11 mil reviews negativas em Slay the Spire 2 por um patch que ninguém instalou ainda

Slay the Spire 2 caiu de 97% para 83% no Steam em menos de 24 horas. O patch que causou o review bomb era opt-in, de beta, e ainda nem estava no jogo principal.

Marina Costa
Marina Costa Entusiasta de tech e indie games
22 de março de 2026 4 min
Arte oficial de Slay the Spire 2 com os personagens principais contra fundo colorido
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Na quinta-feira, 19 de março, o Slay the Spire 2 Steam estava com 97% de aprovação - “Extremamente Positivo”, o topo da escala. Na sexta-feira, tinha acumulado mais de 11 mil novas reviews negativas em menos de 24 horas. Não porque o jogo quebrou. Não porque a MegaCrit adicionou microtransações. Porque o estúdio anunciou um patch de balanceamento - opt-in, em branch de beta, que o jogador precisa ativar manualmente para nem testar.

O patch nem estava no jogo principal.

Slay the Spire é daqueles jogos que precisa de pouca apresentação pra quem acompanha indie, mas vale a contextualização: quando o primeiro saiu em Early Access em 2017, praticamente não existia o conceito de roguelike de construção de baralho - o tipo de jogo onde você monta um deck de cartas enquanto avança por andares gerados aleatoriamente e cada partida começa do zero. O primeiro Slay the Spire inventou a categoria inteira. Hoje, qualquer título que mistura cartas com roguelike está, em algum grau, pagando dívida pra ele.

O segundo chegou em Early Access carregando essa herança e entregou: a crítica especializada deu 90 no Metacritic logo nas primeiras semanas, com reviews chamando o jogo de “uma melhoria sólida sobre o predecessor, com construção de deck recompensadoramente complexa.” Era o jogo indie mais esperado do ano, e estava cumprindo a promessa.

Aí veio a Beta Patch v0.100.0.

Screenshot de gameplay de Slay the Spire 2 mostrando cartas e o sistema de combate
Screenshot de gameplay de Slay the Spire 2 mostrando cartas e o sistema de combate

A mudança que acendeu o estopim foi na Preparada, uma carta da personagem Silenciosa que custava 0 de energia e fazia uma coisa muito boa: você comprava duas cartas e descartava duas. Zero custo, valor alto, e base de várias estratégias de loops infinitos que os jogadores mais dedicados tinham construído ao longo de semanas. A nova versão custa 1 de energia, descarta duas cartas e devolve 2 de energia no próximo turno - uma mudança que altera o fluxo completamente pra quem dependia do custo zero.

Junto com isso, o chefe Porteiro ganhou um buff que muitos consideram punitivo demais: agora ele remove permanentemente a décima carta que você comprar por turno pelo resto da batalha. Se essa carta for importante pro seu baralho, a partida pode se tornar muito mais difícil sem que o jogador tenha feito nada de errado.

A MegaCrit respondeu com calma: “esse progresso não vai ser linear, e nenhuma mudança é necessariamente permanente. O jogo vai passar por mudanças constantes com o objetivo de se tornar tão equilibrado quanto o StS1 se tornou.” É uma resposta razoável. É exatamente o que você espera de um estúdio responsável que sabe fazer Early Access de verdade - o primeiro Slay the Spire levou anos de iteração antes de chegar na versão final que todo mundo ama.

O problema é que 11 mil pessoas escolheram comunicar o desacordo não nos canais de feedback interno do jogo, mas nas reviews do Steam. E isso tem consequência real: derruba a nota que aparece pra quem ainda não comprou e está decidindo.

Tem um fator que explica parte do volume, e que vai além da raiva com nerf: as restrições do Steam na China. Jogadores chineses representam uma fatia grande da base de Slay the Spire 2, mas na versão disponível lá, recursos de comunidade são bloqueados. Fóruns internos, feedback direto ao desenvolvedor - fora. Review do Steam funciona normalmente. Resultado: um grupo com preocupações legítimas e sem outros canais viáveis usou a única ferramenta acessível. As reviews em inglês seguiram em 95-96% positivas. As reviews em chinês foram pra 63%.

Não é só birra - é também um problema estrutural de acesso a canais de comunicação.

Mesmo assim, não dá pra ignorar o padrão que aparece às vezes em comunidades de jogos indie muito apaixonadas: quando um jogo importa demais, qualquer mudança parece pessoal. O Slay the Spire tem esse efeito. Quem passou centenas de horas construindo estratégias sente que um nerf não é ajuste de balanceamento - é ataque ao trabalho deles.

No final das contas, o jogo com 90 no Metacritic está em 83% no Steam - ainda “Muito Positivo”, ainda amplamente recomendado. A nota vai se estabilizar conforme o ciclo de Early Access continua. A MegaCrit não é novata em desenvolvimento longo e iterativo, e não parece que vai perder o rumo por causa de uma semana difícil.

O que fica é a pergunta que o Steam nunca resolve: quando uma review é feedback legítimo sobre o jogo, e quando é pressão organizada sobre uma decisão de design? A plataforma não distingue. Os desenvolvedores é que têm que navegar isso, patch por patch.

Marina Costa
AUTOR

Marina Costa

Entusiasta de tech e indie games

Especialista em games indie e multiplayer. Jogadora e analista de mecânicas de jogo.

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