O novo papa escreveu o primeiro documento oficial sobre IA e usou Gandalf para fazer o argumento central

Leão XIV publicou sua primeira encíclica sobre IA e colocou uma frase de Gandalf no parágrafo 213. O argumento faz mais sentido do que parece.

Lucas Ferreira
Lucas Ferreira Gamer desde o PS1, cético desde sempre
27 de maio de 2026 4 min
Montagem com o Papa Leão XIV ao lado da ilustração de Gandalf de O Senhor dos Anéis
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No parágrafo 213 de uma encíclica papal, Leão XIV cita Gandalf.

Não é erro de tradução, não é clickbait. O papa publicou em 25 de maio de 2026 o seu primeiro documento formal de doutrina - uma encíclica é exatamente isso: uma carta solene enviada a toda a Igreja Católica - e lá no meio do argumento sobre inteligência artificial aparece uma citação de Tolkien atribuída ao mago cinzento de O Senhor dos Anéis.

A frase: “Não nos cabe reunir todas as marés do mundo, mas fazer o que estiver ao nosso alcance para ajudar os anos em que nos encontramos, erradicando o mal dos campos que conhecemos, para que aqueles que vierem depois de nós possam ter uma terra digna de ser cultivada.”

É Gandalf. Parágrafo 213 da Magnifica Humanitas. Com nota de rodapé referenciando O Retorno do Rei, Capítulo IX, “O Último Debate”.

Por que Leão XIV escolheu essa frase de Tolkien

A frase vem de “O Último Debate”, capítulo do terceiro livro da trilogia. Depois da Batalha dos Campos de Pelennor, Gandalf reúne Aragorn, Legolas e Gimli para deliberar sobre o que fazer em seguida. A situação é de pressão extrema: o inimigo é maior, o futuro é incerto, e a tentação de tentar controlar tudo é real. É ali que Gandalf diz que não cabe a eles controlar o rumo geral do mundo - só agir corretamente no tempo em que vivem.

Leão XIV usa a frase para construir o argumento central da encíclica: frente à IA, cada pessoa tem uma “esfera de ação” própria. Não é possível controlar o desenvolvimento tecnológico global. Mas é possível - e necessário - escolher o que fazer dentro do campo que cada um conhece. A “lógica da força” ou a “lógica da paz”, nas palavras do documento.

É um argumento que funciona independente de fé. A cena de Tolkien funciona aqui porque é sobre humildade frente ao poder, não sobre resignação. Gandalf não está dizendo para desistir - está dizendo para focar no que está ao alcance.

O que a Magnifica Humanitas realmente diz

O nome é solene porque encíclica é assim por natureza. Mas o argumento central é mais direto do que parece.

A Igreja não está dizendo que IA é má. A posição de Leão XIV é que a inteligência artificial precisa ser “desarmada” - tirada das lógicas que a transformam em instrumento de dominação, exclusão ou morte - e colocada a serviço do bem comum. Regulação, em outras palavras. Não destruição.

O papa propõe cinco caminhos concretos: palavras que desarmam ao invés de provocar, paz construída por justiça, perspectiva das vítimas de automação, realismo sobre promessas tecnológicas e revitalização do diálogo multilateral. São pontos que qualquer pessoa que acompanha o debate de ética em tecnologia já viu discutidos, sem o latim e sem a mitra.

Brasil tem mais católicos do que qualquer outro país. E tem IA chegando sem regulação

A CNBB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, já publicou materiais sobre a Magnifica Humanitas. O Correio Braziliense chamou Leão XIV de “tecnopapa”. Isso não é cobertura cultural periférica - é o posicionamento institucional de uma entidade com alcance real sobre como comunidades inteiras no Brasil vão pensar sobre tecnologia.

Em setores como saúde, direito e finanças, sistemas de IA estão sendo implantados no Brasil com regulação ainda incipiente. Uma encíclica que pede “instrumentos regulatórios adequados” para “conter os efeitos prejudiciais do poder tecnológico” não é abstração filosófica num contexto desses.

Leão XIV pode ser o único líder global que colocou Tolkien numa nota de rodapé de documento oficial de doutrina em 2026. A escolha diz algo sobre como o papa lê a situação: não como uma batalha a ser vencida, mas como um campo a ser cultivado.

Lucas Ferreira
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Lucas Ferreira

Gamer desde o PS1, cético desde sempre

Jornalista de tecnologia e games. Cobre a indústria tech e gaming há mais de 10 anos.

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