Aaron Sorkin foi sua própria segunda opção para dirigir a sequência de A Rede Social. Fincher estava preso num contrato com a Netflix

Sorkin queria Fincher dirigindo a sequência de A Rede Social. O contrato com a Netflix e o calendário eleitoral americano acabaram com a ideia.

Felipe Ouder
Felipe Ouder Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
18 de setembro de 2026 5 min
Jeremy Strong como Mark Zuckerberg, de terno escuro e gravata, de pé diante de um microfone em sala de audiência quase tomada pelo breu
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Aaron Sorkin passou dezesseis anos sendo o cara que escreveu A Rede Social. Agora ele é o cara que dirige a sequência de A Rede Social, e acabou de contar que nunca quis esse cargo. “Eu fui minha segunda opção para dirigir”, disse no podcast Filmmaker Toolkit, do IndieWire, falando do filme que no Brasil se chama O Outro Lado das Redes. “Eu queria que o David dirigisse, mas ele não pôde”.

O David é David Fincher, que dirigiu o original de 2010 e ficou de fora deste. O impedimento tem duas camadas. A primeira é contratual. Fincher tem acordo de exclusividade com a Netflix e estava dirigindo The Further Mis-Adventures of Cliff Booth, o filme com Brad Pitt escrito por Quentin Tarantino que rodou de julho de 2025 a janeiro de 2026 e entra em salas IMAX no dia 25 de novembro para uma temporada de duas semanas antes de cair no streaming em 23 de dezembro. A sequência de A Rede Social é da Sony. Para dirigi-la, Fincher precisaria da Netflix liberando ele para trabalhar num estúdio concorrente.

A segunda camada é calendário, e nem uma liberação da Netflix resolveria. “Eu não queria que O Outro Lado das Redes saísse um ano depois das eleições de meio de mandato”, disse Sorkin. Os americanos votam em 3 de novembro. “Eu achei que a gente não ia estar mais no clima. Eu queria que saísse agora”.

Fincher leu o roteiro antes de todo mundo e ficou de fora mesmo assim

Fincher não sumiu do projeto. Sorkin contou que ele foi a primeira pessoa a ler o roteiro, que os dois se encontraram na manhã seguinte e que Fincher virou “uma pessoa de apoio muito entusiasmada”. Sobrou algo concreto da bênção: Jeff Cronenweth, diretor de fotografia de Clube da Luta e de A Rede Social, assina a fotografia da sequência. Sorkin descreveu a lógica da contratação como tentar “criar um diretor no agregado”, somando o fotógrafo certo, o diretor de arte certo, o figurinista certo.

O resto da equipe mudou. Alexandre Desplat entra no lugar de Trent Reznor e Atticus Ross na trilha sonora, e os dois vêm de escolas opostas. Desplat é o orquestrador melódico de O Grande Hotel Budapeste e A Forma da Água, dois Oscars na prateleira, um compositor que escreve tema que você sai assobiando. Reznor e Ross ganharam o Oscar de 2011 fazendo o contrário, sintetizadores pulsando embaixo de cenas em que ninguém corre perigo nenhum, dando a elas a textura de um thriller que a imagem sozinha não tinha.

O que a direção de Fincher fez em 2010 e Sorkin vai ter que resolver sozinho

A Rede Social levou três Oscars naquela noite: roteiro adaptado para Sorkin, montagem e trilha original. Perdeu filme e direção para O Discurso do Rei, numa escolha que a Academia passou os últimos quinze anos tendo que justificar em entrevista. Fincher filmou uma briga judicial entre garotos de Harvard com um verde adoentado na correção de cor, o ajuste digital que define a temperatura e a paleta de cada plano, e foi carregando esse verde conforme Zuckerberg se afastava de qualquer contato humano decente. A Rede Social funciona como filme de terror sobre gente que não consegue olhar ninguém no olho.

Sorkin dirigiu três filmes antes deste: Aposta Máxima, Os 7 de Chicago e Apresentando os Ricardos. Os três resolvem a cena do mesmo jeito, com gente muito inteligente andando e falando rápido em salas fechadas e a câmera inteiramente a serviço do diálogo. É cinema de dramaturgo, e tem material em que isso rende. Os 7 de Chicago se passa quase inteiro dentro de um tribunal, e o filme novo foi descrito como thriller jurídico. Sorkin monta uma sala de interrogatório melhor do que quase todo mundo em Hollywood. O que ele nunca precisou fazer é construir um clima que o texto não diz.

O contrato que tirou Fincher da sequência de A Rede Social existe porque a Netflix comprou a exclusividade dele, e o filme da Netflix que ocupou a agenda dele vai passar duas semanas em IMAX antes de virar streaming. Fincher abriu mão de dirigir um lançamento de cinema da Sony para fazer um filme de streaming com lançamento em cinema.

No Brasil o filme chega em 22 de outubro com o nome de O Outro Lado das Redes

Os cinemas brasileiros iam receber o filme no começo de setembro e a Sony Pictures Brasil empurrou a estreia para 22 de outubro, doze dias antes da eleição americana que ditou toda a pressa de Sorkin. São 1h52 de duração, com Mikey Madison como Frances Haugen, Jeremy Allen White como o repórter Jeff Horwitz e Jeremy Strong como Zuckerberg. Jesse Eisenberg recusou voltar ao papel que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator, dizendo que já tinha passado da fase daquele personagem, e Strong construiu a versão dele sem se apoiar na anterior.

A história sai dos Facebook Files, a série de reportagens que o Wall Street Journal publicou em 2021 a partir de documentos internos que Haugen, engenheira de dados da empresa, tirou de lá. Os documentos mostravam que a companhia tinha pesquisa própria sobre o estrago que o Instagram fazia na cabeça de adolescentes e seguia tocando o negócio do mesmo jeito. O assunto envelheceu de um jeito desconfortável para a Meta: em março deste ano um júri de Los Angeles condenou a empresa e o YouTube por negligência num processo sobre vício em redes sociais, com mais de mil e seiscentos casos parecidos esperando a vez.

Em 2010 Fincher pegou um processo judicial entre universitários e devolveu um pesadelo sobre solidão. Sorkin agora tem a denunciante, o repórter, a empresa e o tribunal, tem o próprio roteiro na mão e não tem mais ninguém entre o roteiro e a tela. Dia 22 de outubro a gente descobre se ele precisava de alguém ali.

Felipe Ouder
AUTOR

Felipe Ouder

Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.

Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.

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