Bruce Campbell disse que tem mais cinco anos de vida, mais ou menos. Ele acabou de dirigir um filme sobre um viúvo atravessando o Oregon com as cinzas da mulher

Aos 67 anos, o Ash de A Morte do Demônio falou no programa do Adam Carolla sobre o prognóstico e sobre se recusar a entrar na toca do coelho do câncer.

Felipe Ouder
Felipe Ouder Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.
4 de setembro de 2026 6 min
Bruce Campbell como Ash apontando a espingarda dentro da cabana, em cena de Ash vs Evil Dead
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Bruce Campbell passou dezenove anos sem dirigir. Quando finalmente voltou para trás da câmera, aos 67, escolheu filmar um viúvo atravessando o Oregon de carro para cumprir uma lista de instruções que a mulher deixou antes de morrer. O filme se chama Ernie & Emma e estreou em 14 de fevereiro, em Medford, no Oregon mesmo. Duas semanas depois, no dia 2 de março, Bruce Campbell postou no Twitter que estava com câncer.

Nesta semana, no programa do Adam Carolla, ele deu o número que faltava. “O negócio agora é um prazo de cinco anos”, disse. “Mais ou menos”.

Campbell nunca revelou o tipo de câncer, e em março descreveu o quadro como tratável, sem ser curável. O post daquele dia tinha o humor que a gente conhece dele há quarenta anos. “Hoje em dia, quando alguém tem um problema de saúde, chamam isso de ‘oportunidade’, então vamos com essa: estou tendo uma dessas”, escreveu. E logo depois: “Desculpa se isso é um choque, foi pra mim também”. Avisou que convenções e trabalho em geral iam ficar em segundo plano, e fechou com “espero ficar por aqui mais um tempo”.

O que ele disse no programa do Adam Carolla

A conversa com Carolla é mais dura que o post de março, e mais interessante.

“Decidi, de forma bem específica, viver com isso, em vez de morrer disso”, disse Campbell. É a frase que o obituário antecipado de todo mundo vai usar, e ela vem acompanhada de uma outra que ninguém vai citar tanto, mas que diz mais sobre o cara: “Qual é a qualidade desses anos a mais?”.

Continuou: “Dá pra descer numa toca de coelho gigantesca. A toca do coelho do câncer é enorme. Você pode entrar em grupos de discussão com dez mil caras que têm o que você tem. Eu não chego perto nem com uma vara de três metros”.

Quem já acompanhou alguém num diagnóstico assim reconhece o movimento na hora. A doença chega e vem junto com um segundo emprego em tempo integral, que é pesquisar a doença, comparar protocolo, ler fórum, virar especialista amador na própria mortalidade. Campbell está dizendo em rede nacional que abriu mão desse emprego de propósito. Ele também comentou que o efeito mental do câncer pesa tanto quanto o físico, o que é o mesmo argumento dito de outro jeito.

Ernie & Emma é a primeira direção dele em dezenove anos

O filme que ele está rodando o país para mostrar tem uma sinopse que ninguém teria coragem de inventar para este momento da vida dele: um vendedor de cidade pequena pega a estrada pelo Oregon para honrar a mulher morta seguindo uma lista de instruções que ela deixou.

Campbell escreveu, dirigiu, produziu e protagonizou. É a primeira coisa que ele dirige desde My Name Is Bruce, de 2007, uma comédia em que ele fazia uma versão idiota de si mesmo sendo confundido com um caçador de demônios de verdade. Sair daquilo e chegar num road movie sobre luto é uma virada de registro que a maioria dos atores de culto nunca tenta, porque o público de culto costuma punir.

O elenco entrega o resto da história. Ao lado dele estão Cerina Vincent, Ted Raimi e Emma Raimi, ou seja, o irmão e a filha de Sam Raimi. Robin McAlpine é a Emma do título. Quarenta e cinco anos depois, Campbell continua fazendo cinema com a mesma família de Michigan com quem começou, e agora com a geração seguinte dela.

Fecha um círculo que fica bonito demais quando você olha de perto: A Morte do Demônio estreou no Redford Theatre, em Detroit, em 1981, e foi de lá que a carreira dos dois saiu do chão. Em março, quando anunciou o diagnóstico, Campbell também estava anunciando que levaria Ernie & Emma ao mesmo Redford. A turnê agora tem dezoito datas em cinemas Alamo Drafthouse pelos Estados Unidos, com ele presente para conversar com a plateia, e vai até 14 de novembro.

No Brasil, até o nome da franquia dele é uma bagunça

Nada disso tem data brasileira, e a turnê inteira é em cinema americano, então por aqui a espera é por streaming.

O que é uma ironia particular, porque a relação do Brasil com a obra do Bruce Campbell sempre foi confusa por culpa nossa. O primeiro filme saiu em VHS como A Morte do Demônio e passou em cinema como Uma Noite Alucinante - Parte 1 - Onde Tudo Começou. O segundo, de 1987, chegou como Uma Noite Alucinante, e depois ganhou o subtítulo Mortos ao Amanhecer. A confusão existe porque a continuação desembarcou no Brasil antes do original, e a distribuição resolveu numerar o que já tinha em vez de esperar. Duas gerações de brasileiros discutem até hoje qual filme é qual, e a discussão é sempre sobre o rótulo, nunca sobre o filme.

A franquia seguiu, com ele por perto, mas atrás da mesa. A Morte do Demônio: A Ascensão, de 2023, foi dirigida por Lee Cronin e produzida por Campbell, Sam Raimi e Robert Tapert, o mesmo trio de sempre. Cronin depois entregou uma versão de A Múmia que a crítica descreveu como perturbadora. Campbell entregou o horror que ajudou a inventar para uma geração de diretores que era criança quando o Ash apareceu, e guardou a própria volta à direção para um filme sobre um viúvo dirigindo pelo Oregon.

Vale lembrar de onde tudo isso saiu: um grupo de amigos de Michigan sem dinheiro, filmando numa cabana, com a ideia de que dava para assustar e fazer rir dentro da mesma cena. O Redford foi o primeiro cinema que topou projetar aquilo, em 1981.

Campbell segue com a turnê marcada e disse a Carolla que a doença continua existindo. O sujeito que passou a carreira apanhando de forma cômica em nome do gênero decidiu tratar o próprio prognóstico como agenda de trabalho.

Quem estiver perto de uma dessas sessões até 14 de novembro tem uma chance que não vai se repetir. O resto de nós pode fazer o de sempre: rever A Morte do Demônio e reparar em quanta coisa saiu daquela cabana.

Felipe Ouder
AUTOR

Felipe Ouder

Se tem explosão a cada 10 minutos, não é cinema. É TMZ.

Crítico e analista de cinema. Especialista em bilheteria e tendências da indústria audiovisual.

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