Executivos da OpenAI e da Palantir pagaram influencers até US$ 5.000 por TikTok para você ter medo da IA chinesa

Uma campanha de dark money financiada por executivos da OpenAI e Palantir pagou influencers de esquerda até US$ 5.000 por vídeo para postar sobre o perigo da IA chinesa, sem identificar o patrocínio.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
2 de maio de 2026 5 min
Greg Brockman, presidente da OpenAI, em palestra com fundo roxo
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O script enviado para influencers pagos para falar da IA chinesa é curto: “Fiquei sabendo que a China está tentando muito superar os EUA em IA. Se conseguir, isso pode significar que a China terá acesso aos meus dados pessoais e aos dos meus filhos.”

Quem escreveu esse script não foi um cidadão preocupado. Foi uma agência de marketing chamada SM4, contratada por uma organização sem fins lucrativos chamada Build American AI, que por sua vez é um desdobramento de um super PAC chamado Leading the Future. Super PACs são organizações políticas nos EUA que podem receber doações ilimitadas de empresas e indivíduos, desde que não coordenem diretamente com candidatos.

O Leading the Future levantou US$ 140 milhões em compromissos. Desse total, US$ 51 milhões estão prontos para gastar agora. Os financiadores incluem Greg Brockman, presidente da OpenAI, e sua esposa, que juntos doaram US$ 25 milhões. Marc Andreessen e Ben Horowitz, do fundo Andreessen Horowitz, contribuíram com outros US$ 25 milhões combinados. Joe Lonsdale, cofundador da Palantir, também está na lista.

A reportagem é da Wired, publicada em 1º de maio por Taylor Lorenz.

Como a SM4 recrutou influencers sem contar quem estava pagando

A SM4 entrou em contato com influenciadores de orientação política liberal ou de esquerda nos EUA, especificamente porque esses criadores alcançam audiências que normalmente não consomem conteúdo pró-tecnologia patrocinado pelo Vale do Silício.

O pagamento era de até US$ 5.000 por vídeo no TikTok ou Instagram. Em troca, os influenciadores recebiam o script pronto, um briefing com pontos de mensagem, e uma instrução específica: não marcar a conta do Build American AI nos posts.

A ideia era que o conteúdo parecesse orgânico. Uma preocupação genuína de um criador com seus seguidores. Não era.

Quando um influenciador recebe dinheiro para postar sobre um produto ou causa, a lei americana exige que o conteúdo seja identificado como publicidade. Muitos dos vídeos não foram identificados dessa forma, segundo a Wired. A FTC (agência americana de proteção ao consumidor) tem regras claras sobre isso. Ignorar as regras é mais fácil quando o financiador prefere não aparecer.

Os números que explicam por que essa estratégia faz sentido para quem pagou

53% dos adultos americanos se informam regularmente pelas redes sociais. Entre pessoas de 18 a 29 anos, 38% dizem que seguem influenciadores como fonte regular de notícias.

Colocar US$ 5.000 num criador com trezentos mil seguidores, com uma mensagem que parece espontânea, é uma operação barata pelo alcance que gera. É mais barato que um anúncio no Google, chega em audiências que bloqueiam anúncios, e não parece publicidade.

A audiência não sabe que está vendo conteúdo pago. Esse é o ponto.

Jamie Cohen, professor de mídia do Queens College, explicou o problema diretamente para a Wired: “Os consumidores não sabem quando a informação que estão recebendo é paga. O público não tem ideia. É extremamente corrosivo para a democracia.”

A ironia que os financiadores preferiram não destacar

O script diz que a China pode ter acesso aos dados das crianças americanas. É o argumento central, o medo que o conteúdo foi projetado para gerar.

Ao mesmo tempo, a OpenAI defende ativamente legislação nos EUA que tornaria obrigatório que plataformas coletassem mais dados de menores de idade, no contexto de verificação de idade. Especialistas em privacidade alertam que criar bancos de dados centralizados com documentos de identidade de crianças gera exatamente o tipo de vetor de vazamento que o script descreve como perigo.

A OpenAI quer os dados das crianças para verificação. O script diz que a China vai roubar os dados das crianças.

Isso não é contradição acidental. É a arquitetura de uma campanha que usa medo para criar espaço político favorável a uma indústria específica.

O que OpenAI e Palantir disseram quando foram questionadas

A OpenAI disse que não tem envolvimento corporativo com a campanha e que a participação de Brockman foi pessoal, não institucional.

A Palantir disse que não tem relação com a iniciativa.

Essas negativas podem ser tecnicamente verdadeiras. Brockman tirou uma licença de três meses em 2024 e voltou à presidência da OpenAI em novembro. Lonsdale cofundou a Palantir mas saiu em 2009 e não é executivo da empresa hoje.

Só que o dinheiro veio de pessoas com interesse econômico direto na expansão da IA americana. A Palantir tem contratos bilionários com o governo americano para projetos de IA. A OpenAI compete diretamente com empresas chinesas pelo mercado global. A motivação financeira não precisa estar no cargo que a pessoa ocupa hoje para existir.

Uma campanha de lobby que aprendeu a falar com quem não ouve lobby

O detalhe mais revelador é o targeting: influenciadores de esquerda, especificamente.

O público-alvo não eram fãs de tecnologia. Era o eleitorado que normalmente desconfia de grandes corporações de tech. A lógica é que esse grupo é mais difícil de convencer com anúncios convencionais, mas pode ser alcançado pela voz de alguém em quem confia.

É sofisticado. É também o tipo de coisa que, quando exposta, destrói exatamente a confiança que a campanha tentava explorar.

A Palantir tem um histórico bem documentado de se posicionar como empresa de defesa nacional quando o contexto favorece o lobby. O que mudou aqui é que a operação foi terceirizada para criadores de conteúdo que postaram sem identificar o patrocínio.

O DeepSeek é real. A concorrência chinesa em IA é real. O medo pode ser justificável. O que não se justifica é US$ 140 milhões operando por meio de criadores de conteúdo sem identificação, usando o medo de crianças como argumento, bancado por pessoas com interesse direto em política pública de IA.

Existe diferença entre informação e operação de influência. Essa campanha é a segunda usando o vocabulário da primeira.

Lucas Ferreira
AUTOR

Lucas Ferreira

Gamer desde o PS1, cético desde sempre

Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.

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