Quem era fã do Vegeta na infância virou adulto melhor, segundo a psicologia. Quem era do Goku que lute

Um texto viral diz que a psicologia provou que fã de Vegeta vira adulto melhor que fã de Goku. O estudo citado não tem nada a ver com Dragon Ball.

Carla Mendes
Carla Mendes Cobrindo esports desde 2018
24 de junho de 2026 5 min
Vegeta de braços cruzados ao lado de Goku, ambos com expressão séria, em frente a um céu azul com nuvens
!!

Toda mesa de quem cresceu vendo Dragon Ball trava no mesmo ponto: time Goku ou time Vegeta. É a discussão que não morre, que reaparece em todo trailer de jogo novo e em toda treta de Twitter. Agora apareceu um texto rodando o mundo dizendo que a psicologia bateu o martelo, e que os fãs de Vegeta viraram adultos melhores do que a galera do Goku. Calma. Antes de você printar isso pra mandar no grupo, deixa eu contar o que o tal estudo mede de verdade.

A matéria saiu primeiro no site alemão MeinMMO e foi parar na IGN Brasil. O argumento é simples e meio sacana: quem escolheu o Vegeta como favorito teria aprendido lições de vida mais valiosas, porque acompanhou um vilão arrogante e cruel virar um paizão ao longo de centenas de episódios. O Goku, do outro lado, é o Goku. Bonzinho no episódio 1, bonzinho no episódio 500. O texto até abre escancarando a torcida: “Vamos ser sinceros, o Vegeta é simplesmente mais maneiro.”

O estudo de 2017 não botou nenhum fã de anime no divã

A pegadinha é essa: o estudo que serve de base não tem nada a ver com Dragon Ball. É um trabalho de 2017 da pesquisadora Mariska Kleemans e colegas, sobre por que a gente se apega tanto a personagem moralmente cinza, aquele que não é nem herói de luz nem vilão puro.

A conclusão é elegante: o que prende o cérebro é a transformação. Ver alguém mudar gruda mais que ver alguém ser perfeito do episódio 1 ao 500. É a montanha-russa emocional, o crescimento interno do personagem. Antiherói rende mais que santo. Isso é psicologia da mídia, e vale pra Walter White, pra Severo Snape e pra qualquer arco de redenção que já te fez chorar.

O pessoal do MeinMMO pegou esse achado genérico e pendurou Dragon Ball nele. E encaixa que é uma beleza no Vegeta. Príncipe dos saiyajins, chega matando todo mundo, passa o arco do Freeza sendo um babaca completo, e aos poucos vira pai de família, marido da Bulma, cara que se sacrifica pela Terra que ele um dia quis destruir. Arco de personagem de manual. O Goku tem o carisma, os gritos, a Genki Dama, mas muda pouco: ele é a constante moral da franquia, a régua que não entorta.

Por que um psicólogo de verdade diz que o Vegeta é “mais humano”

Quem levou a rivalidade a sério mesmo foi o professor Nobuyuki Ota, doutor em psicologia educacional pela Universidade Chubu, no Japão, e autor de um livro sobre psicologia das rivalidades. Num texto pro site oficial de Dragon Ball, ele crava que o Vegeta é “o mais humano dos dois”.

O motivo: a autoestima alta e a obsessão de provar a própria força são coisas que a gente reconhece em si mesmo sem esforço. O Goku, criado na Terra desde bebê, age mais como saiyajin raiz do que o próprio príncipe Vegeta. Tem uma ironia boa nisso.

Ota ainda trouxe um dado que explica por que essa briga incomoda tanto. Em pesquisas, mais da metade das pessoas aponta alguém como rival. Só que o número despenca quando você pergunta se elas acham que o rival sente o mesmo. É a rivalidade de um lado só. E é exatamente a do Vegeta: “O objetivo do Vegeta é superar o Goku; o do Goku é competir com os outros pra ficar mais forte.” O Vegeta carrega a obsessão na mochila a saga inteira. O Goku mal percebe que tem rival.

No Brasil, essa treta é praticamente religião

Por aqui o assunto pega ainda mais fundo, porque Dragon Ball é patrimônio afetivo de uma geração inteira que assistia na TV aberta voltando da escola. A voz do Goku é do Wendel Bezerra, o mesmo cara que dubla o Bob Esponja, o que só deixa tudo mais surreal e mais nosso. Cada vez que pinta jogo novo, do Sparking Zero ao recém-anunciado Xenoverse 3, o debate Goku x Vegeta volta a ferver no Twitter brasileiro como se fosse 2003.

Agora, a real que toda fã sabe quando vê um título desses: transformar um estudo de psicologia da mídia em “fã de Vegeta é adulto melhor” é esticar a corda até quase arrebentar. Ninguém botou torcedor de anime num laboratório. Ninguém comparou a vida adulta de quem ama o Vegeta com a de quem ama o Goku. O que existe é um achado legítimo sobre por que arco de redenção gruda na gente, e gente esperta que vestiu Dragon Ball nele pra render clique. Funcionou, tô aqui escrevendo sobre isso.

Mas tem um fundo verdadeiro que quem ama narrativa sente na pele: personagem que muda fica com você pra sempre. O Vegeta machucou gente, errou feio, e mesmo assim a torcida pela redenção dele atravessou décadas. Isso diz alguma coisa sobre acreditar que pessoa falha pode melhorar. Não precisa de estudo pra entender, mas é gostoso quando a ciência dá uma força pro seu lado.

Se você é time Vegeta, parabéns, já printou e mandou no grupo antes de terminar de ler. Se é time Goku, fica tranquilo, porque nenhum estudo vai apagar o cara que salvou o universo umas dez vezes sorrindo. A briga segue exatamente onde sempre esteve: em lugar nenhum e em todo lugar ao mesmo tempo. Até o próximo trailer.

Carla Mendes
AUTOR

Carla Mendes

Cobrindo esports desde 2018

Cobrindo cenário competitivo de esports desde 2018. Acompanha torneios e equipes profissionais.

100% FREE * SEM SPAM

FICA POR
DENTRO

Todo domingo, um drop com o que você precisa saber sobre cultura pop e tech. Rápido, curado, sem spam.