Um jogo de cartas indie vendeu mais que o novo shooter da Bungie. Depois, o dev pediu desculpas por zoar demais
Slay the Spire 2 chegou ao acesso antecipado com 97% de aprovação, 573 mil jogadores simultâneos e uma piada sobre Marathon que saiu do controle.
Slay the Spire 2 está em acesso antecipado há três dias e já é o maior lançamento da Steam em 2026. O jogo de cartas e masmorras da Mega Crit atingiu 573 mil jogadores simultâneos, entrou no top 20 de jogos mais jogados da história da plataforma, tem 97% de aprovação em mais de 26 mil reviews, e de quebra humilhou o novo shooter da Bungie sem querer.
Vamos por partes. Porque essa história é boa demais.
O jogo que ninguém achou que ia ser tão grande
Para quem não conhece o primeiro: Slay the Spire é um roguelike de construção de baralho (deckbuilder). Você escolhe um personagem, monta um deck de cartas durante a partida, enfrenta monstros cada vez mais difíceis, e quando morre - e você vai morrer muito - começa de novo com tudo diferente. A graça é que cada tentativa é única. As cartas mudam, os caminhos mudam, os itens mudam. E quando você finalmente descobre uma combinação absurda de cartas que destrói tudo na frente, a sensação é viciante.
O primeiro vendeu mais de 7 milhões de cópias e praticamente criou um gênero inteiro. Jogos como Inscryption, Balatro e Monster Train existem por causa dele.
A sequência, lançada dia 5 de março, traz tudo do original expandido: cinco personagens jogáveis (três novos, dois que voltam), mais cartas, mais relíquias, novos ambientes, e a adição que todo mundo pediu - um modo cooperativo para até quatro jogadores. Dá pra subir a Spire com os amigos agora.
Os números que não fazem sentido
Olha o que aconteceu nos primeiros três dias:
- Pico de 573 mil jogadores simultâneos na Steam
- Top 20 de jogos mais jogados de todos os tempos na plataforma (ao lado de coisas como PUBG, CS2 e Cyberpunk 2077)
- 97% de aprovação em mais de 26 mil reviews, classificação “Extremamente Positiva”
- Entre os reviews em português brasileiro, a aprovação é de 98%
Para um jogo em acesso antecipado - ou seja, incompleto, com conteúdo que ainda vai ser adicionado ao longo de um a dois anos de desenvolvimento - esses números são quase absurdos. O primeiro Slay the Spire levou a vida inteira para chegar a 67 mil jogadores simultâneos. A sequência triplicou isso em menos de 24 horas.

A piada que saiu do controle
Aqui entra a parte engraçada.
Slay the Spire 2 e Marathon - o extraction shooter da Bungie que levou anos sendo produzido - lançaram no mesmo dia. Exatamente o mesmo dia. Um jogo de cartas indie contra o AAA da empresa que fez Destiny e Halo.
Quando ficou claro que o jogo de cartas estava massacrando o shooter nos charts da Steam, a Mega Crit postou um tweet: “Parabéns ao time de Marathon pelo lançamento! Não deixem projetos indie pequenos como este passarem batido só porque Slay the Spire 2 saiu.”
Era uma piada. Chamar um jogo que custou centenas de milhões de dólares de “projeto indie pequeno” era o oposto do que parecia. E por algumas horas, foi engraçado.
Mas os números continuaram subindo. No pico, Slay the Spire 2 tinha 573 mil jogadores simultâneos. Marathon? 88 mil. Um jogo de cartas feito por um estúdio minúsculo estava com quase sete vezes mais gente jogando do que o shooter AAA da Bungie. A piada virou massacre.
Casey Yano, cofundador da Mega Crit, voltou atrás: “Isso ficou mais maldoso do que a gente pretendia. Para ser justo, eu não achava que a gente ia realmente ultrapassar o Marathon em jogadores simultâneos.”
Vale dizer: Marathon lançou também no PS5 e Xbox Series X/S, então a comparação só pela Steam não conta a história toda. Mas a imagem de um deckbuilder roguelike atropelando o grande AAA da semana virou símbolo de alguma coisa que já vinha se formando. Jogos caros e ambiciosos não garantem mais nada. Jogos bons e com identidade, sim.
R$74,99 por um jogo inacabado que já vale a pena
No Brasil, Slay the Spire 2 custa R$74,99 na Steam. Quem não jogou o primeiro pode pegar o pacote com os dois por R$84,36. O jogo tem tradução completa para português brasileiro e roda em qualquer computador razoável (dual-core, 4GB de RAM, 1GB de vídeo).
O acesso antecipado deve durar de um a dois anos, com atualizações regulares adicionando cartas, eventos, inimigos e ambientes. Mas o que está ali já funciona. Os reviews são claros: um jogador descreveu como “Slay the Spire, só que melhor” e outro disse “eu deixaria esse jogo tomar conta dos meus filhos.”
A questão com acesso antecipado é sempre a mesma - você está pagando por uma promessa. Mas quando o jogo base já é viciante o suficiente para prender 573 mil pessoas em três dias, com cinco personagens, co-op funcionando e uma classificação de 97%, a promessa já está sendo entregue.
O que isso significa para a cena indie
Slay the Spire 2 não é uma exceção isolada. Balatro explodiu em 2024. Hades 2 quebrou recordes de acesso antecipado em 2025. O padrão se repete: estúdios pequenos com ideias fortes, sem orçamento de marketing bilionário, sem celebridades no elenco, sem campanhas agressivas, estão competindo de igual para igual com os maiores da indústria.
E quando competem, às vezes ganham. De lavada.
A Mega Crit pediu desculpas pela piada, mas não precisava. O jogo falou por eles.
Marina Costa
Entusiasta de tech e indie games
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