Elizabeth Holmes prometeu fazer exame de sangue com uma gota, pegou 11 anos e deixou uma equipe de cinema morar com ela nos 34 dias antes da prisão
A sessão secreta de Telluride era o documentário de Elizabeth Holmes dirigido por Nathan Fielder: 174 minutos e um segundo ato que a crítica se recusa a contar.
A sessão secreta do Festival de Telluride, aquela que entra na grade sem título e o público só descobre quando a luz apaga, era um documentário de Elizabeth Holmes dirigido por Nathan Fielder. You Can See Everything passou no domingo, 6 de setembro, sem aviso nenhum. A A24 soltou teaser e cartaz no mesmo dia e marcou a estreia nos cinemas americanos para outubro.
São quase três horas sobre uma mulher cuja queda já virou podcast, livro-reportagem, documentário do Alex Gibney e minissérie com Amanda Seyfried. A desconfiança é legítima: o que ainda sobrava pra contar? A resposta aparece no lugar mais improvável do filme, que é o momento em que ele para de ser sobre ela.
Trinta e quatro dias, e depois três anos
A premissa oficial cabe numa frase: 34 dias antes de se apresentar à prisão, Holmes convida uma equipe declaradamente cética para filmar cada movimento dela. Fielder e o codiretor Lance Oppenheim entram na casa e ficam.
Holmes se entregou em 30 de maio de 2023, condenada em quatro acusações de fraude contra investidores da Theranos, a empresa que prometia fazer centenas de exames a partir de uma gota de sangue e nunca conseguiu. A pena foi de 11 anos e três meses, encurtada por reduções sucessivas que empurraram a soltura para 2032.
Os 34 dias são só o primeiro ato. Depois que ela se apresenta, a filmagem segue por mais três anos e o filme vira outra coisa. Toda crítica saída de Telluride para nesse ponto e pede que ninguém procure saber o resto: a Awards Radar deu quatro estrelas, chamou de “obra-prima da forma” e avisou na mesma frase para o leitor não pesquisar nada sobre a segunda metade.
O que dá pra adiantar sem estragar: Billy Evans, marido de Holmes, vai ocupando cada vez mais espaço do enquadramento conforme o filme avança. E Fielder entra em quadro o tempo todo, pergunta, insiste. No teaser, com um bebê no colo dela, ele quer saber se aquilo ali é real. Holmes responde que ela é sempre real, arregala os olhos e devolve a pergunta de por que mentiria.
Fielder como instrumento de interrogatório
Quem viu The Rehearsal reconhece o registro na hora. Fielder conduz conversa com uma cara de paisagem absoluta, o deadpan, aquele humor entregue sem nenhuma variação de expressão, de modo que o interlocutor nunca sabe se ele concordou, julgou ou está armando alguma coisa. Owen Gleiberman, da Variety, escreveu que é o deadpan mais fulminante desde Steven Wright e definiu o conjunto como um circo de psicodrama, meio reality show, meio filme de gente jogando conversa fora, feito com espírito de investigação de verdade.
Tem uma cena que virou o assunto do festival. Fielder mostra a Holmes o “Who’s on First”, o número de Abbott e Costello dos anos 1930 em que dois sujeitos discutem os nomes dos jogadores de um time de beisebol até a linguagem inteira desmoronar. Ele usa aquilo para tentar provar um ponto a ela. Quem estava na sala diz que o queixo cai no chão.
Lance Oppenheim filma não ficção com gramática de ficção
Metade da forma do filme se explica pelo codiretor. Lance Oppenheim tem uma obra curta e muito consistente: Some Kind of Heaven (2020), sobre um condomínio de aposentados na Flórida, Spermworld (2024) e a série Ren Faire, da HBO, sobre a disputa pela sucessão no comando de uma feira renascentista no Texas. Ele filma gente real com close fechadíssimo, câmera solta e cobertura de cena em vários ângulos, como se fosse drama de época.
A dupla com Fielder fecha. Os dois trabalham na fronteira em que o documentário admite que a presença da câmera muda o comportamento de quem está na frente dela, e decide filmar essa mudança em vez de fingir que a câmera não existe. É a linhagem de Werner Herzog e da tal verdade extática, de Joshua Oppenheimer em O Ato de Matar, de Andrew Jarecki em The Jinx. A fotografia é de David Bolen, a montagem de Adam Locke-Norton e a trilha de Ari Balouzian.
O ponto cego são os pacientes da Theranos
A objeção mais dura veio do Next Best Picture, que deu 8 de 10 e escreveu que a insistência do filme em dizer que busca só a verdade é traída pelos próprios limites e vieses dele. A crítica aponta o que fica de fora: as vítimas reais. Pessoas que receberam resultado errado de exame de sangue de uma máquina que não funcionava aparecem pouco em 174 minutos de convivência doméstica com quem vendeu a máquina.
A preocupação vale para qualquer filme que entrega o microfone a quem foi condenado, e o formato virou tribuna tanto de acusação quanto de defesa. Em julho a BBC reuniu quatro mulheres acusando Jared Leto de crimes sexuais num único documentário, com o ator negando tudo publicamente no dia seguinte. Câmera ligada é palanque com montagem, e quem controla a montagem decide o que o espectador chama de verdade.
A defesa possível de You Can See Everything é que Fielder também não sai limpo do próprio filme. As críticas descrevem um diretor que entra atrás de uma resposta sobre se aquela mulher é vítima ou sociopata e sai três anos depois sem saber, desorientado, incapaz de fechar a conta. Um documentário que se recusa a entregar o rótulo final sobre a personagem é bem mais honesto do que a minissérie que já entregou.
Ainda não tem data de estreia no Brasil
A A24 marcou outubro nos cinemas americanos e não anunciou data brasileira. O histórico da distribuidora por aqui é irregular, com parte do catálogo chegando ao cinema com meses de atraso e parte aparecendo direto no streaming. Se o filme repetir a bilheteria de Telluride, a chance de sessão em circuito de arte em São Paulo, Rio e Belo Horizonte é real; fora desse eixo, esperar streaming costuma ser o caminho.
Enquanto isso, o material de apoio está todo à mão. The Dropout, a minissérie com Amanda Seyfried, está no Disney+. The Rehearsal, que explica melhor que qualquer sinopse o método de Fielder de construir cenário para ver o que a pessoa faz dentro dele, está no HBO Max.
Pete Hammond, do Deadline, escreveu que nunca viu nada parecido. Gleiberman disse que o filme fisga. A Awards Radar chamou de uma das coisas mais estarrecedoras já filmadas em documentário. Nenhum dos três conseguiu contar por quê, e três horas de sala escura raramente tiveram propaganda melhor.
Felipe Ouder
Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.
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