O trailer de O Exorcista: Mártires mostra Scarlett Johansson caçando um serial killer, e Mike Flanagan diz que a base é O Exorcista III

Flanagan junta investigação policial e possessão, cita a sequência que Blatty dirigiu em 1990 e estreia no Brasil em 11 de março de 2027.

Felipe Ouder
Felipe Ouder Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
10 de outubro de 2026 7 min
Scarlett Johansson e Sasha Calle, como as detetives Julie Miller e Gina Restrepo, diante de um corpo coberto num necrotério no trailer de O Exorcista: Mártires
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Em 1990, William Peter Blatty, o homem que escreveu O Exorcista, dirigiu ele mesmo uma continuação que até hoje vive à sombra do original. O Exorcista III adaptava Legião, romance dele de 1983, e colocava um tenente de polícia atrás de um serial killer que parecia ter voltado da morte. Trinta e seis anos depois, o trailer de O Exorcista: Mártires, apresentado ontem na New York Comic Con, deixa claro onde Mike Flanagan foi buscar inspiração: nesse filme esquecido, bem longe da cabeça girando de William Friedkin.

O longa chega aos cinemas brasileiros em 11 de março de 2027, pela Universal. Scarlett Johansson faz Julie Miller, detetive de homicídios de Nova York que, 13 anos antes, prendeu um assassino que deixava as cenas de crime montadas como quadros religiosos. Em entrevista à IGN, Flanagan chama pelo nome de Rivera o assassino que as sinopses brasileiras apresentam como Padre Sunday, papel de John Leguizamo, e o trailer mostra a execução dele, cercado por carrascos encapuzados. O caso fecha, Julie vira heroína e a vida segue. Até que os crimes voltam, com detalhes que, nas palavras do diretor, vão além do que um simples imitador conseguiria fazer. Agora ela é mãe solo, e o filho de 12 anos, vivido por Jacobi Jupe, vira alvo de uma força demoníaca.

Do lado dela estão Chiwetel Ejiofor, como o padre William, capelão de presídio, e Laurence Fishburne, em outro papel de padre. Sasha Calle faz Gina Restrepo, detetive novata que entra na investigação. Diane Lane e Carla Gugino completam um elenco estrelado para um filme de possessão.

A escada do trailer e o cartaz de O Exorcista III

O trailer abre com Johansson parada no alto de uma escada, olhando para a cena do crime lá embaixo, antes de descer. Flanagan explicou à IGN que, se o assunto é O Exorcista e você tem uma escada daquelas à disposição, usar é praticamente obrigação. A imagem lembra a escadaria do filme de 1973, onde o padre Karras despenca no fim, e com o cartaz da sequência de Blatty. “Bota o cartaz de O Exorcista III do lado desse plano. É bizarro”, disse o diretor.

Para Flanagan, Julie para e observa antes de descer, porque descer até o mal é o trabalho dela. A fotografia é de Michael Fimognari, o mesmo de The Haunting of Hill House e Doutor Sono, e o trailer abre com uma pausa, sem susto nenhum.

O que Flanagan foi buscar em O Exorcista III

“Fora o original, é o meu favorito da franquia”, disse Flanagan sobre o filme de 1990. O que o atraiu foi a mistura que Blatty arriscou, tanto no livro quanto no filme: “Aquele filme ensaia casar o suspense de investigação de serial killer com a história de possessão. A gente agora pode ir até o fim”.

O Exorcista III tinha George C. Scott como o tenente Kinderman e o assassino Geminiano, que Blatty inspirou no Assassino do Zodíaco. Tem também um dos sustos mais estudados do gênero: um corredor de hospital filmado em plano fixo e longo, onde nada acontece até acontecer tudo. A sinopse oficial de Mártires fala de uma linhagem de serial killers que vai de H. H. Holmes ao próprio Zodíaco, então o parentesco aparece até no material de divulgação.

Em 1990, a Morgan Creek, produtora de O Exorcista III, exigiu que Blatty refilmasse o final e colocasse uma cena de exorcismo que ele não queria. Segundo Blatty, o recado do estúdio foi que filme de Exorcista tinha que ter exorcismo, e ele queria chamar o filme de Legion. A versão do diretor só voltou em 2016, remontada a partir de fitas VHS das filmagens, porque quase todo o material cortado se perdeu. A mesma Morgan Creek está entre as produtoras de Mártires, agora com um diretor que diz abertamente que o filme de Blatty é a sua referência.

Sobre ser ou não uma sequência direta, Flanagan desconversou com cuidado. O filme funciona sozinho para quem nunca viu O Exorcista III, nem o de Friedkin, nem leu o romance original. “Mas tem um fio que os fãs mais obcecados podem puxar, e ele passa por O Exorcista III e volta até o filme de Friedkin”, disse.

O Exorcista: O Devoto ficou para trás

A Universal pagou US$ 400 milhões em 2021 pelos direitos de uma nova trilogia, segundo a Variety. O primeiro capítulo, O Exorcista: O Devoto, de David Gordon Green, saiu em 2023, trouxe Ellen Burstyn de volta e foi destroçado pela crítica. A sequência planejada, The Exorcist: Deceiver, foi cancelada, Green saiu do projeto em janeiro de 2024 e Flanagan foi anunciado em maio daquele ano. Mártires ignora O Devoto por completo.

Acho a escolha certa. O Devoto acreditou que bastava reencontrar Burstyn e repetir a estrutura da menina possuída, e o resultado foi uma colagem de citações sem medo nenhum. Flanagan, quando ainda divulgava A Vida de Chuck, disse que só entrou na franquia porque achava que tinha algo novo para trazer, sem apoiar o filme na nostalgia. No painel da NYCC, repetiu a ideia: “Esse filme não se parece com nenhum outro Exorcista já feito, e a gente estava determinado desde o começo a levar a franquia para uma direção completamente diferente. Tinha que dar medo. Um medo do cão, de gelar a espinha”.

A Blumhouse tem entregado monstros clássicos a diretores com assinatura própria, como fez com A Múmia de Lee Cronin em abril. Esta é a quarta parceria de Flanagan com o estúdio, depois de O Espelho, Hush: A Morte Ouve e Ouija: Origem do Mal, e o último deles mostrou que ele consegue tirar algo decente de uma marca desgastada.

O barril do shopping e o título Mártires

A imagem mais estranha do trailer é um barril sujo de sangue num shopping abandonado, que reaparece mais adiante numa cena bem pior. Flanagan foi criado no catolicismo e conta que cresceu fascinado e apavorado com o martírio dos santos, que morreram de algumas das piores formas que dá para imaginar. Quem conhece os métodos de execução dos mártires reconhece o barril. Os crimes do filme profanam o sagrado, e o título sai daí.

“O que me assusta em O Exorcista é que o filme mostra um mundo onde Satanás claramente existe e age, e Deus não aparece em lugar nenhum. Um mundo onde crianças inocentes podem morrer de forma horrível e nenhum Deus vai intervir por elas. Que, por acaso, é o mundo em que a gente vive”, disse à IGN.

Quem viu Midnight Mass sabe que Flanagan leva culpa católica a sério, e também sabe do vício dele: personagens que param a ação para fazer monólogos de cinco minutos sobre fé e morte. Uma detetive correndo atrás do mal talvez deixe menos espaço para sermão. Flanagan disse à IGN que os protagonistas desse tipo de história costumam paralisar de medo diante do mal, e que Julie corre na direção dele. Se o roteiro mantiver esse ritmo de procedimento policial, à la Seven: Os Sete Crimes Capitais, a mão pesada dele nos diálogos pode finalmente ser contida.

Ah, e “Tubular Bells”, o tema de Mike Oldfield que virou sinônimo da franquia? A IGN perguntou. Flanagan respondeu com um “não!” sem rodeios. Até março, a lição de casa é ver O Exorcista III, de preferência a versão do diretor. É o filme que Blatty quis fazer, e é dele que Flanagan diz partir.

Felipe Ouder
AUTOR

Felipe Ouder

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Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.

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