas capacidades de programação do Grok; e Guodong Zhang, responsável pelo time de geração de imagens. Restam Manuel Kroiss e Ross Nordeen como os únicos co-fundadores originais ainda dentro da empresa.

Interior do data center Colossus da xAI em Memphis, com fileiras de servidores GPU da Supermicro
Interior do data center Colossus da xAI em Memphis, com fileiras de servidores GPU da Supermicro

O timing é o que mais incomoda. A fusão SpaceX-xAI foi anunciada em fevereiro. Seis semanas depois, o próprio Musk admite publicamente que construiu o negócio errado. A Tesla, empresa listada em bolsa, já havia sido convencida a investir US$ 2 bilhões na xAI antes disso. Acionistas da Tesla já estão processando Musk por suposta violação de deveres fiduciários - e a confissão de que tudo precisa ser refeito do zero não vai ajudar na defesa.

A narrativa de Musk é de que isso é planejado, parte natural da evolução de uma startup. “Tem gente que é mais adequada para o estágio inicial de uma empresa e menos para os estágios posteriores”, disse em uma reunião geral com funcionários, segundo o New York Times. É uma explicação palatável. O problema é que perder 9 de 11 fundadores não é evolução - é outra coisa.

O que está por trás dos cortes

O gatilho imediato foi o desempenho em ferramentas de programação. O Grok, chatbot da xAI acessível via X e principal produto da empresa, está ficando para trás do Claude Code, da Anthropic, e do Codex, da OpenAI - que são assistentes de código baseados em IA. Musk chegou a dizer publicamente: “A xAI está atualmente atrás em programação.” Para tapar esse buraco, a empresa recrutou dois engenheiros da Cursor, startup de programação com IA avaliada em US$ 29,3 bilhões: Andrew Milich e Jason Ginsberg, que vão reportar diretamente a Musk.

Além dos cortes, o Financial Times reportou que executivos da Tesla e da SpaceX foram enviados à xAI para auditar equipes e demitir quem não passa no crivo - enquanto funcionários já relatavam esgotamento antes mesmo dessas auditorias chegarem.

O projeto mais ambicioso da empresa, batizado de Macrohard (uma referência ao Microsoft que Musk acha engraçada), tinha como objetivo criar um agente de IA capaz de executar qualquer tarefa que um trabalhador de escritório faz no computador. Está pausado. Pohlen, que o liderava, saiu. Musk anunciou que vai tocar o projeto em conjunto com a Tesla, que desenvolve um agente complementar chamado “Digital Optimus”.

Comparativo de funcionários entre xAI, OpenAI e Anthropic
Comparativo de funcionários entre xAI, OpenAI e Anthropic

Em termos de tamanho, a xAI tem pouco mais de 5.000 funcionários - contra mais de 7.500 da OpenAI e cerca de 4.700 da Anthropic. Não é uma diferença absurda em headcount, mas em produto e adoção empresarial, a distância é bem maior. Enquanto OpenAI e Anthropic já têm contratos corporativos relevantes, o Grok ainda depende principalmente da base de usuários do X para distribuição.

Para quem usa o Grok por aqui - ele é acessível no Brasil via assinatura do X Premium - o cenário é de incerteza sobre o ritmo de melhorias do produto. O modelo está atrás nos benchmarks de programação e a empresa que o desenvolve acabou de admitir que precisa ser refeita do zero.

Musk já salvou a Tesla da beira da falência em 2008 e fez a SpaceX funcionar quando parecia impossível. Mas naquela época eram duas empresas. Hoje são seis, mais um cargo no governo americano. A conta de atenção não fecha, e os pesquisadores de IA que saíram da xAI provavelmente sabem exatamente por quê.

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