A Sony matou os discos. Em 48 horas, virou investigação federal no Brasil.

Em 48 horas, o fim dos discos no PlayStation gerou investigação no Senacon, petição com 35 mil assinaturas e uma provocação do Xbox.

Carla Mendes
Carla Mendes Cobrindo esports desde 2018
3 de julho de 2026 5 min
Deputada Erika Hilton com a mão erguida em gesto de parar, entre um console PS5 à esquerda e um disco de PlayStation partido sob uma lupa à direita
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O anúncio caiu na terça-feira, 1º de julho. Em 48 horas, a Sony já acumulava uma representação no Senacon, uma petição com mais de 35 mil assinaturas, uma campanha de cancelamento de PS Plus e o Xbox usando um disco de Halo como munição de marketing. Tudo isso enquanto a empresa não disse absolutamente nada.

Para quem está chegando agora: na terça, a Sony confirmou o fim da mídia física no PlayStation — a produção de discos para novos jogos encerra em janeiro de 2028 e o PS6 deve ser totalmente digital. A justificativa oficial foi que “a preferência por mídia digital supera significativamente o disco físico”. A reação foi imediata, global e, no Brasil, tomou um caminho específico.

Deputada leva o caso ao Senacon

A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) protocolou no Senacon um pedido de abertura de investigação administrativa contra a Sony Interactive Entertainment. O Senacon é a secretaria federal responsável pela defesa do consumidor — com poder de investigar, multar e exigir mudanças de conduta de empresas que operem no país.

O argumento central: a Sony está eliminando unilateralmente direitos que os consumidores sempre tiveram, o que pode abrir caminho para “novas práticas monopolistas das fabricantes de consoles e para serviços de assinatura cada vez mais caros e abusivos”. Os artigos do Código de Defesa do Consumidor citados são o 6 (direito à informação adequada), o 39 (vedação de práticas abusivas) e o 51 (nulidade de cláusulas contratuais abusivas).

Comprar um disco físico sempre garantiu direitos que o digital não tem: revender, emprestar, comprar usado, preservar uma coleção. A Sony está eliminando esses direitos sem nenhuma contrapartida equivalente.

O argumento tem peso específico no Brasil. Jogos modernos frequentemente ultrapassam 100 GB de download — um número que importa em regiões com internet instável ou com planos limitados. O Senacon não respondeu. A Sony também não.

35 mil assinaturas, 100 milhões de views e a onda de cancelamentos

O post da Sony no X passou de 100 milhões de visualizações. Uma enquete publicada pela IGN mostrou que mais de 90% do público do site rejeita um futuro exclusivamente digital nos games. Uma petição organizada pela varejista canadense PNP Games no Change.org passou de 35 mil assinaturas em dois dias. A CEO Jade Pearce resumiu o tom: “Um disco é um jogo real que você possui. Você pode emprestá-lo, trocá-lo, revendê-lo, dar de presente, colecionar ou passá-lo para seus filhos. Uma caixa com apenas um código de download não é a mesma coisa.”

A campanha de cancelamento de PS Plus se espalhou rápido. O usuário “Pyo” organizou o movimento nas redes: “Manifestem-se hoje ou perderão a assinatura para sempre!” Jogadores postaram prints de cancelamentos ou de renovação automática desativada.

O anúncio veio semanas depois de a Sony remover mais de 550 filmes e séries da PlayStation Store sem aviso adequado. A Sony está deixando claro o que você realmente compra no digital: uma licença revogável a qualquer momento.

PS6 sem disco e 30% de comissão em cada jogo

A lógica por trás da decisão é simples.

O site de análise de hardware Moore’s Law Is Dead argumentou que a Sony eliminou os discos para proteger as margens do PS6. O PS6, esperado para 2027 ou 2028, chega sem leitor de disco. Hardware mais simples de fabricar reduz custo. E sem o disco, a Sony assume controle total sobre distribuição e preços: cada jogo digital vendido gera uma comissão de 30% para a PlayStation Store. Um disco revendido pela quinta vez não vale nada para eles.

O detalhe que irritou a comunidade de desenvolvimento: os estúdios souberam do anúncio ao mesmo tempo que o público, sem aviso prévio, sem consulta. Comunicado como fato consumado.

Para especialistas em preservação de jogos, o problema vai além do mercado. Sem mídia física, preservar títulos antigos depende da manutenção dos servidores e da disposição das empresas — e a própria Sony acabou de confirmar, ao fechar as lojas do PS3 e PS Vita, que essa disposição tem prazo de validade.

Xbox, Halo e o timing cirúrgico

Um dia depois do anúncio da Sony, a Microsoft fez o que a comunidade esperava que alguém fizesse.

O perfil oficial do Xbox publicou sobre Halo: Campaign Evolved com um checkmark verde ao lado de “Physical discs”. Sem citar a rival pelo nome, a mensagem foi direta.

A ironia existe: mesmo o disco do Halo exige um download obrigatório antes de jogar. O disco não roda sozinho. Mas o argumento que a Microsoft explorou tem fundamento real — quem compra em disco pode revender ou trocar depois, algo que compra digital simplesmente não permite.

O GitHub, que pertence à Microsoft, entrou no tom e anunciou que enviaria repositórios de código em CD-ROM real como ação de tempo limitado. A Domino’s UK postou que estava “encerrando a produção de pizzas físicas em abril de 2027”. Na França, Jean-Luc Mélenchon pediu revisão legislativa: “amanhã, vocês vão pagar sem jamais possuir nada”.

Quando a Domino’s UK e um político francês entram no mesmo debate sobre PlayStation, o assunto já saiu de fórum de gamer e virou pauta geral.

A fábrica da Sony na Áustria produz atualmente cerca de 600 mil discos por dia, metade destinados a jogos de PlayStation. O CEO da unidade já confirmou que espera que essa produção caia para 10% do volume atual até 2028. O calendário industrial já foi definido. A resposta para a investigação do Senacon, para as 35 mil assinaturas da petição e para o cancelamento em massa de assinaturas ainda não.

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Carla Mendes

Cobrindo esports desde 2018

Cobrindo cenário competitivo de esports desde 2018. Acompanha torneios e equipes profissionais.

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