Não há monstros em As Benevolentes

Littell escreveu um romance que não explica o nazismo. Ele o torna psicologicamente plausível. E isso é mais perigoso.

Sicko
Sicko Ex editor de gente pelada. Agora lê livros.
1 de fevereiro de 2026 6 min
Capa do livro As Benevolentes, de Jonathan Littell
!!

As Benevolentes é narrado em primeira pessoa por Maximilian Aue, um oficial da SS responsável por tarefas administrativas ligadas ao extermínio de judeus no Leste Europeu e, mais tarde, à engrenagem burocrática do Terceiro Reich. O romance acompanha sua trajetória ao longo da Segunda Guerra Mundial, passando por massacres, disputas internas do regime, colapsos militares e rearranjos institucionais, sempre filtrados pela consciência de um narrador culto, articulado e obsessivamente racional.

Não é um romance histórico. Isso precisa ser arrancado da leitura logo no início, como quem arranca um curativo colado em ferida infeccionada. O livro usa a Segunda Guerra Mundial como cenário porque precisava de um ambiente onde o mal não fosse exceção, mas PROCEDIMENTO. Onde matar não fosse um ato, mas uma etapa. Um processo. Um campo onde a moral já chega morta e o sujeito só precisa aprender a não tropeçar no cadáver.

Tratar o livro como provocação moral é o erro mais comum. “É legítimo dar voz a um nazista?” é uma pergunta infantil. Infantil no sentido clínico do termo. O romance não pede autorização. Ele parte do pressuposto de que o leitor adulto não precisa ser protegido de si mesmo. Littell escreve como quem sabe que o problema nunca foi o nazismo em si, mas a facilidade com que estruturas mentais perfeitamente banais se encaixam em sistemas assassinos quando esses sistemas oferecem ORDEM, LINGUAGEM e CARREIRA.

Maximilian Aue não é um monstro. Ele também não é um homem comum no sentido reconfortante que o jornalismo adora repetir. Ele é pior. Ele é reconhecível. Um sujeito de alta capacidade cognitiva, educação sólida, cultura vasta, libido mal integrada e um Superego hipertrofiado que encontra, no Estado totalitário, um ambiente ideal para FUNCIONAR. Isso não é ficção gratuita. Isso é tipologia.

Quem lê o livro com algum lastro histórico percebe rápido que Littell não inventa o funcionamento da máquina. As disputas internas da SS, a fragmentação administrativa, a competição por prestígio entre departamentos, tudo isso corresponde ao que os arquivos mostram. O genocídio não avançou apesar do caos burocrático. Ele avançou POR CAUSA dele. A fragmentação diluía responsabilidade. Cada um fazia apenas a sua parte. Cada parte parecia pequena demais para justificar um colapso moral completo. O resultado foi industrial.

É aqui que As Benevolentes começa a ficar realmente indigesto. Porque ele se recusa a oferecer o conforto da excepcionalidade. Não há surto coletivo. Não há possessão demoníaca. Não há loucura nacional. Isso é central. Transformar o nazismo em patologia coletiva seria uma forma elegante de absolvê-lo. Littell não faz isso. Ele mostra homens funcionais operando dentro de uma lógica funcional. A monstruosidade surge como subproduto. Não como desvio.

Aue, nesse sentido, é menos interessante pelo que FAZ do que por como PENSA. O romance inteiro é uma longa racionalização. Uma defesa obsessiva contra a ideia de culpa pessoal. Ele não nega os fatos. Ele nega a IMPLICAÇÃO subjetiva. E isso é muito mais perturbador do que qualquer sadismo explícito. Porque esse mecanismo é comum. Ele aparece em contextos muito menores. Empresas. Instituições. Famílias. Escala muda. Estrutura permanece.

A tentação crítica é resolver Aue com um diagnóstico rápido. Psicopata. Perverso. Incestuoso. Tudo isso é insuficiente. Psicopatas clássicos não ruminam desse jeito. Não sofrem desse jeito. Não se justificam tanto. Aue sofre. Ele sente angústia. Ele apresenta sintomas claros. O que ele NÃO faz é permitir que isso gere ruptura. O sofrimento vira ruído de fundo. Algo a ser administrado. Como dor lombar crônica. Incômodo, mas não impeditivo.

Isso coloca o romance num território psiquiátrico delicado, que Littell domina melhor do que muitos críticos gostam de admitir. Aue não opera no registro do impulso. Ele opera na OBSESSÃO. Pensamento circular. Intelectualização maciça. Dissociação afetiva seletiva. A agressividade não explode. Ela se acomoda. Isso é mais realista. E, justamente por isso, mais assustador.

O ponto em que muitos leitores abandonam o livro é também um dos mais honestos. O famoso capítulo febril. O corpo fora de controle. As imagens degradadas. A sexualidade reduzida a ruído fisiológico. Aquilo não é provocação gratuita. É COLAPSO. A mente que passou centenas de páginas funcionando com precisão burocrática entra em curto. O pensamento deixa de organizar. Passa a repetir. A obsessão perde a elegância. Fica bruta. Arrastada. Sim, é o trecho que mais cansa. E não poderia ser diferente. Febre não edita. Febre INSISTE.

Isso não significa que Littell acerte sempre. Em outros momentos, o excesso sexual reiterado, o incesto repetido, a fixação corporal quase pornográfica soam como desconfiança do próprio projeto. Como se o livro tivesse medo de que o leitor se sentisse confortável demais dentro da mente de um assassino. Quando isso acontece, o texto perde precisão. Fica mais alto. Menos cortante.

Ainda assim, o núcleo permanece intacto. E ele é brutal.

As Benevolentes faz em forma de romance aquilo que Eichmann em Jerusalém fez em forma de ensaio. Ele encena, com todos os riscos da encenação, a ideia que Hannah Arendt formulou e pagou caro por formular. A de que não há monstros. Não há gene secreto. Não há abismo metafísico separando “nós” deles. Há gente funcional demais, adaptada demais, disposta demais a NÃO pensar até o fim.

Arendt foi atacada porque isso fere uma necessidade emocional profunda. A de acreditar que o mal exige uma alma especial. Littell retoma essa intuição e a empurra para dentro da experiência subjetiva. Ele não explica. Ele FAZ o leitor habitar. E isso é infinitamente mais desconfortável.

O livro é longo. Ele repete. Ele insiste. Ele cansa. Tudo isso é verdade. Mas esse cansaço não é um defeito colateral. Ele é parte do efeito. A mente de Aue não descansa. A máquina não descansa. O leitor também não. Ler As Benevolentes não é prazer estético no sentido clássico. É exposição prolongada.

E é exatamente por isso que o livro DEVE ser lido.

Não como entretenimento. Não como aula de história. Não como provocação moral barata. Mas como um experimento psicológico de longa duração. Um teste de tolerância à ideia de que a distância entre civilização e barbárie não é um muro. É uma linha fina, administrativa, escrita em linguagem correta.

Quando o livro termina, não sobra indignação. Não sobra catarse. Sobra reconhecimento. A percepção incômoda de que nada ali depende de um tipo humano raro. Depende de contexto. De linguagem. De recompensa simbólica. De silêncio oportuno.

As Benevolentes não é um livro que te torna melhor. Ele te torna menos confortável. Isso hoje é raro. E necessário.

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