O Resident Evil de Zach Cregger saiu da première chamado de uma das melhores comédias de terror. São 90 minutos, muito body horror e nenhum Leon ou Jill

O filme se passa em 2026, com celular na mão do protagonista, o que rendeu bronca de parte dos fãs. Estreia no Brasil em 17 de setembro.

Felipe Ouder
Felipe Ouder Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
16 de setembro de 2026 6 min
Homem de gorro amarelo e camisa xadrez no banco do motorista de um carro à noite, com a mão ensanguentada tapando a boca, enquanto uma mulher com o rosto sujo de sangue avança do banco do passageiro
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A Sony fez a première mundial do Resident Evil de Zach Cregger numa terça à noite, no The United Theater, em Los Angeles, e liberou quem estava na sala pra postar reação curta na saída. O que apareceu nas horas seguintes tem uma palavra que se repete em quase todo post: riso.

Eric Goldman escreveu que o filme “é um barato, implacável depois que engata, muito esquisito e intenso, mas também muito engraçado”. Germain Lussier chamou de “totalmente imprevisível, nojento pra caramba, muito engraçado e assustador o tempo todo”. Perri Nemiroff botou em duas listas de uma vez, “uma das melhores adaptações de videogame” e “uma das melhores comédias de terror”. Bill Bria resumiu a duração em “90 minutos sem fôlego” de “humor negro abobalhado e terror”.

Courtney Howard foi na direção oposta do elogio fácil e descreveu ação cinética apoiada em “body horror demente”, o terror que trabalha a deformação e o apodrecimento do próprio corpo, linhagem que vai de David Cronenberg em Videodrome até A Coisa, de John Carpenter. Wendy Lee Szany disse que o filme “me deixou completamente estressada, mas no bom sentido”.

Erik Davis disse que o filme faz você sentir que está jogando

A frase que mais interessa quem acompanha adaptação de game veio de Erik Davis, dizendo que o filme “faz você sentir que está jogando”. As reações mencionam sequências em primeira pessoa, com a câmera ocupando o ponto de vista de quem está em cena.

Câmera subjetiva é das ferramentas mais antigas e mais difíceis do terror. Michael Powell construiu O Fotógrafo do Pânico inteiro em 1960 em cima da ideia de que olhar pelo visor de alguém te torna cúmplice, e John Carpenter abriu Halloween em 1978 com quase cinco minutos de plano subjetivo antes de revelar quem estava carregando a faca. O efeito funciona porque tira do espectador a informação que o plano aberto daria de graça: você só sabe o que a cabeça que carrega a câmera consegue ver.

Num filme de Resident Evil, isso tem uma camada a mais. A série da Capcom migrou pro ponto de vista em primeira pessoa em 2017 com o sétimo jogo, e o corredor escuro visto por cima de uma lanterna virou a gramática visual da franquia moderna. Cregger está devolvendo pro cinema uma linguagem que o jogo emprestou do cinema.

Noites Brutais e A Hora do Mal explicam a régua

Quem não acompanhou os dois filmes anteriores do diretor pode estranhar a insistência das reações em falar de comédia num filme de zumbi. Cregger veio do grupo humorístico The Whitest Kids U’ Know e estreou no terror com Noites Brutais em 2022, o filme da casa alugada duas vezes na mesma noite que troca de protagonista no meio e muda de gênero três vezes sem avisar. Repetiu a estrutura em A Hora do Mal, em 2025, contando a mesma noite por vários pontos de vista até o quebra-cabeça fechar.

O método é sempre o mesmo: montar uma expectativa confortável, arrancar o tapete e deixar o espectador rindo de nervoso no plano seguinte. É o oposto do terror de tensão contínua. Aplicado a Resident Evil, explica por que as mesmas pessoas saíram da sessão falando em susto e piada na mesma frase.

O filme se passa em 2026, na neve, e o protagonista tem iPhone

O filme se passa hoje, e não em setembro de 1998 como os jogos, o que rendeu bronca imediata de quem esperava Raccoon City reconstruída tijolo por tijolo. Cregger respondeu sem rodeio: “O filme se passa na neve, em 2026, e é por isso que o personagem carrega um iPhone”.

O protagonista é Bryan, entregador da área médica vivido por Austin Abrams, que atravessa uma noite de surto viral tentando sobreviver. Paul Walter Hauser, Zach Cherry e Kali Reis completam o elenco como cientistas ligados à Umbrella. A história é original, com inspiração forte em Resident Evil 2, sem ser adaptação cena por cena.

Leon S. Kennedy e Jill Valentine ficaram de fora, e a justificativa do diretor é a decisão mais interessante do projeto inteiro. Tentar melhorar personagem que o jogo já constrói bem seria “perda de tempo”, disse ele, afirmando que a história de Leon pertence aos games. Sobre o que quer fazer no lugar: “Prefiro contar uma história original que viva no mundo dos jogos e que se pareça mais com a experiência de jogá-los”. A meta declarada é survival horror em vez de survival action.

Vinte e quatro anos de adaptação de Resident Evil no cinema trataram a franquia como lista de personagens a cumprir. Cregger é o primeiro a tratar como mundo com regras, e essa é a diferença que separa adaptação de fantasia de cosplay caro. Ele se declara fã dos jogos e diz que o roteiro respeita as leis estabelecidas pela Capcom, incluindo a mecânica viral nova que o filme inventa. Enquanto isso, o Leon dos jogos segue vivo e infectado em Resident Evil Requiem, exatamente onde o diretor acha que ele deve ficar.

Vinte e quatro anos de Resident Evil no cinema, com uma régua baixa

Paul W. S. Anderson comandou a série que começou em 2002 com Milla Jovovich e fechou em 2016, seis filmes que passaram de US$ 1 bilhão em bilheteria mundial e transformaram survival horror em coreografia de ação. Em 2021 veio Bem-vindo a Raccoon City, de Johannes Roberts, tentando o caminho contrário, fiel aos dois primeiros jogos e recebido com indiferença.

O histórico pesa, e vale lembrar que 2026 vinha sendo anunciado como o ano dos filmes de videogame desde fevereiro. Cregger chega com a vantagem de ser o primeiro nome dessa fila que o público de terror já conhecia antes do contrato.

Estreia 17 de setembro no Brasil, um dia antes dos Estados Unidos

O filme chega aos cinemas brasileiros em 17 de setembro, quinta-feira, exclusivamente em sala. Nos Estados Unidos, estreia no dia 18.

Reação de première é festa com plateia amiga, e nenhum estúdio libera post de gente que odiou. O que essas reações entregam de concreto é o formato: 90 minutos, ritmo de perseguição, câmera que às vezes assume o ponto de vista de quem corre, criatura que escala a cada ato.

Cregger já tinha feito duas vezes o truque de fazer a plateia rir e gritar no mesmo plano. Dia 17 a gente descobre se ele aguenta o peso de uma marca que o cinema estragou duas vezes.

Felipe Ouder
AUTOR

Felipe Ouder

Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.

Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.

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