Eu não assisto Joe Rogan. Sei que ele existe do mesmo jeito que sei que existe umidade: porque é impossível estar na internet sem sentir a presença. Os clipes chegam sozinhos. Os takes chegam sozinhos. A opinião do Rogan sobre qualquer assunto aparece no meu feed antes de eu saber que o assunto existe, porque a máquina funciona assim, e Rogan funciona. Funciona do mesmo jeito que um caça-níquel funciona: não porque oferece algo de valor, mas porque a mecânica de recompensa intermitente é precisa o suficiente pra manter o sujeito sentado ali achando que a próxima rodada vai ser a que paga.
Na quinta-feira, Joe Rogan e Theo Von sentaram no estúdio e chamaram Donald Trump de terrorista. Rogan disse que não conseguia acreditar que os Estados Unidos tinham entrado na guerra com o Irã. SUSSURROU no microfone, com aquela teatralidade de quem acha que sussurrar equivale a ter coragem, que as batidas do ICE serviam pra tirar o Epstein dos noticiários. Von olhou pra câmera e disse: “Vocês são os terroristas do caralho. Se querem parar o terrorismo, fiquem na frente do espelho e comecem por aí.” O clipe viralizou. A internet progressista compartilhou com júbilo. Mehdi Hasan respondeu no X: “Esses dois homens ajudaram Trump e Vance a serem eleitos. Fico feliz que estão dizendo o que estão dizendo agora, mas gostaria que assumissem isso.”
Hasan é generoso demais. Eu não fico feliz. Eu fico com nojo.
Porque o que está acontecendo aqui não é consciência. Não é arrependimento. Não é nem a versão cafona de “eu estava errado” que a gente aceita de político quando já não tem alternativa. O que está acontecendo é MANUTENÇÃO DE MARCA. É o momento exato em que o custo de continuar apoiando supera o custo de fingir que mudou, e o algoritmo emocional que governa a carreira de um podcaster com 14 milhões de ouvintes por episódio recalcula a posição e cospe o resultado: “hora de parecer indignado”.
A cronologia é importante. Eu preciso que você leia isso com cuidado porque a sequência revela o mecanismo.
Outubro de 2024: Rogan entrevista Trump no estúdio em Austin. Três horas de conversa. Sem confronto. Sem pressão. Sem uma ÚNICA pergunta que exigisse do entrevistado qualquer coisa além de falar. Quarenta milhões de visualizações. Na véspera da eleição, Rogan publica o endosso oficial. Disse que concordava “em cada passo”. CADA passo. Deportação em massa, retórica anti-imigrante, o pacote inteiro. Concordou. Theo Von entrevistou Trump em agosto do mesmo ano, a convite de Barron Trump, e o episódio bateu 15 milhões e meio de views. Von não entrevistou. Von HUMANIZOU. Sentou com Trump e falou sobre alcoolismo e o irmão morto de Trump, porque a função de Von na estratégia de campanha não era jornalismo, era produzir identificação emocional com um homem que nunca na vida precisou se identificar com ninguém. Dana White, quando Trump venceu, agradeceu publicamente os podcasters que ajudaram. Esses dois estavam na lista.
Março de 2025: as batidas do ICE começam. Rogan chama de “insanas” e “horríveis”. Diz que estão deportando jardineiros e pedreiros. Diz no ar que é preciso “ter cuidado pra não virar monstro enquanto luta contra monstros”, que é o tipo de frase que soa profunda num podcast e não significa NADA pra família venezuelana que está sendo processada num estacionamento de Walmart às seis da manhã. Rogan sabia que deportação em massa era promessa de campanha. Estava no programa de Trump em letra garrafal. Ele endossou o programa inteiro e depois ficou surpreso quando o programa aconteceu. Isso não é consciência. É o que a psiquiatria chama de dissociação. Você apoia a abstração e se choca quando ela vira corpo.
Março de 2026: Rogan diz que muitos apoiadores de Trump se sentem “traídos” pela guerra no Irã. A CNN publica uma análise sobre como Rogan virou o principal amplificador dos pontos fracos de Trump: Irã, Epstein, imigração, tarifas. Rogan agora é o cara que cobra. Que pede satisfação. Que representa o povo. E a ironia de alguém que AJUDOU A CONSTRUIR o problema agora se posicionar como fiscal do problema escapa a absolutamente todo mundo que compartilha os clipes com um emoji de palmas.
Abril de 2026: “Vocês são os terroristas do caralho.”
Eu preciso falar sobre o que esses caras são, porque a narrativa que prevalece é a de que Rogan é um “livre pensador” e Von é um “cara autêntico” e que esse ecossistema de podcasts masculinos representa algum tipo de retorno à conversa honesta que a mídia tradicional perdeu. Isso é conversa fiada. Esses caras não são pensadores. São IMBECIS DE PODCAST. Colecionadores de takes. O que Rogan é, diagnosticamente, é um homem de inteligência mediana com memória boa e curiosidade intermitente que construiu um império em cima de uma premissa simples: parecer que está pensando em voz alta.
A diferença entre pensar em voz alta e pensar DE VERDADE é que pensar de verdade produz consequências internas. Muda alguma coisa dentro de quem pensa. O que Rogan faz é processar informação em tempo real sem que ela altere nada. Entra dado, sai reação, posição não muda. É um tubo. Não é uma mente. A única coisa que Rogan realmente produz é a SENSAÇÃO de estar pensando, embalada num formato que recompensa quem assiste com a ilusão de que também está. Dois caras que não leram nada concordando que “é complexo” e seguindo pro próximo assunto. Isso é o Joe Rogan Experience. Três horas de dois caras que não fizeram a lição discutindo a prova.
O formato tem um nome técnico na retórica: é a posição do ignorante estratégico. “Eu sou só um cara curioso.” “Eu não sei nada, tô aqui pra aprender.” “Eu sou burro, me explica.” Rogan faz isso. Os caras do Flow fazem isso. Os da mesa do Inteligência Ltda. fazem isso. Os podcasts de mesa tipo bar, tipo roda de amigos, tipo “a gente é igual a você”, TODOS operam na mesma mecânica: se apresentar como leigo inocente que está genuinamente tentando entender o mundo, e usar essa posição como escudo pra empurrar posição política sem nunca precisar ASSUMIR que é posição política.
É de uma covardia estrutural impressionante. Porque quando você se define como “o cara curioso que não sabe nada”, você fica blindado em duas direções. Se alguém te confronta sobre uma opinião, você recua: “eu não disse isso, eu tava perguntando”. Se ninguém confronta, a opinião fica no ar como se fosse conclusão natural de uma exploração honesta. A pergunta retórica, a sobrancelha levantada, o “é, né, faz sentido” depois que o convidado extremista termina de falar. Nada disso é inocência. É técnica. É um método de distribuição ideológica que funciona JUSTAMENTE porque parece não ser.
Rogan não inventou isso, mas aperfeiçoou. E o formato se espalhou como modelo de negócio: no Brasil, nos Estados Unidos, em qualquer lugar onde exista um microfone, dois homens, e a percepção de que dizer “eu sou burro” antes de opinar te protege das consequências de opinar. Toda essa constelação de caras que se definem como “movidos por fatos” e “avessos a narrativas” são rigorosamente a mesma coisa que acusam os outros de ser: influenciadores de opinião protegidos por uma estética de informalidade que os blinda da responsabilidade que teriam se admitissem o que são. Um âncora de jornal que endossa um candidato e o candidato destrói o país é COBRADO. Um podcaster de bermuda que faz a mesma coisa com o triplo da audiência é tratado como se estivesse “só conversando”. A bermuda é a blindagem. O microfone de 200 milhões de dólares ao ano parece um bate-papo porque o set design é um sofá e uma geladeira de cerveja.
E o pior é que funciona. Funciona porque o público QUER acreditar que está assistindo a uma conversa entre iguais e não a um veículo de propaganda com formato de entretenimento. A identificação é o produto. “Esse cara pensa como eu.” Não. Esse cara te ensinou a pensar como ele e te convenceu de que foi o contrário.
E agora a guerra. A guerra é diferente das deportações. As deportações atingiam gente que o público de Rogan não conhecia, não via, não encontrava. Famílias venezuelanas, guatemaltecas, haitianas. Abstração. Estatística. A guerra no Irã é diferente porque atinge a AUTOIMAGEM do ouvinte. “Eu votei num cara que prometeu que não ia entrar em guerra e ele entrou.” Isso dói não porque mata gente, mas porque faz o ouvinte se sentir trouxa. E sentir-se trouxa é a única coisa que esse público não tolera. Pode tolerar crueldade. Pode tolerar incompetência. Pode tolerar mentira descarada. Tolerou TUDO. Mas ser feito de otário, isso não. A indignação de Rogan não é sobre iranianos mortos. É sobre a ferida narcísica do seu público. E ele, como qualquer bom operador de audiência, sabe exatamente qual ferida coçar.
Mehdi Hasan pediu que eles “assumissem” o papel que tiveram. Isso não vai acontecer. Porque assumir significaria dizer, no ar, para 14 milhões de pessoas: eu ajudei a colocar esse cara no poder. Eu SABIA quem ele era. Em 2021 eu chamei ele de incitador de imbecis e em 2024 eu disse que concordava com cada palavra da defesa dele. Eu fiz isso porque era bom pro show. E agora as consequências estão acontecendo e eu estou descobrindo que consequências são reais.
Essa frase não existe no vocabulário do formato. Porque essa frase não gera clipe. Não viraliza. Não é compartilhável. Exige sentar com o próprio peso e ficar ali. E ficar ali não é conteúdo.
O que é conteúdo é sussurrar no microfone que a guerra é cortina de fumaça pro Epstein. Isso é compartilhável. Permite que 14 milhões de ouvintes absorvam a crítica sem absorver a culpa, porque a culpa significaria reconhecer que a máquina de podcast que transforma política em entretenimento é PARTE do problema que está sendo criticado. E reconhecer isso significaria questionar a máquina. E ninguém desliga uma máquina de 200 milhões de dólares ao ano porque descobriu que ela tem consequências.
O clipe vai circular por semanas. Dentro de seis meses, quando a guerra estiver normalizada e o próximo candidato precisar do palanque mais eficaz da política americana, Rogan vai abrir o estúdio em Austin e sentar com quem quer que prometa que dessa vez vai ser diferente.
O microfone nunca desliga. A indignação é só mais um episódio.
Sicko
Ex editor de gente pelada. Agora lê livros.
Editor literário e resenhista. Especialista em ficção, graphic novels e cultura digital.
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